sexta-feira, 21 de outubro de 2011
poética
1
o poema é filho
de um só pai.
a liberdade também
desfralda asas
em acidez de solidão.
o poema é parto
que desse à luz um mistério:
qual bela criança, retorta!
e pouco importa
se menino jesus
que bebê de rosemary.
2
o poema ergue-se
para baixo.
não escavado como um fojo de feras.
desce como um rio que encorpa,
adianta-se ao sumidouro.
o poema ergue-se
para baixo,
até a réstia sob a porta,
tudo que é vista ofuscada.
chega à grafia do ponto,
à pedra do caminho:
o olho que fecha,
o olho que abre,
o pináculo,
a bola de haxixe
como fibrose, cabeça de alfinete
ou marimbondo.
continua, se quiser,
para viver o desmaio
daquele pássaro.
3
e assim, nas pontas dos bisturis,
vou cosendo sentidos,
lavrando traumatismos.
pontuo como bem quero,
espulgo o teor preciso -
pronúncia a pronúncia, brusquidão
a brusquidão.
(e pra quê?)
antes de abandonar o poema,
tamarindo espremido,
casca de cigarra,
sequer percebo o que calo
quem vai dizendo.
tudo quanto tranço, a percutir
as vigas aos restos
são apenas fios do que somos,
que sou também
da autoria de meus versos.
4
primeiro cuspo.
a destilação vem depois,
transmudando em sangue.
eu e o que sou sem me conhecer
compartilhamos agulhas
numa transfusão de sonho.
(sou da autoria de meus versos.)
5
poesia é tanger o violino
com um estilete.
6
há quem tenha buscado
a pedra de toque,
o verbo atrás do verbo,
o silêncio dentro do silêncio,
o caroço da língua.
houve quem tenha inventado
o lírio
e da espinha do peixe
forjado uma canoa
e erguido raízes (como patamares)
às lindes do firmamento.
houve quem macerava
a fruta
por que pingasse o último mel.
me admira como ficou
o gosto da sede
e como
nem mesmo a eternidade
foi suficiente.
7
não desconfieis dos poetas!
são barcas sobre os telhados.
sua loucura é o dia-a-dia
do trabalhador.
* primeiro poema do primeiro livro (sol sem pálpebras, 2007)
quinta-feira, 20 de outubro de 2011
aulas de solidão (6)
A poesia é um membro improdutivo da sociedade.
o poeta trabalha
(fotomontagem de jorge de lima,
pintura em pânico, 1943)
Não é possível contratar a poesia. Não é possível jogá-la no departamento de marketing, na agência de publicidade, no almoxarifado. Nem relegá-la ao escritório contábil
e dela esperar um memorando e 10 páginas de relatório até às 4h da tarde. A poesia não recebe seguro-desemprego
gratificações
promoções
admoestações
cursos de treinamento qualificação reciclagem
realocações
reclamações
chamados a reuniões
esporros de chefe décimo-
terceiro salário.
A poesia não tem nem pra passagem. A poesia, graças a deus, está desempregada.
quarta-feira, 19 de outubro de 2011
dylan thomas (II)
EM MEU OFÍCIO OU SOMBRIA ARTE
Em meu ofício ou sombria arte
Exercida na noite estanque
Quando só a lua se enraivece
E os amantes jazem num colchão
Com suas dores todas entre os braços
Trabalho à luz cantante
Não pela cobiça ou pelo pão,
Cabotino comércio de encantos
Sobre palcos de marfim,
Mas pelo salário mínimo, isso sim,
De seu mais secreto coração.
Não para o soberbo na solidão
Da lua furiosa escrevo
Nestas páginas espargidas
Nem para os mortos conspícuos
Com seus salmos e rouxinóis
Mas para os amantes, o abraçar-se
Aos pesares de tempos idos,
Que não me dão salário ou elogios
Nem estimam meu ofício ou arte.
tradução: rodrigo madeira
IN MY CRAFT OR SULLEN ART
In my craft or sullen art
Exercised in the still night
When only the moon rages
And the lovers lie abed
With all their griefs in their arms,
I labor by singing light
Not for ambition or bread
Or the strut and trade of charms
On the ivory stages
But for the common wages
Of their most secret heart.
Not for the proud man apart
From the raging moon I write
On these spindrift pages
Nor for the towering dead
With their nightingales and psalms
But for the lovers, their arms
Round the griefs of the ages,
Who pay no praise or wages
Nor heed my craft or art.
IN MY CRAFT OR SULLEN ART
In my craft or sullen art
Exercised in the still night
When only the moon rages
And the lovers lie abed
With all their griefs in their arms,
I labor by singing light
Not for ambition or bread
Or the strut and trade of charms
On the ivory stages
But for the common wages
Of their most secret heart.
Not for the proud man apart
From the raging moon I write
On these spindrift pages
Nor for the towering dead
With their nightingales and psalms
But for the lovers, their arms
Round the griefs of the ages,
Who pay no praise or wages
Nor heed my craft or art.
segunda-feira, 17 de outubro de 2011
ivan justen santana
PÓS-DESCONSTRUÇÃO ARCAICA
Sentindo um cheiro pestilento, lento,
Levanto do meu leito estreito, eito,
No tique a que vivo sujeito, jeito
De santo que um dia arrebento, bento –
Notando o quanto me delata, lata,
Aquela sensação tamanha, manha,
A imagem da grande barganha, ganha,
É o nó que na garganta engata, gata –
E o surto a me levar consigo, sigo,
Em ânsia por amor e abrigo, brigo,
Tocando um som que, mesmo surdo, urdo –
Pois graças ao meu velho e cego ego
Entorto verso e rima e blogo, logo,
O nada que me dá, contudo, tudo.
IVAN JUSTEN
sábado, 15 de outubro de 2011
leo maslíah (biromes y servilletas)
CANETAS E GUARDANAPOS
Em Montevidéu há poetas poetas poetas
Que sem bumbos nem trombetas trombetas trombetas
Vão saindo de porões e casamatas e matas e matas
De paredes de silêncios de semibreves pontuadas
Saem de buracos mal tapados tapados tapados
E projetos inalcançados cansados cansados
Que regressam em fantasmas multicores em cores em cores
A pintar-te as olheiras e pedir-te que não chores
Têm ilusões compartidas partidas partidas
Pesadelos preferidos feridos feridos
Novelos de palavras confundidas fundidas fundidas
Ao seu triste passo lento pelas ruas e avenidas
Não almejam glórias nem lauréis lauréis lauréis
Se contentam com papéis papéis papéis
Experiências totalmente impessoais pessoais pessoais
Elementos muito parciais que reunidos não são tais
Falam da aurora até cansar cansar cansar
Sem ter medo de plagiar plagiar plagiar
Desde que escrevam escrevam escrevam, nada disso importa
Sua mania sua loucura sua obsessão neurótica
Andam pelas ruas os poetas poetas poetas
Como se fossem cometas cometas cometas
Num espesso céu de metal fundido fundido fundido
Impenetrável desastroso lamentável e aborrecido
Em Montevidéu há canetas canetas canetas
Esvaindo-se em letras e letras e letras
De palavras retorcendo-se confusas confusas confusas
Em estreitos guardanapos como alcóolicas reclusas
Andam pelas ruas escrevendo e vendo e vendo
O que veem vão dizendo e sendo e sendo
Esses poetas que caminham caminham caminham
Vão contando o que veem, e o que não veem, eles criam
Miram o céu esses poetas poetas poetas
Como se eles fossem flechas flechas flechas
Lançadas ao espaço e um vento ao léu ao léu ao léu
As fizesse regressar, cravando-as em Montevidéu
Experiências totalmente impessoais pessoais pessoais
Elementos muito parciais que reunidos não são tais
Falam da aurora até cansar cansar cansar
Sem ter medo de plagiar plagiar plagiar
Desde que escrevam escrevam escrevam, nada disso importa
Sua mania sua loucura sua obsessão neurótica
Andam pelas ruas os poetas poetas poetas
Como se fossem cometas cometas cometas
Num espesso céu de metal fundido fundido fundido
Impenetrável desastroso lamentável e aborrecido
Em Montevidéu há canetas canetas canetas
Esvaindo-se em letras e letras e letras
De palavras retorcendo-se confusas confusas confusas
Em estreitos guardanapos como alcóolicas reclusas
Andam pelas ruas escrevendo e vendo e vendo
O que veem vão dizendo e sendo e sendo
Esses poetas que caminham caminham caminham
Vão contando o que veem, e o que não veem, eles criam
Miram o céu esses poetas poetas poetas
Como se eles fossem flechas flechas flechas
Lançadas ao espaço e um vento ao léu ao léu ao léu
As fizesse regressar, cravando-as em Montevidéu
tradução: lu cañete e rodrigo madeira
***
há uma belíssima recriação em português, letra de CARLOS SANDRONI.
se perde em ironia, a canção ganha em beleza e força dramática.
milton nascimento :
clara sandroni :
sexta-feira, 14 de outubro de 2011
quarta-feira, 12 de outubro de 2011
SentiDo q se sente no nervo do olho no ninho
dos cabelos nos ossos dos dedos na
pele aberta sob a pele intacta,
só depois fui ler
só depois fui ler
a BULA do remédio
vencido:
vencido:
para a contradição
não há contraindicação
POSOLOGIA:
linguagem e
vida
POSOLOGIA:
linguagem e
vida
CUIDADOS:
em caso de loucura,
enlouqueça
ADMINISTRAÇÃO DO USO:
não há disciplina; apenas
febre,
algo cardioerrático,
de varar noites
de varar noites
CUIDADOS 2:
não vir a ser um passatempo
(contratempo)
nem jamais um anticorpo
(corpo)
segunda-feira, 10 de outubro de 2011
paulo henriques britto
CREPUSCULAR
2.
Chegamos tarde, é claro. Como todos.
Chegamos tarde, e nosso tempo é pouco,
o tempo exato de dizer: é tarde.
Todas as sílabas imagináveis
soaram. Nada ficou por cantar,
nem mesmo o não-ter-mais-o-que-cantar,
o não-poder-cantar, já tão cantado
que se estiolou no infinito banal
de espelhos frente a frente a refletir-se,
restando da palavra só o resumo
da pálida intenção, indisfarçada,
de não dizer, dizendo, coisa alguma.
5.
Toda palavra já foi dita. Isso é
sabido. E há que ser dita outra vez.
E outra. E cada vez é outra. E a mesma.
Nenhum de nós vai reinventar a roda.
E no entanto cada um a re-
inventa, para si. E roda. E canta.
Chegamos muito tarde, e não provamos
o doce absinto e ópio dos começos.
E no entanto, chegada a nossa vez,
recomeçamos. Palavras tardias,
mas com vertiginosa lucidez –
o ácido saber de nossos dias.
6.
No fim de tudo, restam as palavras.
Na solidão do corpo, no saber-se
apenas pasto para o esquecimento,
há sempre a semente de alguma ilíada
mínima, promessa de permanência
no mármore etéreo de uma sílaba,
mesmo sendo mero sopro, captado
na frágil arquitetura do papel,
alvenaria de ar. Restará
a palavra que deixarmos no fim da
nossa história. Que a julguem os outros,
que chegarão depois. Mais tarde ainda.
* três das seis partes do poema CREPUSCULAR (BRITTO, paulo henriques. tarde. são paulo: companhia das letras, 2007).
aulas de solidão (5)
Que importa o tormento? Que importa a chuva, o medo, a morte, a indiferença? Que importam os poetas e os poemas? E sua dor, sua alegria, sua vaidade, sua indigência?
Que importa a elegância patética, o coração na lapela? E as palavras que nos vertiginam e rasam abismos como pássaros do avesso, calcificados na letra?
(O cálcio nos dentes de aves com dentes.)
A poesia continua sendo – no meio-dia da madrugada, por exemplo – o sorriso da linguagem, rútila de dentes.
A linguagem que sorriu sorrirá outras vezes. Porque a Graça é infinita.
quinta-feira, 6 de outubro de 2011
chão de fábrica mão de fabbro
desista.
um soneto nunca
soará como beethoven.
mas você pode arriscar
outra música: o osso no osso
– até um soneto, se infestado
de insetos, talvez soe.
não desista.
faça com claves fortes
em sucintas lições de gritar só
com os olhos
e o peso das coisas.
faça
com as mãos nuas.
porrada pedagógica,
fala arrancada ao que é mudo e mundo,
música
reduzida à ineludível
matéria
de caco corpo
tijolo
***
CLÁUSULA CONTRATUAL:
faça.
não lhe dará um teto contra
chuvas e indiferença.
faça.
não lhe ofertará boa mesa
boas maneiras, boa cama.
faça.
não lhe devolverá a inocência
nem a infância.
faça.
não o remirá de sua própria
ignorância.
faça.
não lhe dará milhagens, milharais e coisas
prestigiosas ou plásticas.
faça.
pouco importa se você fizer ou não.
faça.
***
CLÁUSULA CONTRATUAL:
faça.
não lhe dará um teto contra
chuvas e indiferença.
faça.
não lhe ofertará boa mesa
boas maneiras, boa cama.
faça.
não lhe devolverá a inocência
nem a infância.
faça.
não o remirá de sua própria
ignorância.
faça.
não lhe dará milhagens, milharais e coisas
prestigiosas ou plásticas.
faça.
pouco importa se você fizer ou não.
faça.
terça-feira, 4 de outubro de 2011
receita de bomba caseira
motivos que se excluem
(mesmo um único
ingrediente:
esquizo
frê
mito)
basta deixá-los se amando
na folha, como briga
ou lar(galos aurorescentes
ao mesmo tempo
sobre o giz da rinha).
deixa-os
se fundirem no ataque
e olha.
não desperdices teus olhos
2.
não há de durar muito.
a coisa toda (de opostos)
explode
no ar no teu rosto:
pássaro
(sempre em suma
antes que suma
da vista
o arame das palavras
e a harmonia)
estrepitosamente aberto
na altura do peito, feito
um jornal de impossíveis.
domingo, 2 de outubro de 2011
william carlos williams (II)
A ROSA
A rosa é obsoleta
mas cada pétala finda em
um fio de lâmina, a dupla faceta
cimentando as ranhuradas
colunas de ar – O fio
corta sem cortar
chega a – nada – renova-
se em metal ou porcelana –
para onde? Finda –
Mas se finda
o início é começado
de tal modo que envolver-se com rosas
torna-se uma geometria –
Mais afiada, limpa, cortante
representada na faiança -
o prato quebrado
esmaltado com uma rosa
Em algum lugar o bom-senso
faz rosas de cobre
rosas de aço –
A rosa trazia o peso do amor
mas o amor está no fim – das rosas
É na lâmina da
pétala que o amor espera
Crespa, trabalhada para derrotar
o trabalho – frágil
arrancada, úmida, semierguida
fria, precisa, tocante
tradução: rodrigo madeira
THE ROSE
The rose is obsolete
but each petal ends in
an edge, the double facet
cementing the grooved
columns of air – The edge
cuts without cutting
meets – nothing – renews
itself in metal or porcelain –
whither? It ends –
But if it ends
the start is begun
so that to engage roses
becomes a geometry –
Sharper, neater, more cutting
figured in majolica –
the broken plate
glazed with a rose
Somewhere the sense
makes copper roses
steel roses –
The rose carried weight of love
but love is at an end – of roses
It is at the edge of the
petal that love waits
Crisp, worked to defeat
laboredness – fragile
plucked, moist, half-raised
cold, precise, touching
quarta-feira, 28 de setembro de 2011
marianne moore
POESIA
Eu também não gosto dela: há coisas mais importantes para além
de toda esta farsa.
Lendo-a, contudo, com absoluto desprezo,
descobre-se
nela, no fim das contas, um lugar para o autêntico.
Mãos que podem agarrar, olhos
que podem dilatar-se, pelos que podem eriçar-
se necessário, essas coisas são importantes não porque uma
grandiloquente interpretação pode ser-lhes atribuída mas sim porque
elas são
úteis. Quando se tornam derivadas a ponto de se tornarem
ininteligíveis,
o mesmo pode ser dito de todos nós, que
não admiramos aquilo
que não podemos entender: o morcego
aguentando-se de ponta-cabeça ou em busca de algo para
comer, elefantes forcejando, um cavalo xucro num rodopio, um lobo
incansável sob
a árvore, o crítico inamovível contraindo a pele como um cavalo
que sentisse a sarna, o fã de
beisebol, o estatístico –
tampouco é válida
a discriminação contra "documentos comerciais e
livros escolares"; todos esses fenômenos são importantes. Deve-se
fazer uma distinção
no entanto: quando trazidos à luz por meios poetas, o
resultado não é poesia,
tampouco, até que os poetas dentre nós possam ser
"literalistas da
imaginação" – acima
da insolência e trivialidade, e possam apresentar
à inspeção "jardins imaginários com sapos de verdade", nós a
experimentaremos.
Neste meio tempo, se você exigir por um lado
a matéria-prima da poesia em
toda a sua crueza e
a qual é por outro lado
autêntica, você se interessa por poesia.
tradução: rodrigo madeira
POETRY
I, too, dislike it: there are things that are important beyond
all this fiddle.
Reading it, however, with a perfect contempt for it, one
discovers in
it after all, a place for the genuine.
Hands that can grasp, eyes
that can dilate, hair that can rise
if it must, these things are important no because a
high-sounding interpretation can be put upon them but because
they are
useful. When they become so derivative as to become
unintelligible,
the same thing may be said for all of us, that we
do not admire what
we cannot understand: the bat
holding on upside down or in quest of something to
eat, elephants pushing, a wild horse taking a roll, a tireless
wolf under
a tree, the immovable critic twitching his skin like a horse
that feels a flea, the base-
ball fan, the statistician –
nor is it valid
to discriminate against "business documents and
school-books"; all these phenomena are important. One must make
a distinction
however: when dragged into prominence by half poets, the
result is not poetry,
nor till the poets among us can be
"literalists of
the imagination – above
insolence and triviality and can present
for inspection, "imaginary gardens with real toads in them",
shall we have
it. In the meanwhile, if you demand on the one hand,
the raw material of poetry in
all its rawness and
that which is on the other hand
genuine, you are interested in poetry.
segunda-feira, 26 de setembro de 2011
notícias de foz do iguaçu
kodak instamatic 101
então você é este
exatamente?
criança aos 7
sob aquele céu, azul
com glaucoma,
o sol em carne-viva,
foz do iguaçu?
quantos anos você
tem?
– eu tenho
– eu tenho
a eternidade!
nunca mais e sempre.
quem?
que céu?
memória avulsa,
sem consequência,
sem vir ou ir
a qualquer parte.
bala alojada,
relâmpago,
pássaro do pasmo,
tronco arrastado,
ou ossos ou cisne,
no curso mineral
do esquecimento
e da invenção.
***
super 8
p. mano tião
como fotos esmurradas de sol
em ventrículos de nossa saudade
e curtas projetados no lençol
que a mãe estendeu no varal à tarde:
CURTA-METRAGEM #189
(verdor da relva e da vida)
um menino isolou a bola...
– eu é que não vou buscar!
domingo, 25 de setembro de 2011
notícia de ciudad del este
* poema escribido en portunhol salvaje.
del gran douglas diegues, auténtico poeta brasileño
falsificado en el paraguay.
CUMBIA DEL FIN DEL MUNDO A LA VINAGRETA
Si muebes biem la Kola,
te Exportam.
Si non pagas la Luz,
te kortam.
Si das manija,
te querem meter la pija.
Si sos el Rey de la Guaripola,
te lambem las bolas.
Komédias dramátikas.
Dramas kômikos.
Episódios kargados
de acciones y emociones.
El horror kausa risa.
La risa kausa horror.
Alumnita pela tetas
en la famoza Interneti.
El Rolleti
se konecta.
Kuarentón y Travesti
pillados en Ñemby
correm de la Polí.
La gata “Luz”
es kondenada a muerte.
Hoy non es
tu dia de Suerte.
Hoy es
tu dia de Suerte.
Creer non es saber
Kulo del mundo o kulo de moska.
Venga.
Venga.
Venga y konoska.
DOUGLAS DIEGUES
quinta-feira, 22 de setembro de 2011
uma igrejinha
nada é mais patético e belo
e difícil
que a igrejinha abandonada:
o capim no altar, as goteiras
a infiltração das estrelas
e as velas gastas
como pequenos pilares
do escuro.
nunca vi
uma igrejinha baldia
mas
se agora a vejo
(as lembranças tomadas de mato
e uma única açucena)
algo em mim que remontasse
campeia por dentro
monta ali acampamento
ou indigência
e me lembro
da poesia,
do amor que não se lembra
quarta-feira, 21 de setembro de 2011
Às margens do Han
Quando assisti à “Poesia”, do diretor sul-coreano Lee Chang-Dong, fui ao mesmo tempo arrebatado pelas imagens e vertiginado pelo abismo existencial e moral em que mergulham os dois personagens centrais – a avô e seu neto, criado por ela. O adolescente participa de um crime covarde contra uma colega de escola, que se mata atirando-se de uma ponte do rio Han. Eis a primeira cena do filme: um corpo afogado fluindo rio abaixo.
No entanto, o que mais me impressionou não foi propriamente a abordagem realista (quase naturalista) da ruína pessoal, do tecido familiar mais e mais esgarçado, mas sim, encapsulados nesta mesma ruína, o desejo e a cisma da poesia, a vontade de finalmente descobrir o que é e como se faz essa tal poesia. Como escreve a avó, sentada no banco de um parque: “Som de pássaros cantando. O que eles estão cantando?” Impressionou-me o contraste entre o esfacelamento da normalidade cotidiana e a busca pessoal da poesia já no crepúsculo da vida.
Mija (a atriz Yun Jiang-hie) decide voltar-se para um antiga vocação nunca realizada, nunca sequer explorada. “Tenho veia de poeta. É, gosto de flores e falo coisas esquisitas”, diz à sua filha. Para tanto, para se realizar poeta e escrever sua única obra (este é o objetivo de Mija: escrever um único poema), matricula-se em um oficina de criação poética. E nos dá, ao longo do filme, uma aula.
Como agravante ao drama familiar, Mija, a poeta aprendiz, descobre que está nos estágios iniciais do Alzheimer. Tendo ao fundo camélias de plástico e uma janela que filtra o mundo, a médica assevera: “Por enquanto está esquecendo algumas palavras... Gradualmente, sua memória deverá piorar muito. No começo, não vai se lembrar de substantivos. Depois, não vai se lembrar dos verbos... Sabe, os verbos?” Ao que Mija responde: “Sim, claro que sei. Mas os substantivos são mais importantes.” E ri, gostosa e estoicamente.
Começa, portanto, uma contagem regressiva: será que ela escreverá, engolfada em problemas de toda ordem, esquecendo as palavras como quem esquece os sonhos banais da noite anterior, será que conseguirá escrever seu primeiro e último poema?
De imediato, veio-me à mente o oposto daquele sonho de Quintana: uma poesia tão fundamental que fosse escrita apenas com substantivos; ou, exorbitando de qualquer viabilidade prática, uma linguagem composta a partir do silêncio dos lapsos, do silêncio de substantivos esquecidos, naquele vazio quente, vivo e angustioso como deve ser a linguagem das plantas e dos animais.
Pois a poesia sempre me pareceu caminhar na wildiana corda-bamba de um paradoxo: poemas se fazem de palavras que fazem silêncio.
Ou não é isso? Imediatamente após lermos um grande poema, não nos resta, diante e dentro de nós, apenas a materialidade de um silêncio mais ou menos incômodo? Como o grito súbito e agudo, próximo à surdez, que um tímpano experimenta após o estouro. Como o sotaque do silêncio.
Quando leio um grande poema, quase sempre tenho a impressão de que pouco ou nada entendi; a mesma sensação que filmes como “Poesia” e “A Estrada da Vida”, de Fellini, me causaram (ou, semana passada mesmo, “Melancolia”, de Lars Von Trier, uma belíssima e perturbadora obra-prima). Tenho a impressão de que sequer é importante ENTENDER alguma coisa. Não porque seja hermético; pelo contrário: aquilo é menos uma informação ou conhecimento do que uma experiência. Conforme escreveu Clarice numa de suas clarividências (obscurividências) mais repisadas, viver ultrapassa o entendimento.
O verdadeiro poema, para além de leitura, é uma vivência, ainda que ficcional ou especulativa. E exatamente aí, neste corpo nítido e sensível, mas inclassificável, cabe toda a dor e alegria do mundo, todas as flores e fezes, toda a beleza e miséria do mundo. Exatamente aí cabe o coração e a mente de Mija, o galope do Alzheimer e o lento e impreciso florescer de um único mas inevitável poema.
No filme, os alunos da oficina de criação poética são instados pelo professor a relatar a lembrança que lhes seja a mais cara e bonita. Uma das alunas, uma mulher malferida de paixão, fala de seu caso extraconjugal com um colega de trabalho. De como não consegue esquecê-lo, mesmo que tenham feito amor uma única vez; e de como aquilo dói. Ela arremata: “Eu pareço uma louca, choro e dou risada. Mas... este sofrimento... está quase me matando... mas... até o sofrimento é bonito.”
Mija também faz sua partilha. Relata a primeira das mais tenras lembranças, menininha de três ou quatro anos. Mal sabe ela que, naqueles poucos instantes, e assim como fizera em outros momentos do filme, novamente compõe diante de nós “o primeiro e último poema”.
Para encerrar, tomo a liberdade de versificar aquela fala singela e memorável. Ela também já faz parte de minhas mais belas lembranças...
Minha mãe estava doente.
Minha irmã mais velha cuidava de mim.
Temos dois anos de diferença. Na sala de estar,
as cortinas vermelhas fechadas.
Através de uma pequena fresta, o sol
está entrando.
Posso ver metade do rosto de minha irmã.
A outra metade está escondida nas sombras.
Acho que ela me vestiu com roupas bonitas.
– Mija, venha cá, venha cá! – ela me chama
batendo as mãos.
Vou cambaleando até ela.
Embora fosse pequena, eu sabia que
ela me amava. Ela me chamou
e aquilo foi bom. Foi uma coisa feliz.
“Estou tão bonita”, foi o que senti.
– Mija, venha cá! Venha cá, Mija!
segunda-feira, 19 de setembro de 2011
william carlos williams
O PARDAL
(A Meu Pai)
Este pardal
que vem pousar em minha janela
é uma verdade mais poética
do que natural.
Sua voz,
seus movimentos,
seus hábitos -
como gosta de
sacudir as asas
na poeira -
tudo o atesta;
admito que o faça
para livrar-se de piolhos
mas o alívio que experimenta
leva-o
a gritar saudavelmente -
um traço que tem
mais a ver com música
do que com outra coisa.
Onde quer que se encontre
no início da primavera,
em becos obscuros
ou diante de palácios,
ele logo se entrega
sem afetação
aos seus amores.
Tudo começa no ovo,
seu sexo o engendra:
Que haverá de mais pretenciosamente
inútil
ou de que
tanto nos vangloriemos?
Ele acarreta as mais das vezes
nossa perda.
O galo novo, o corvo com
as suas vozes desafiadoras
não conseguem ultrapassar
a insistência
do seu pipilo!
Certa ocasião
em El Paso
ao cair da tarde,
eu vi - e ouvi! -
dez mil pardais
que tinham vindo do
deserto
empoleira-se ali. Lotaram as árvores
de um pequeno parque. As pessoas fugiram
(ouvidos a tinir!)
dos seus dejetos,
deixando o local
entregue aos crocodilos
que viviam
na fonte. A imagem dele
é tão familiar
quanto a do unicórnio
aristocrático, e é pena
que não mais se coma aveia
hoje em dia
o que tornaria a vida
mais fácil para ele.
Nisso,
seu pequeno porte,
seus olhos penetrantes,
seu bico prestimoso
e sua agressividade
garantem-lhe a sobrevivência -
para nada dizer
de suas inumeráveis
ninhadas.
Até os japoneses
o conhecem
empaticamente,
com profunda compreensão
de suas características
menores.
Nada de sutil
sequer remotamente
na sua corte amorosa.
Ele se agacha
diante da fêmea,
arrasta a asa,
valsando, e alça
a cabeça
e simplesmente -
berra! O alarido
é terrível.
O modo como esfrega o bico
numa prancha
para limpá-lo,
é resoluto.
Assim também tudo o mais
que faça. Seus supercílios
acobreados
dão-lhe um ar
de ser sempre
um vencedor - no entanto
eu vi certa vez
uma fêmea da espécie,
aferrando-se, decidida,
à beira de
um cano d'água,
agarrá-lo
pelas penas do cocoruto
e mantê-lo
calado,
subjugado,
suspenso sobre as ruas das cidade
até
ficar quites com ele.
Qual a utilidade
disso?
Ela ficou dependurada ali,
ela própria
admirada de seu feito.
Eu me ri com gosto.
Prático até o seu desfecho
é o poema
da existência dele
que triunfou
finalmente;
um punhado de penas
aplastado no calçamento,
asas simetricamente abertas
como em pleno voo,
sem cabeça,
o negro escudo do peito
indecifrável,
uma efígie de pardal
uma pasta seca apenas,
deixada ali para dizer
e o diz
sem ofensa,
lindamente;
Isto era eu,
um pardal.
Fiz o melhor que pude;
adeus.
tradução: josé paulo paes
domingo, 18 de setembro de 2011
minuto de sabedoria cínica (XV)
as formigas roem a aniagem dos Santos.
as formigas roem os Santos.
as formigas roem até mesmo os Demônios.
as formigas roem e roem todos os Anjos.
roem Aquele à direita do Homem. as formigas roem,
roeram e roem, roerão
pacientemente - até o Dia (e o dia seguinte)
do Juízo - o próprio Juízo Final.
quinta-feira, 15 de setembro de 2011
formigas metafísicas (medley)
do filme um cão andaluz (1929)

(o pavão)
o pássaro. a terra comerá todos os seus olhos, pétala por pétala.
visto demais, em leque, incompreendido. pisa no futuro, treva
após treva após treva.
abriu-se
em sua cauda
uma máquina do mundo,
não quer dizer nada.
coroado por si mesmo. pateia como um rei no exílio. vive só,
numa única manhã feita de todas as auroras. arremessou-se no
espaço, quase livre. não venceu.
bicho mitológico, dorme!
as formigas te desmontarão
***
(formicário)
para muito mais além
de toda grandiloquência,
notar, gullarianamente –
romaria irresistível,
operosa e sempiterna,
à flor da terra e da pele,
à flor mesmo da palavra –,
o infinito decomposto
na lombada do que é ínfimo:
i aS
f m D s g i
r g a m
r r
f o r E U z
z o f o
***
(exercício de tanka)
um pássaro voando
o vento passeia as plumas
do corpo no asfalto
sob o céu de amianto, um pássaro
roído de formigas, voando
***
(eu dormia sobre folhas sulfite)
o mutirão de formigas desmantelou
e carreava as palavras de meu último indistinto poema
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