domingo, 30 de outubro de 2011

debaixo do sol

                                                      
                                 escolhe, pois, a vida
                                                 deuteronômio 40,19

       
Como condensar esta luz e jogá-la sobre a pele da página? Como transplantar mil árvores e fazer um bosque num deserto de sal? Como porejar este orvalho que a grama suou na febre verde da madrugada? E como, nas entranhas que partilhamos eu e o domingo, vestir com meu corpo nu a mulher deitada na memória? Como? Como filtrar este azul boquiaberto e banguela e derramá-lo na retina de um cego? E as línguas da luz falando calor e carícia? E o perfume quase venenoso da pitangueira? Como traduzir um cão dormindo? Como reivindicar a autoria da aurora? Como reduzir o horizonte irredutível e com a esferográfica recriar a máquina atordoada de um inseto? Como concorrer todas as palavras para o acidente fabuloso de uma manhã (que amanhã reinventa)? Como me traduzir, contemplativo, agudamente sólido mas dissolvido, esta aventura diária, epopeia de uma página? Como?
Não dá, simplesmente. Talvez fosse melhor que soubesses: amassa esta folha, depõe a caneta e vive.
Não podemos traduzir o dia, a vida. O dia é intraduzível. A vida é intraduzível. Mas a poesia tem o tamanho da vida.
Deixa ao menos que o poema te devolva ao mundo, com teus cinco sentidos e as mãos enormes.
                               
(pássaro ruim, 2009)      

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

fauno

                                                                                                                                 
                                          pablo picasso (cabeça de fauno)

                       
Há um nódulo na quinta-feira. Dizer adeus faz caírem meus cabelos. A verdade é uma lâmpada falha num quarto cheio de moscas, mas a esperança, sobre as águas da febre, tem a pertinácia da cortiça. O tédio é a pior forma de tristeza.
Eis que algo no sol fratura o que somos sob o sol. O dia mija luz nas coisas e fere e fede e ilumina um jardim de absurdos: borboletas com caules, gerânios asmáticos, orquídeas menstruadas, margaridas que suam, lírios que sangram, girassóis cujas corolas são ânus. O sol brilha também sob minha pele.
O ronco dos carros é quase uma fuga de bach. Beatífico, anuncia a metástase de um silêncio. Quando o pôr-do-sol vazar feito um vagaroso sangramento de nariz, haverá um segundo para nos olharmos, e no aço dos ossos florescerão pátinas e tétano, e na medula correrá a seiva elétrica das plantas que não existem.
Com um estetoscópio de marfim, ausculto a parada cardíaca das pedras. Meço a pressão arterial e a solidão da chuva.
Entardeceu. Deito-me sobre as pastagens tauríferas, verde como o escolar de van gogh. Deixo o vento definir meu nome. Se me levanto, é meio-dia: há uma praia caminhada de ninfas que tatuam o sol sobre a pele. (Elas sorriem como o mar, puxando, puxando...)       
À noite, quando se morre mais de uma vez, a alma (esta ficção) faz guarida como um abajur no escuro. Todas as chaves perderam seus dentes, e não importa. Significar algo é brutal como empalhar uma criança.
Estou alegre como quem anda descalço. Estou alegre como quem sobe o telhado. Ouço o sermão das nuvens. Ou me sento à mesa, corto um pedaço do peixe e já não digo nada, a boca cheia de silêncios: quais frutos velhos, as palavras estão abertas sobre a terra. Jogo longe minha flauta. Maré, por exemplo, cognoscível apenas pelo cheiro. As árvores, por meio do voo das aves, conversam entre si na distância imensa.
Respirar é minha única religião.
                       
(pássaro ruim, 2009) 

terça-feira, 25 de outubro de 2011

o poeta

                                                   
                              escrevo para tornar-me eterno
                       ao mesmo tempo em que me entrego à morte
                           
                                   eu, aos 15-16 anos


é outono  sem lamento na cabeça do poeta.
folhas caem esturricadas de geada.
o caderno de estudante não me avexa mais.
vou jogá-lo fora mesmo assim. já é tempo de novo.

engraçado quando acentuava
compulsivamente
o pronome tu.
talvez que uma faca em você,
flecha atravessado no assombro de viver. sei lá.

aprendi outros nomes e jeitos de enunciar,
novas oitavas:
imensidade
densidão
arrebóis.

densifloro,
soube com os girassóis:
não há beleza alguma
em estar morto.

a glória não passa de uma fotografia
ou de um poema


(sol sem pálpebras, 2007)                           

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

poética

                                                
1
o poema é filho
de um só pai.
a liberdade também

desfralda asas
em acidez de solidão.

o poema é parto
que desse à luz um mistério:

qual bela criança, retorta!
e pouco importa

se menino jesus
que bebê de rosemary.

2
o poema ergue-se
para baixo.
não escavado como um fojo de feras.
desce como um rio que encorpa,
adianta-se ao sumidouro.

o poema ergue-se
para baixo,
até a réstia sob a porta,
tudo que é vista ofuscada.

chega à grafia do ponto,
à pedra do caminho:
o olho que fecha,
o olho que abre,
o pináculo,
a bola de haxixe
como fibrose, cabeça de alfinete
ou marimbondo.

continua, se quiser,
para viver o desmaio
daquele pássaro.

3
e assim, nas pontas dos bisturis,
vou cosendo sentidos,
lavrando traumatismos.
pontuo como bem quero,
espulgo o teor preciso -
pronúncia a pronúncia, brusquidão
a brusquidão.
(e pra quê?)

antes de abandonar o poema,
tamarindo espremido,
casca de cigarra,
sequer percebo o que calo
quem vai dizendo.

tudo quanto tranço, a percutir
as vigas aos restos
são apenas fios do que somos,

que sou também
da autoria de meus versos.

4
primeiro cuspo.
a destilação vem depois,
transmudando em sangue.
eu e o que sou sem me conhecer
compartilhamos agulhas
numa transfusão de sonho.

(sou da autoria de meus versos.)

5
poesia é tanger o violino
com um estilete.

6
há quem tenha buscado
a pedra de toque,
o verbo atrás do verbo,
o silêncio dentro do silêncio,
o caroço da língua.

houve quem tenha inventado
o lírio

e da espinha do peixe
forjado uma canoa
e erguido raízes (como patamares)
às lindes do firmamento.

houve quem macerava
a fruta
por que pingasse o último mel.

me admira como ficou
o gosto da sede
e como
nem mesmo a eternidade
foi suficiente.

7
não desconfieis dos poetas!
são barcas sobre os telhados.
sua loucura é o dia-a-dia
                      do trabalhador.
                                                                                         
 * primeiro poema do primeiro livro (sol sem pálpebras, 2007)     

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

aulas de solidão (6)

                       
  A poesia é um membro improdutivo da sociedade.

                                                 
o poeta trabalha

(fotomontagem de jorge de lima,
pintura em pânico, 1943)

                                                                       
Não é possível contratar a poesia. Não é possível jogá-la no departamento de marketing, na agência de publicidade, no almoxarifado. Nem relegá-la ao escritório contábil
e dela esperar um memorando e 10 páginas de relatório até às 4h da tarde. A poesia não recebe seguro-desemprego
gratificações
promoções
admoestações
cursos de treinamento qualificação reciclagem
realocações
reclamações
chamados a reuniões
esporros de chefe décimo-
terceiro salário.
A poesia não tem nem pra passagem. A poesia, graças a deus, está desempregada.
                                              

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

dylan thomas (II)

                                                                                                                                

                                       
EM MEU OFÍCIO OU SOMBRIA ARTE
                                                                 
Em meu ofício ou sombria arte
Exercida na noite estanque
Quando só a lua se enraivece
E os amantes jazem num colchão
Com suas dores todas entre os braços
Trabalho à luz cantante
Não pela cobiça ou pelo pão,
Cabotino comércio de encantos
Sobre palcos de marfim,
Mas pelo salário mínimo, isso sim,
De seu mais secreto coração.

Não para o soberbo na solidão
Da lua furiosa escrevo
Nestas páginas espargidas
Nem para os mortos conspícuos
Com seus salmos e rouxinóis
Mas para os amantes, o abraçar-se
Aos pesares de tempos idos,
Que não me dão salário ou elogios
Nem estimam meu ofício ou arte.

tradução: rodrigo madeira

                                                    
IN MY CRAFT OR SULLEN ART
     
In my craft or sullen art
Exercised in the still night
When only the moon rages
And the lovers lie abed
With all their griefs in their arms,
I labor by singing light
Not for ambition or bread
Or the strut and trade of charms
On the ivory stages
But for the common wages
Of their most secret heart.

Not for the proud man apart
From the raging moon I write
On these spindrift pages
Nor for the towering dead
With their nightingales and psalms
But for the lovers, their arms
Round the griefs of the ages,
Who pay no praise or wages
Nor heed my craft or art.
                                                                

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

ivan justen santana

                                                      
                    
PÓS-DESCONSTRUÇÃO ARCAICA
                                           
Sentindo um cheiro pestilento, lento,
Levanto do meu leito estreito, eito,
No tique a que vivo sujeito, jeito
De santo que um dia arrebento, bento –
Notando o quanto me delata, lata,
Aquela sensação tamanha, manha,
A imagem da grande barganha, ganha,
É o nó que na garganta engata, gata –
E o surto a me levar consigo, sigo,
Em ânsia por amor e abrigo, brigo,
Tocando um som que, mesmo surdo, urdo –
Pois graças ao meu velho e cego ego
Entorto verso e rima e blogo, logo,
O nada que me dá, contudo, tudo.
                                              
                              IVAN JUSTEN
   

sábado, 15 de outubro de 2011

leo maslíah (biromes y servilletas)

            

     
CANETAS E GUARDANAPOS

Em Montevidéu há poetas poetas poetas
Que sem bumbos nem trombetas trombetas trombetas
Vão saindo de porões e casamatas e matas e matas 
De paredes de silêncios de semibreves pontuadas

Saem de buracos mal tapados tapados tapados
E projetos inalcançados cansados cansados
Que regressam em fantasmas multicores em cores em cores
A pintar-te as olheiras e pedir-te que não chores

Têm ilusões compartidas partidas partidas
Pesadelos preferidos feridos feridos
Novelos de palavras confundidas fundidas fundidas
Ao seu triste passo lento pelas ruas e avenidas

Não almejam glórias nem lauréis lauréis lauréis
Se contentam com papéis papéis papéis
Experiências totalmente impessoais pessoais pessoais
Elementos muito parciais que reunidos não são tais

Falam da aurora até cansar cansar cansar
Sem ter medo de plagiar plagiar plagiar
Desde que escrevam escrevam escrevam, nada disso importa
Sua mania sua loucura sua obsessão neurótica

Andam pelas ruas os poetas poetas poetas
Como se fossem cometas cometas cometas
Num espesso céu de metal fundido fundido fundido

Impenetrável desastroso lamentável e aborrecido

Em Montevidéu há canetas canetas canetas
Esvaindo-se em letras e letras e letras
De palavras retorcendo-se confusas confusas confusas
Em estreitos guardanapos como alcóolicas reclusas

Andam pelas ruas escrevendo e vendo e vendo
O que veem vão dizendo e sendo e sendo
Esses poetas que caminham caminham caminham
Vão contando o que veem, e o que não veem, eles criam

Miram o céu esses poetas poetas poetas
Como se eles fossem flechas flechas flechas
Lançadas ao espaço e um vento ao léu ao léu ao léu
As fizesse regressar, cravando-as em Montevidéu

tradução: lu cañete e rodrigo madeira

***
                      
há uma belíssima recriação em português, letra de CARLOS SANDRONI.
se perde em ironia, a canção ganha em beleza e força dramática.  

milton nascimento :
clara sandroni :
http://www.youtube.com/watch?v=GnZ-jyDDp6k                                                                             

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

                                                                     
SentiDo q se sente no nervo do olho no ninho
dos cabelos nos ossos dos dedos na
pele aberta sob a pele intacta,

só depois fui ler

a BULA do remédio
vencido: 

para a contradição
não há contraindicação
                               
                   
POSOLOGIA:
       
linguagem e 
vida
                                                      


CUIDADOS:
                          
em caso de loucura,
enlouqueça
                           
                    
ADMINISTRAÇÃO DO USO:
                  
não há disciplina; apenas
febre,
algo cardioerrático,
de varar noites
                                                   

CUIDADOS 2:
                           
não vir a ser um passatempo

                                       (contratempo)
                                                                   
nem jamais um anticorpo
                                      
                                                 (corpo)
                                                                

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

paulo henriques britto

                                                     
CREPUSCULAR


2.

Chegamos tarde, é claro. Como todos.
Chegamos tarde, e nosso tempo é pouco,
o tempo exato de dizer: é tarde.

Todas as sílabas imagináveis
soaram. Nada ficou por cantar,
nem mesmo o não-ter-mais-o-que-cantar,

o não-poder-cantar, já tão cantado
que se estiolou no infinito banal
de espelhos frente a frente a refletir-se,

restando da palavra só o resumo
da pálida intenção, indisfarçada,
de não dizer, dizendo, coisa alguma.


5.

Toda palavra já foi dita. Isso é
sabido. E há que ser dita outra vez.
E outra. E cada vez é outra. E a mesma.

Nenhum de nós vai reinventar a roda.
E no entanto cada um a re-
inventa, para si. E roda. E canta.

Chegamos muito tarde, e não provamos
o doce absinto e ópio dos começos.
E no entanto, chegada a nossa vez,

recomeçamos. Palavras tardias,
mas com vertiginosa lucidez 
o ácido saber de nossos dias.


6.

No fim de tudo, restam as palavras.
Na solidão do corpo, no saber-se
apenas pasto para o esquecimento,

há sempre a semente de alguma ilíada
mínima, promessa de permanência
no mármore etéreo de uma sílaba,

mesmo sendo mero sopro, captado
na frágil arquitetura do papel,
alvenaria de ar. Restará

a palavra que deixarmos no fim da
nossa história. Que a julguem os outros,
que chegarão depois. Mais tarde ainda.


* três das seis partes do poema CREPUSCULAR (BRITTO, paulo henriques. tarde. são paulo: companhia das letras, 2007).

aulas de solidão (5)

         
Que importa o tormento? Que importa a chuva, o medo, a morte, a indiferença? Que importam os poetas e os poemas? E sua dor, sua alegria, sua vaidade, sua indigência?
Que importa a elegância patética, o coração na lapela?  E as palavras que nos vertiginam e rasam abismos como pássaros do avesso, calcificados na letra?
(O cálcio nos dentes de aves com dentes.)
A poesia continua sendo no meio-dia da madrugada, por exemplo – o sorriso da linguagem, rútila de dentes.
A linguagem que sorriu sorrirá outras vezes. Porque a Graça é infinita.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

chão de fábrica mão de fabbro

                       
desista.

um soneto nunca
soará como beethoven.

mas você pode arriscar
outra música: o osso no osso

– até um soneto, se infestado
de insetos, talvez soe.

não desista.
faça com claves fortes
em sucintas lições de gritar só
com os olhos
e o peso das coisas.

faça
com as mãos nuas.

porrada pedagógica,
fala arrancada ao que é mudo e mundo,
música
            
reduzida à ineludível
matéria
de caco    corpo
                              tijolo

***

CLÁUSULA CONTRATUAL:

faça.
não lhe dará um teto contra
chuvas e indiferença.
faça.
não lhe ofertará boa mesa
boas maneiras, boa cama.
faça.
não lhe devolverá a inocência
nem a infância.
faça.
não o remirá de sua própria
ignorância.
faça.

não lhe dará milhagens, milharais e coisas
prestigiosas ou plásticas.
faça.

pouco importa se você fizer ou não.
faça.         

terça-feira, 4 de outubro de 2011

receita de bomba caseira

                                                                                                   












basta juntar 2
motivos que se excluem

(mesmo um único
ingrediente:
                  esquizo
                  frê
                  mito)

basta deixá-los se amando
na folha, como briga

ou lar(galos aurorescentes 
ao mesmo tempo
sobre o giz da rinha).

deixa-os
se fundirem no ataque

e olha.

não desperdices teus olhos

           
2.

não há de durar muito. 

a coisa toda (de opostos)
explode
no ar no teu rosto:

pássaro

(sempre em suma
antes que suma
da vista

o arame das palavras
e a harmonia)

estrepitosamente aberto
na altura do peito, feito
um jornal de impossíveis. 
                                                                           

domingo, 2 de outubro de 2011

william carlos williams (II)

                              
A ROSA


A rosa é obsoleta
mas cada pétala finda em
um fio de lâmina, a dupla faceta
cimentando as ranhuradas
colunas de ar O fio
corta sem cortar
chega a nada  renova-
se em metal ou porcelana

para onde? Finda
Mas se finda
o início é começado
de tal modo que envolver-se com rosas
torna-se uma geometria

Mais afiada, limpa, cortante
representada na faiança -
o prato quebrado
esmaltado com uma rosa

Em algum lugar o bom-senso
faz rosas de cobre
rosas de aço

A rosa trazia o peso do amor
mas o amor está no fim das rosas
É na lâmina da
pétala que o amor espera

Crespa, trabalhada para derrotar
o trabalho frágil
arrancada, úmida, semierguida
fria, precisa, tocante

tradução: rodrigo madeira


THE ROSE

The rose is obsolete
but each petal ends in
an edge, the double facet
cementing the grooved
columns of air The edge
cuts without cutting
meets nothing renews
itself in metal or porcelain

whither? It ends 

But if it ends
the start is begun
so that to engage roses
becomes a geometry

Sharper, neater, more cutting
figured in majolica
the broken plate
glazed with a rose

Somewhere the sense
makes copper roses
steel roses

The rose carried weight of love
but love is at an end of roses
It is at the edge of the
petal that love waits

Crisp, worked to defeat
laboredness fragile
plucked, moist, half-raised
cold, precise, touching                     

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

marianne moore

    
                     
POESIA
        
Eu também não gosto dela: há coisas mais importantes para além
     de toda esta farsa.
  Lendo-a, contudo, com absoluto desprezo,
     descobre-se
  nela, no fim das contas, um lugar para o autêntico.
     Mãos que podem agarrar, olhos
     que podem dilatar-se, pelos que podem eriçar-
        se necessário, essas coisas são importantes não porque uma

grandiloquente interpretação pode ser-lhes atribuída mas sim porque
     elas são
   úteis. Quando se tornam derivadas a ponto de se tornarem
     ininteligíveis,
   o mesmo pode ser dito de todos nós, que
     não admiramos aquilo
     que não podemos entender: o morcego
        aguentando-se de ponta-cabeça ou em busca de algo para

comer, elefantes forcejando, um cavalo xucro num rodopio, um lobo
     incansável sob
  a árvore, o crítico inamovível contraindo a pele como um cavalo
     que sentisse a sarna, o fã de
  beisebol, o estatístico
     tampouco é válida
        a discriminação contra "documentos comerciais e
                        
livros escolares"; todos esses fenômenos são importantes. Deve-se
     fazer uma distinção
  no entanto: quando trazidos à luz por meios poetas, o
     resultado não é poesia,
  tampouco, até que os poetas dentre nós possam ser
    "literalistas da
     imaginação" acima
        da insolência e trivialidade, e possam apresentar
             
à inspeção "jardins imaginários com sapos de verdade", nós a
        experimentaremos.
    Neste meio tempo, se você exigir por um lado
    a matéria-prima da poesia em
        toda a sua crueza e
        a qual é por outro lado
           autêntica, você se interessa por poesia.

tradução: rodrigo madeira


POETRY

I, too, dislike it: there are things that are important beyond
      all this fiddle.
   Reading it, however, with a perfect contempt for it, one
      discovers in
   it after all, a place for the genuine.
      Hands that can grasp, eyes
      that can dilate, hair that can rise
         if it must, these things are important no because a

high-sounding interpretation can be put upon them but because
      they are
   useful. When they become so derivative as to become
      unintelligible,
   the same thing may be said for all of us, that we
      do not admire what
      we cannot understand: the bat
         holding on upside down or in quest of something to

eat, elephants pushing, a wild horse taking a roll, a tireless
      wolf under
   a tree, the immovable critic twitching his skin like a horse
      that feels a flea, the base-
   ball fan, the statistician
      nor is it valid
         to discriminate against "business documents and

school-books"; all these phenomena are important. One must make
      a distinction
   however: when dragged into prominence by half poets, the
      result is not poetry,
   nor till the poets among us can be
     "literalists of
      the imagination  above
         insolence and triviality and can present

for inspection, "imaginary gardens with real toads in them", 
     shall we have
   it. In the meanwhile, if you demand on the one hand,
   the raw material of poetry in
     all its rawness and
     that which is on the other hand
        genuine, you are interested in poetry.
                           

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

notícias de foz do iguaçu

                                                                                                           
kodak instamatic 101


então você é este
exatamente?
criança aos 7
sob aquele céu, azul
com glaucoma,
o sol em carne-viva,
foz do iguaçu?

quantos anos você
tem?
– eu tenho
a eternidade!

nunca mais e sempre.

quem?
que céu?

memória avulsa,
sem consequência,
sem vir ou ir
a qualquer parte.

bala alojada,
relâmpago,
pássaro do pasmo,

tronco arrastado,
ou ossos ou cisne,
no curso mineral
do esquecimento
             
e da invenção. 


***
super 8

            p. mano tião
                                                                       
            
como fotos esmurradas de sol
em ventrículos de nossa saudade

e curtas projetados no lençol
que a mãe estendeu no varal à tarde:

CURTA-METRAGEM #189
(verdor da relva e da vida)
um menino isolou a bola...

– eu é que não vou buscar!
                                

domingo, 25 de setembro de 2011

notícia de ciudad del este

                                                              
* poema escribido en portunhol salvaje
  del gran douglas diegues, auténtico poeta brasileño
  falsificado en el paraguay.
                    
                     
CUMBIA DEL FIN DEL MUNDO A LA VINAGRETA


Si muebes biem la Kola,
te Exportam.
Si non pagas la Luz,
te kortam.
Si das manija,
te querem meter la pija.
Si sos el Rey de la Guaripola,
te lambem las bolas.
Komédias dramátikas.
Dramas kômikos.
Episódios kargados
de acciones y emociones.
El horror kausa risa.
La risa kausa horror.
Alumnita pela tetas
en la famoza Interneti.
El Rolleti
se konecta.
Kuarentón y Travesti
pillados en Ñemby
correm de la Polí.
La gata “Luz”
es kondenada a muerte.
Hoy non es
tu dia de Suerte.
Hoy es
tu dia de Suerte.
Creer non es saber
Kulo del mundo o kulo de moska.
Venga.
Venga.
Venga y konoska.

           
               DOUGLAS DIEGUES 

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

uma igrejinha

                                                  
nada é mais patético e belo
e difícil
que a igrejinha abandonada:

o capim no altar, as goteiras
a infiltração das estrelas

e as velas gastas
como pequenos pilares
do escuro.

nunca vi
uma igrejinha baldia
mas

se agora a vejo
(as lembranças tomadas de mato
e uma única açucena)

algo em mim que remontasse
campeia por dentro
                    monta ali acampamento
                    ou indigência

    e me lembro
                                
                    da poesia,
                    do amor que não se lembra
                                                     

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Às margens do Han

                                           
                                          
     

      Quando assisti à “Poesia”, do diretor sul-coreano Lee Chang-Dong, fui ao mesmo tempo arrebatado pelas imagens e vertiginado pelo abismo existencial e moral em que mergulham os dois personagens centrais – a avô e seu neto, criado por ela. O adolescente participa de um crime covarde contra uma colega de escola, que se mata atirando-se de uma ponte do rio Han. Eis a primeira cena do filme: um corpo afogado fluindo rio abaixo.    
      No entanto, o que mais me impressionou não foi propriamente a abordagem realista (quase naturalista) da ruína pessoal, do tecido familiar mais e mais esgarçado, mas sim, encapsulados nesta mesma ruína, o desejo e a cisma da poesia, a vontade de finalmente descobrir o que é e como se faz essa tal poesia. Como escreve a avó, sentada no banco de um parque: “Som de pássaros cantando. O que eles estão cantando?” Impressionou-me o contraste entre o esfacelamento da normalidade cotidiana e a busca pessoal da poesia já no crepúsculo da vida.
      Mija (a atriz Yun Jiang-hie) decide voltar-se para um antiga vocação nunca realizada, nunca sequer explorada. “Tenho veia de poeta. É, gosto de flores e falo coisas esquisitas”, diz à sua filha. Para tanto, para se realizar poeta e escrever sua única obra (este é o objetivo de Mija: escrever um único poema), matricula-se em um oficina de criação poética. E nos dá, ao longo do filme, uma aula.
      Como agravante ao drama familiar, Mija, a poeta aprendiz, descobre que está nos estágios iniciais do Alzheimer. Tendo ao fundo camélias de plástico e uma janela que filtra o mundo, a médica assevera: “Por enquanto está esquecendo algumas palavras... Gradualmente, sua memória deverá piorar muito. No começo, não vai se lembrar de substantivos. Depois, não vai se lembrar dos verbos... Sabe, os verbos?” Ao que Mija responde: “Sim, claro que sei. Mas os substantivos são mais importantes.” E ri, gostosa e estoicamente.  
      Começa, portanto, uma contagem regressiva: será que ela escreverá, engolfada em problemas de toda ordem, esquecendo as palavras como quem esquece os sonhos banais da noite anterior, será que conseguirá escrever seu primeiro e último poema?
      De imediato, veio-me à mente o oposto daquele sonho de Quintana: uma poesia tão fundamental que fosse escrita apenas com substantivos; ou, exorbitando de qualquer viabilidade prática, uma linguagem composta a partir do silêncio dos lapsos, do silêncio de substantivos esquecidos, naquele vazio quente, vivo e angustioso como deve ser a linguagem das plantas e dos animais.
      Pois a poesia sempre me pareceu caminhar na wildiana corda-bamba de um paradoxo: poemas se fazem de palavras que fazem silêncio.
      Ou não é isso? Imediatamente após lermos um grande poema, não nos resta, diante e dentro de nós, apenas a materialidade de um silêncio mais ou menos incômodo? Como o grito súbito e agudo, próximo à surdez, que um tímpano experimenta após o estouro. Como o sotaque do silêncio.
      Quando leio um grande poema, quase sempre tenho a impressão de que pouco ou nada entendi; a mesma sensação que filmes como “Poesia” e “A Estrada da Vida”, de Fellini, me causaram (ou, semana passada mesmo, “Melancolia”, de Lars Von Trier, uma belíssima e perturbadora obra-prima). Tenho a impressão de que sequer é importante ENTENDER alguma coisa. Não porque seja hermético; pelo contrário: aquilo é menos uma informação ou conhecimento do que uma experiência. Conforme escreveu Clarice numa de suas clarividências (obscurividências) mais repisadas, viver ultrapassa o entendimento.
      O verdadeiro poema, para além de leitura, é uma vivência, ainda que ficcional ou especulativa. E exatamente aí, neste corpo nítido e sensível, mas inclassificável, cabe toda a dor e alegria do mundo, todas as flores e fezes, toda a beleza e miséria do mundo. Exatamente aí cabe o coração e a mente de Mija, o galope do Alzheimer e o lento e impreciso florescer de um único mas inevitável poema.
      No filme, os alunos da oficina de criação poética são instados pelo professor a relatar a lembrança que lhes seja a mais cara e bonita. Uma das alunas, uma mulher malferida de paixão, fala de seu caso extraconjugal com um colega de trabalho. De como não consegue esquecê-lo, mesmo que tenham feito amor uma única vez; e de como aquilo dói. Ela arremata: “Eu pareço uma louca, choro e dou risada. Mas... este sofrimento... está quase me matando... mas... até o sofrimento é bonito.”
      Mija também faz sua partilha. Relata a primeira das mais tenras lembranças, menininha de três ou quatro anos. Mal sabe ela que, naqueles poucos instantes, e assim como fizera em outros momentos do filme, novamente compõe diante de nós  “o primeiro e último poema”.
     
     Para encerrar, tomo a liberdade de versificar aquela fala singela e memorável. Ela também já faz parte de minhas mais belas lembranças... 

               
Minha mãe estava doente.
Minha irmã mais velha cuidava de mim.
Temos dois anos de diferença. Na sala de estar,
as cortinas vermelhas fechadas.
Através de uma pequena fresta, o sol
está entrando.
Posso ver metade do rosto de minha irmã.
A outra metade está escondida nas sombras.
Acho que ela me vestiu com roupas bonitas.

 – Mija, venha cá, venha cá! – ela me chama
batendo as mãos.
Vou cambaleando até ela.
     
Embora fosse pequena, eu sabia que
ela me amava. Ela me chamou
e aquilo foi bom. Foi uma coisa feliz.
“Estou tão bonita”, foi o que senti.

 – Mija, venha cá! Venha cá, Mija!  
                                                                         

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

william carlos williams

             
      
O PARDAL
       (A Meu Pai)


Este pardal
                   que vem pousar em minha janela
                                      é uma verdade mais poética
do que natural.
                  Sua voz,
                                      seus movimentos,
seus hábitos -
                  como gosta de
                                      sacudir as asas
na poeira -
                  tudo o atesta;
                                      admito que o faça
para livrar-se de piolhos
                   mas o alívio que experimenta
                                      leva-o
a gritar saudavelmente -
                  um traço que tem
                                      mais a ver com música
do que com outra coisa.
                   Onde quer que se encontre
                                      no início da primavera,
em becos obscuros
                   ou diante de palácios,
                                      ele logo se entrega
sem afetação
                    aos seus amores.
                                      Tudo começa no ovo,
seu sexo o engendra:
                   Que haverá de mais pretenciosamente
                                      inútil
ou de que
                   tanto nos vangloriemos?
                                      Ele acarreta as mais das vezes
nossa perda.
                   O galo novo, o corvo com
                                      as suas vozes desafiadoras
não conseguem ultrapassar
                   a insistência
                                      do seu pipilo!
Certa ocasião
                   em El Paso
                                      ao cair da tarde,
eu vi - e ouvi! -
                 dez mil pardais
                                      que tinham vindo do
deserto
                 empoleira-se ali. Lotaram as árvores
                                  de um pequeno parque. As pessoas fugiram
(ouvidos a tinir!)
                  dos seus dejetos,
                                      deixando o local
entregue aos crocodilos
                   que viviam
                                      na fonte. A imagem dele
é tão familiar
                  quanto a do unicórnio
                                      aristocrático, e é pena
que não mais se coma aveia
                  hoje em dia
                                      o que tornaria a vida
mais fácil para ele.
                  Nisso,
                                      seu pequeno porte,
seus olhos penetrantes,
                   seu bico prestimoso
                                      e sua agressividade
garantem-lhe a sobrevivência -
                  para nada dizer
                                      de suas inumeráveis
ninhadas.
                  Até os japoneses
                                      o conhecem
                  empaticamente,
                                      com profunda compreensão
de suas características
                  menores.
                                      Nada de sutil
sequer remotamente
                  na sua corte amorosa.
                                      Ele se agacha
diante da fêmea,
                  arrasta a asa,
                                      valsando, e alça
a cabeça
                  e simplesmente -
                                      berra! O alarido
é terrível.
                  O modo como esfrega o bico
                                      numa prancha
para limpá-lo,
                  é resoluto.
                                      Assim também tudo o mais
que faça. Seus supercílios
                  acobreados
                                      dão-lhe um ar
de ser sempre
                  um vencedor - no entanto
                                      eu vi certa vez
uma fêmea da espécie,
                  aferrando-se, decidida,
                                      à beira de
um cano d'água,
                  agarrá-lo
                                      pelas penas do cocoruto
e mantê-lo
                  calado,
                                      subjugado,
suspenso sobre as ruas das cidade
                  até
                                      ficar quites com ele.
Qual a utilidade
                  disso?
                                      Ela ficou dependurada ali,
ela própria
                  admirada de seu feito.
                                      Eu me ri com gosto.
Prático até o seu desfecho
                  é o poema
                                      da existência dele
que triunfou
                  finalmente;
                                      um punhado de penas
aplastado no calçamento,
                  asas simetricamente abertas
                                      como em pleno voo,
sem cabeça,
                  o negro escudo do peito
                                      indecifrável,
uma efígie de pardal
                  uma pasta seca apenas,
                                      deixada ali para dizer
e o diz
                  sem ofensa,
                                      lindamente;
Isto era eu,
                  um pardal.
                                      Fiz o melhor que pude;
adeus.


tradução: josé paulo paes