sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012
minuto de sabedoria cínica (XVIII)
por millôr fernandes
Nos dias cotidianos
É que passam
Os anos.
*
A poesia já não rima
A música já não ressoa
As cores já não retratam
Mas o tempo ainda voa.
*
O tempo não existe. Só existe o passar do tempo.
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012
nelson rodrigues e otto lara resende
O homem só não anda de quatro porque morre.
nelson rodrigues
O que é a arte senão essa necessidade de dizer as últimas palavras?!
otto lara resende
terça-feira, 21 de fevereiro de 2012
minuto de sabedoria cínica (XVII)
Eterno mesmo, lirismos à parte, só quem não nasceu nem jamais nascerá.
sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012
um relâmpago e após a noite! – aérea beldade,
e cujo olhar me fez renascer de repente,
só te verei um dia e já na eternidade?
bem longe, além, jamais provavelmente!
baudelaire, a uma passante
PS – não vou te rever
na eternidade,
porque a eternidade
não existe.
a menos que apodreça
como qualquer fruta ou
palavra* – * (a palavra “primavera”
espinha de peixe também apodrece)
se esbatendo na
margem, ossada
que, quase de manhã, enterra-se
na floresta –,
a menos que apodreça
como qualquer
amor
ou bicho.
a palavra não é o formol
da eternidade.
a palavra, cheiro forte e quente
de vida, também anuncia
sua morte.
mas quem sabe
te reveja
amanhã depois,
olhando
o pasmo da vida
num banco da santos andrade,
sentindo as árvores
esgalhadas crescerem,
os pombos ruflarem
no curso do sangue,
e eu,
à eletricidade do mesmo relâmpago
através da carne,
apesar de tímido, tire você
pra dançar.
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012
wisława szymborska

DE UMA EXPEDIÇÃO NÃO REALIZADA AO HIMALAIA
Ah, então este é o Himalaia.
Montanhas correndo para a lua.
O instante da largada fixado
no rasgar súbito do céu.
Deserto de nuvens perfurado.
Um golpe no nada.
Eco — uma branca mudez.
Silêncio.
Yeti, lá embaixo é quarta-feira
tem abecedário, pão
dois e dois são quatro
e a neve derrete.
Tem rosa amarela,
tão formosa, tão bela.
Yeti, nem só crimes
acontecem entre nós.
Yeti, nem todas as palavras
condenam à morte.
Herdamos a esperança —
o dom de esquecer.
Você vai ver como damos
à luz em meio a ruínas.
Yeti, temos Shakespeare lá,
Yeti, e violinos para tocar.
Yeti, ao cair da noite
acendemos a luz.
Aqui — nem lua nem terra
e a lágrima congela.
Ó Yeti meiolunar
pense, volte!
Entre as quatro paredes da avalanche
assim eu chamava pelo Yeti
batendo os pés para me aquecer
na neve
na eterna.
tradução: regina przybycien
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012
giuseppe ungaretti (II)
ETERNO
Entre uma flor cultivada e outra oferecida
o inexprimível nada
tradução: rodrigo madeira
ETERNO
Tra un fiore colto e l'altro donato
l'inesprimibile nulla
terça-feira, 14 de fevereiro de 2012
arthur rimbaud
A ETERNIDADE
De novo encontrada.
Quem? – A Eternidade.
É o mar que já parte
Junto ao sol da tarde.
É o mar que já parte
Junto ao sol da tarde.
Espírito em guarda,
Não guardes segredo
Da noite sem nada
E do dia aceso.
De sonhos e teses,
Dos banais engodos,
Que te desapegues
E voes de acordo.
Pois delas somente,
Brasas de cetim,
O Dever recende
Sem dizer: enfim.
Mais nenhuma crença,
Somente o deserto.
Ciência e paciência,
O suplício é certo.
De novo encontrada.
Quem? – A Eternidade.
É o mar que já parte
Junto ao sol da tarde.
Junto ao sol da tarde.
tradução: rodrigo madeira
L'ETERNITÉ
Elle est retrouvée.
Quoi? – L'Eternité.
C'est la mer allée
Avec le soleil.
Âme sentinelle,
Murmurons l'aveu
De la nuit si nulle
Et du jour en feu.
Des humains suffrages
Des communs élans
Là tu te dégages
Et voles selon.
Puisque de vous seules,
Braises de satin,
Le Devoir s'exhale
Sans qu'on dise: enfin.
Là pas d'espérance,
Nul orietur.
Science avez patience,
Le supplice est sûr.
Elle est retrouvée.
Quoi? – L'Eternité.
C'est la mer allée
Avec le soleil.
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
roseana
só os animais são eternos.
jorge luis borges
refaço estória e ritual, com licença:
eu o sepulto também
aqui, no torrão raso
da página,
sob a palavra “asa”
em lugar de terra.
foi ana rosa que contou. história simples de passarinho. como os passarinhos.
desceu uma tarde em seu quintal um periquito. auriverde.
não!
cárdeo-cardíaco, sob o sol das quatro. na sombra,
musgo apodrecido.
inquieto, ágil, como de resto as aves
diminutas, por regra. um cavalo.
mas ficou logo escarrado: que era dócil, doméstico de ontem, solto, fugido.
não era espanto estar próximo, não se alarmava, não voou para longe,
para o: exato.
ficou ali, na imortalidade. relapso. fato estúpido.
livre, no instante, era um não ser
solitário.
como um cão.
notou (a rosa) que ele deslumbrava, transcendido de horizontes,
bem-assombrado. e ana também. deslumbrava.
mas
em contrário – mulher forte e firme, acostumada à voragem da vida –, o passarinho era um coração pequeno, nada mais. para aquela alegria, súbita e vertigem,
a musculatura frágil e
desusada.
peixe morto.
– deve ter voado o dia todo, coitado. não aguentou – ela disse.
também me arrepio.
de já haver conhecido periquitos alucinados.
é verdade, morreu de exaustão. de inadvertido, inexperiente.
no entanto, que sou incorrigível
e desconcertado, por isso eu acho:
morreu de vida.
(cavalo, cão, peixe
e pássaro.)
morreu
de eternidade.
***
depois, e foi só, ana o enterrou com umas mãos de terra e folhas secas
no quintal da casa.
(pássaro ruim, 2009)
revista coyote
COYOTE 23 // 52 páginas // R$ 5,00 (Londrina) e R$ 10,00 (outras cidades) Uma publicação da Kan Editora. Distribuição nacional Editora Iluminuras.Vendas em livrarias de todo o país pela Editora Iluminuras – fone (11) 3031-6161. Pode também ser adquirida pela internet através do site: www.iluminuras.com.br
quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012
relógio de pulso
tudo se deu muito rápido:
quando o sol acertou em cheio
(no pulso, na praça)
o vidro do relógio, por um átimo
(no pulso, na praça)
o vidro do relógio, por um átimo
não houve horas ou segundos;
somente um fulgor branco,
como se o relógio naquele instante
marcasse a eternidade
somente um fulgor branco,
como se o relógio naquele instante
marcasse a eternidade
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012
drummond

RELÓGIO DO ROSÁRIO
Era tão claro o dia, mas a treva,
do som baixando, em seu baixar me leva
pelo âmago de tudo, e no mais fundo
decifro o choro pânico do mundo,
que se entrelaça no meu próprio choro,
e compomos os dois um vasto coro.
Oh dor individual, afrodisíaco
selo gravado em plano dionisíaco,
a desdobrar-se, tal um fogo incerto,
em qualquer um mostrando o ser deserto,
dor primeira e geral, esparramada,
nutrindo-se do sal do próprio nada,
convertendo-se, turva e minuciosa,
em mil pequena dor, qual mais raivosa
prelibando o momento bom de doer,
a invocá-lo, se custa a aparecer,
dor de tudo e de todos, dor sem nome,
ativa mesmo se a memória some,
dor do rei e da roca, dor da cousa
indistinta e universa, onde repousa
tão habitual e rica de pungência
como um fruto maduro, uma vivência
dor dos bichos, oclusa nos focinhos,
nas caudas titilantes, nos arminhos,
dor do espaço e do caos e das esferas,
do tempo que há de vir, das velhas eras!
Não é pois todo amor alvo divino,
e mais aguda seta que o destino?
Não é motor de tudo e nossa única
fonte de luz, na luz de sua túnica?
O amor elide a face... Ele murmura
algo que foge, e é brisa e fala impura.
O amor não nos explica. E nada basta,
nada é de natureza assim tão casta
que não macule ou perca sua essência
ao contato furioso da existência.
Nem existir é mais que um exercício
de pesquisar de vida um vago indício,
a provar a nos mesmos que, vivendo,
estamos para doer, estamos doendo.
Mas, na dourada praça do Rosário,
foi-se, no som, a sombra. O columbário
já cinza se concentra, pó de tumbas,
já se permite azul, risco de pombas.
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012
Luiz Felipe Pondé
(...)
Ao falarmos em existencialismo, pensamos em gente como Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Albert Camus, tomando vinho em Paris, dizendo que a vida não tem sentido, fumando cigarros Gitanes.
O ancestral é Pascal, francês do século 17, para quem a alma vive numa luta entre o “ennui” (angústia, tédio) e o “divertissement” (divertimento, distração, este, um termo kierkegaardiano). O filósofo dinamarquês afirma que nós somos “feitos de angústia” devido ao nada que nos constitui e à liberdade infinita que nos assusta.
A ideia é que a existência precede a essência, ou seja, tudo o que constitui nossa vida em termos de significado (a essência) é precedido pelo fato que existimos sem nenhum sentido a priori. Como as pedras, existimos apenas. A diferença é que vivemos essa falta de sentido como “condenação à liberdade”, justamente por sabermos que somos um nada que fala. A liberdade está enraizada tanto na indiferença da pedra, que nos banha a todos, quanto no infinito do nosso espírito diante de um Deus que não precisa de nós.
O filósofo alemão Kant (século 18) se encantava com o fato da existência de duas leis. A primeira, da mecânica newtoniana, por manter os corpos celestes em ordem no universo, e a segunda, a lei moral (para Kant, a moral é passível de ser justificada pela razão), por manter a ordem entre os seres humanos.
Eu, que sou uma alma mais sombria e mais cética, me encanto mais com outras duas “leis”: o nada que nos constitui (na tradição do filósofo dinamarquês) e o amor de que somos capazes.
Somos um nada que ama.
A filosofia da existência é uma educação pela angústia. Uma vez que paramos de mentir sobre nosso vazio e encontramos nossa “verdade”, ainda que dolorosa, nos abrimos para uma existência autêntica. Deste “solo da existência” (o nada), tal como afirma o dinamarquês em seu livro “A Repetição”, é possível brotar o verdadeiro amor, algo diferente da mera banalidade.
É conhecida sua teoria dos três estágios como modos de enfrentamento desta experiência do nada. O primeiro, o estético, é quando fugimos do nada buscando sensações de prazer. Fracassamos. O segundo, o ético, quando fugimos nos alienando na certeza de uma vida “correta” (pura hipocrisia). Fracassamos. O terceiro, o religioso, quando “saltamos na fé”, sem garantias de salvação. Mas existe também o “abismo do amor”.
Sua filosofia do amor é menos conhecida do que sua filosofia da angústia e do desespero, mas nem por isso é menos contundente.
Seu livro “As Obras do Amor, Algumas Considerações Cristãs em Forma de Discursos” (ed. Vozes), traduzido pelo querido colega Álvaro Valls, maior especialista no filósofo dinamarquês no Brasil, é um dos livros mais belos que conheço.
A ideia que abre o livro é que o amor “só se conhece pelos frutos”. Vê-se assim o caráter misterioso do amor, seguido de sua “visibilidade” apenas prática. Angústia e amor são “virtudes práticas” que demandam coragem. Kierkegaard desconfia profundamente das pessoas que são dadas à felicidade fácil porque, para ele, toda forma de autoconhecimento começa com um profundo entristecimento consigo mesmo.
Numa tradição que reúne Freud, Nietzsche e Dostoiévski (e que se afasta da banalidade contemporânea que busca a felicidade como “lei da alma”), o dinamarquês acredita que o amor pela vida deita raízes na dor e na tristeza, afetos que marcam o encontro consigo mesmo.
Deixo com você, caro leitor, uma de suas pérolas:
“Não, o amor sabe tanto quanto qualquer um, ciente de tudo aquilo que a desconfiança sabe, mas sem ser desconfiado; ele sabe tudo o que a experiência sabe, mas ele sabe ao mesmo tempo que o que chamamos de experiência é propriamente aquela mistura de desconfiança e amor… Apenas os espíritos muito confusos e com pouca experiência acham que podem julgar outra pessoa graças ao saber.”
Infelizes os que nunca amaram. Nunca ter amado é uma forma terrível de ignorância.
LUIZ FELIPE PONDÉ
[Folha de S.Paulo, Ilustrada, 13 de junho de 2011]
[Folha de S.Paulo, Ilustrada, 13 de junho de 2011]
terça-feira, 31 de janeiro de 2012
nick lowe e johnny cash
A BESTA EM MIM
A besta em mim
Por fracas e frágeis grades presa
Incansável faça sol ou anoiteça
Rasca e ruge contra as estrelas
Que Deus ajude a besta em mim
A besta em mim
Teve de aprender a lamber a ferida
E se abrigar das chuvas repentinas
E talvez num piscar de olhos
Tenha de ser contida
Que Deus ajude a besta em mim
Às vezes tenta enganar a mim
Parecendo um bichinho desdentado
E do nada se desfaz no ar parado
E é então que eu devo tomar cuidado
Com a besta em mim
Todo mundo já está avisado
Já a viram calçando meus sapatos
Sem que a gente saiba, eu e os outros
Se é Curitiba ou o Ano Novo
Que Deus ajude a besta em mim
A besta em mim
transplantation: rodrigo madeira
* cheguei a traduzir como "monstro" (beast), mas o duplo sentido da palavra "besta" é irresistível.
segunda-feira, 30 de janeiro de 2012
bob dylan
NÃO ESCURECEU AINDA
A noite está caindo e estou aqui desde cedo
Não consigo dormir, o tempo escorre entre os dedos
Sinto que a minha alma foi em aço forjada
O sol não me sarou nenhuma das chagas
Em nenhuma parte me resta algum lugar
Não escureceu ainda, mas está chegando lá
É isso, meu senso de humanidade cobriu-se de bolor
Atrás de cada coisa bela houve algum tipo de dor
Ela me escreveu uma carta, uma carta tão gentil
Ela pôs em palavras tudo o que sentiu
Nem sei por que eu deveria me importar
Não escureceu ainda, mas está chegando lá
Pois então, fui a Londres, fui à Paris do desvario
Cheguei ao mar seguindo o curso do rio
Fui ao fundo deste mundo que mente tão bem
Não estou buscando nada nos olhos de ninguém
Às vezes pesa mais do que eu posso suportar
Não escureceu ainda, mas está chegando lá
Eu nasci aqui e aqui vou morrer desagradado
Sei que pareço em movimento, mas estou parado
Cada nervo de meu corpo está tão nu e amortecido
Nem me lembro a razão para um dia haver fugido
Sequer ouço o murmúrio que fazemos ao rezar
Não escureceu ainda, mas está chegando lá
tradução: rodrigo madeira
sexta-feira, 27 de janeiro de 2012
não sei dançar #9
* agradecimento especial ao andré pepe russo, piloto comercial, dono do estúdio hangar17 e músico sem fins lucrativos. andré tocou bateria, baixo, teclado e uma guitarra simples e bonita à buddy holly.
EU NÃO SABIA
(rodrigo madeira/ lu cañete)
Eu não sabia
Que a vida era só feita de vida
Que a vida é coberta de feridas
E que só na morte cicatriza
Eu não sabia
Que tudo que nasce é despedida
Que tudo que vive é sem saída
Que a vida que mata é uma alegria
Quando a sombra verga
E o anjo pia
Quando a faca cega
E o sol esfria
Deixa que doa o que dói
Que não dura
Que doa o que dói
Que não dura
Eu não sabia
Que a vida era só feita de vida
Que a vida é coberta de feridas
E que só na morte cicatriza
Eu não sabia
Que tudo que nasce é despedida
Que tudo que vive é sem saída
Que a vida que mata é uma alegria
Quando a lua pesa
E o cão respira
Quando a faca cega
E o sol esfria
Deixa que doa o que dói
Que não dura
Que doa o que dói
Que não dura...
quarta-feira, 25 de janeiro de 2012
lanterneiro
é verdade,
a vida é um troço de doer.
dói, meu caro,
dói, sim senhor, dói
como um guarda-chuva aberto
no estômago,
como uma ave emplastrada de petróleo,
como um galo no ártico.
dói como talvez doessem as pevides
dentro da fruta,
como dói o corpo dentro do quarto,
como deus na eternidade
das coisas que não existem.
atino em eufórica
sensação de escombro:
mais importante que ser feliz
é estar vivo!
e não obstante sermos –
entre a dor da morte
e a dor
do parto –
este buquê de dores,
jamais aceitaremos
o éter na veia,
o vaso de águas enfermiças,
a roça de lápides e relógios,
o sorriso sarcástico nos pulsos.
nossas vísceras são focos de incêndio.
e se em algum lugar
de nossa carne transparente
erguermos uma nave e um rito,
não o faremos para o sofrimento,
e sim para que, antes
de nos espojarmos nos degraus,
brindemos
a nossa próxima
alegria
(sol sem pálpebras, 2007)
segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
robert frost (III)
LUGARES ERMOS
A noite e a neve caindo, caindo presto
Num campo que contemplo mas não atravesso;
E o chão quase inteiro de neve se acolchoa,
Salvo algumas ervas e restolhos dispersos.
Pertence à floresta – isto nela fica inscrito.
Os animais todos em seus esconderijos.
Estou vazio demais pra ser levado em conta;
A solidão inclui-me sem qualquer aviso.
Se solitária assim a solidão se faz,
Antes de ser menos, ainda há de ser mais –
Alvor crescente, analfabeta neve em branco
Sem nada que dizer e sem dizer jamais.
Entre as estrelas – onde impossível vivermos –,
Estes espaços vazios não me fazem medo.
Eu trago muito mais próximos, em meu íntimo,
Meus próprios e aterradores lugares ermos.
tradução: rodrigo madeira
DESERT PLACES
Snow falling and night falling fast, oh, fast
In a field I looked into going past,
And the ground almost covered smooth in snow,
But a few weeds and stubble showing last.
The woods around it have it – it is theirs.
All animals are smothered in their lairs.
I am too absent-spirited to count;
The loneliness includes me unawares.
And lonely as it is, that loneliness
Will be more lonely ere it will be less –
A blanker whiteness of benighted snow
With no expression, nothing to express.
They cannot scare me with their empty spaces
Between stars – on stars where no human race is.
I have it in me so much nearer home
To scare myself with my own desert places.
sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
quinta-feira, 19 de janeiro de 2012
A Morte e o Beduíno
Não sou dos que veem no deserto um portal entre o céu e o homem, entre o inferno e o homem, embora ninguém duvide de que se trata do mais dramático e importante "teatro de religiões". A coisa me parece bem menos grandiosa; tenho fé em que seja bem mais simples e difícil e solitária: o deserto, imensa pátria baldia, é somente um portal entre o homem e sua morte.
Tempo mítico, a areia emperrando o mecanismo do relógio, veio a Morte em missão ao deserto da Líbia. Buscava um certo beduíno, pouquíssimo visto, esquivo, imortal nos rumores. Por três anos e três noites (na medida arbitrária da eternidade), a Morte rastreou e farejou-o. Leu pegadas, deteve as caravanas, comeu carne de cobra e gafanhotos, bebeu água de cacto, cuspiu areia, espreitou semanas em oásis, chamou-o pelo nome...
Seríamos deuses se não morrêssemos; não haveria necessidade de criá-los. (Afinal, como bem disse Amós Oz, Deus nunca acreditou em religiões.) Atravessaríamos o deserto como quem vai entre árvores frutíferas e jasmineiros.
E se eu dissesse que o deserto é o mar que perdeu tudo, que perdeu rigorosamente tudo senão a fome feroz da existência, estaria falando de um outro deserto que é a alma humana. E estamos sempre falando de um outro deserto que é a alma humana.
Por isso, paupérrimos, mesquinhos, os desertos são de tal maneira luxuriantes. Não existe espaço alegórico melhor, melhor geografia afetiva para nossa condição banal e extrema: quem pisa o deserto é de imediato um moribundo – não há quem pise o deserto sem que caminhe, durma e ame à beira da morte, debaixo de um céu belíssimo e indiferente.
Digo isso tudo para dizer o contrário: mas, quando imaginação e memória são sinônimos perfeitos, tudo pode ser rápida e incoerentemente, como que por ventos contra-alísios, posto do avesso. Um exemplo? Vejamos a antiquíssima fábula árabe que inventei agora:
Tempo mítico, a areia emperrando o mecanismo do relógio, veio a Morte em missão ao deserto da Líbia. Buscava um certo beduíno, pouquíssimo visto, esquivo, imortal nos rumores. Por três anos e três noites (na medida arbitrária da eternidade), a Morte rastreou e farejou-o. Leu pegadas, deteve as caravanas, comeu carne de cobra e gafanhotos, bebeu água de cacto, cuspiu areia, espreitou semanas em oásis, chamou-o pelo nome...
As crianças tuaregues cantavam nas travessias
– a Morte te alcança
imortal beduíno
sob a luz da lua
sob o sol a pino –
os versículos de um arpoador de estrelas.
Jamais conseguiu alcançá-lo, nunca chegou a menos de duas ou três horas de distância. Ainda assim, seu olhar agudo viu-lhe rebrilhando, quilômetros à frente nos gigantescos bancos arenosos, o alfanje prateado. De tão longe e perto, a Morte, al-quebrada, às vezes tomou por vésper ou farol o brilho daquela lâmina.
A insolação por fim começou a enlouquecê-la. Dizem ainda que a areia é capaz de amontoar-se, frestas microscópicas adentro, na caixa craniana, na cava das órbitas, e parir um escorpião minúsculo que arruína a visão e empeçonha o juízo. A Morte, derrotada, sentou-se nas areias, sorriu idiota para a lua. Ficou ali, abandonada, agudamente viva, latejando. E agora passa os dias, entre as dunas do deserto, com uns modos ridículos de gaivota...
*
Em tempo. A imortalidade também tem lá suas caducidades. Suponho que a esta altura o tal beduíno já esteja morto; morte de outra qualidade, diga-se, debaixo do mesmo céu belíssimo e indiferente: arquetípica, encenada – um suicídio? –, de cujas minúcias e conclusão sabe-se apenas que não restam ossos.
Os mais exaltados, no entanto, juram que sempre fora e será o Vento. O vento vestido, sua carne mais fina que a cambraia mais fina. O vento. Túnica e turbante vazios flamulando no lombo de um cavalo.
Em tempo. A imortalidade também tem lá suas caducidades. Suponho que a esta altura o tal beduíno já esteja morto; morte de outra qualidade, diga-se, debaixo do mesmo céu belíssimo e indiferente: arquetípica, encenada – um suicídio? –, de cujas minúcias e conclusão sabe-se apenas que não restam ossos.
Os mais exaltados, no entanto, juram que sempre fora e será o Vento. O vento vestido, sua carne mais fina que a cambraia mais fina. O vento. Túnica e turbante vazios flamulando no lombo de um cavalo.
terça-feira, 17 de janeiro de 2012
quarta-feira, 4 de janeiro de 2012
robert frost (II)
A estrada se partiu no bosque amarelado,
E lamentando não poder seguir por ambas
E ser apenas um, fiquei ali parado
E olhei uma das vias, o olhar alongado,
Até que ela fugisse na curva entre as ramas;
Então tomei a outra, boa escolha também,
E por ser ela talvez mais convidativa,
Porque clamava a grama pelos pés de alguém,
Ainda que, em se tratando disso, o vaivém
As tivesse desgastado em igual medida
E que houvesse – aquela manhã – nas duas vias
E que houvesse – aquela manhã – nas duas vias
Folhas e mais folhas ainda por pisar.
Ah, deixei a primeira para um outro dia!
Mas sabendo que um caminho em outros daria,
Duvidei de que um dia eu pudesse voltar.
Noutra parte, triste, hei de dar este relato;
Entre mim e o sucedido, a distância imensa:
A estrada se partiu no bosque amarelado –
Tomei dentre os caminhos o menos trilhado,
E isso justamente fez toda a diferença.
tradução: rodrigo madeira
THE ROAD NOT TAKEN
Two roads diverged in a yellow wood
And sorry I could not travel both
And be one traveler, long I stood
And looked down one as far as I could
To where it bent in the undergrowth;
Then took the other, as just as fair,
And having perhaps the better claim,
Because it was grassy and wanted wear;
Though as for that the passing there
Had worn them really about the same,
And both that morning equally lay
In leaves no step had trodden black.
Oh, I kept the first for another day!
Yet knowing how way leads on to way,
I doubted if I should ever come back.
I shall be telling this with a sign
Somewhere ages and ages hence:
Two roads diverged in a wood, and I –
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference.
(récita do próprio frost)
tradução: rodrigo madeira
THE ROAD NOT TAKEN
Two roads diverged in a yellow wood
And sorry I could not travel both
And be one traveler, long I stood
And looked down one as far as I could
To where it bent in the undergrowth;
Then took the other, as just as fair,
And having perhaps the better claim,
Because it was grassy and wanted wear;
Though as for that the passing there
Had worn them really about the same,
And both that morning equally lay
In leaves no step had trodden black.
Oh, I kept the first for another day!
Yet knowing how way leads on to way,
I doubted if I should ever come back.
I shall be telling this with a sign
Somewhere ages and ages hence:
Two roads diverged in a wood, and I –
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference.
(récita do próprio frost)
domingo, 1 de janeiro de 2012
endomingados
por que no domingo a água
tem outra velocidade
e é sempre feriado nacional
em nossas vísceras?
por que no domingo
o amor é mais lento, baldio,
vadiado
e os corpos pesam
10 gramas subtraídos?
por que há este insético zumbido
nas retinas?
por que este vazio grávido
de tudo – espera
do quê, meu deus?
por que nossas mãos ficam
quase cristalinas?
e a ordem natural pode ser
suspensa e de uma crisálida
irromper um pássaro?
por que as árvores cantam
um tom mais alto
e os cães latem noutra língua?
por que a vida respinga
das páginas que viramos
quando lemos
e o amor, ósseo, dói alegre como flor
nascendo
sobre o ombro esquerdo?
***
não há consolo necessário,
domingo não é preciso.
domingo não é um dia,
apenas mais um dia.
domingo é uma semana,
domingo é a vida inteira.
LU CAÑETE & RODRIGO MADEIRA
(pássaro ruim, 2009)
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