sábado, 26 de outubro de 2013

minha amada express

               
um relâmpago e após a noite! – aérea beldade,
e cujo olhar me fez renascer de repente,
só te verei um dia e já na eternidade?
 
bem longe, tarde, além, jamais provavelmente!
 
                                      baudelaire, a uma passante


eu me lembro de você,
musa em trânsito,
feita de primavera
e pressa.

de suas axilas caíam flores,
seus cabelos cheiravam
                                a gasolina?
eu me lembro.

um barulho surdo,
de sangue nas veias,
entre os barulhos do dia.
um passo após o outro
na partitura
             do silêncio.

talvez fosse um spam
             da beleza (e um susto)
em meu sistema nervoso central,
no sistema nervoso
de toda a cidade.

(vasculho o riquíssimo lixo
urbano
de uma lembrança.)


2

você me beijou até abrir o sinal.
você me deixou,
amante e mãe,
sobre a calçada, para eu nascer
sozinho. largou-me no meio da casa
de minha infância. bebeu
minhas lágrimas
sobre uma alfombra
de vestígios e ruínas.
morreu de velhice
numa manhã de agosto.

você soltou minha mão
e disse:
              "hei, não exume seu cadáver
               sobre minha cama, não assine
               obituários de você mesmo
               em poemas delicados. porra, antes
de morrer, viva!

ouça a respiração das coisas.
dobre-se sobre elas
e as ouça (tudo: o corpo, a cidade, as fezes
e violetas) respirar."

e ainda assim, você apenas passou,
musa anônima
entre os carros,       (bye-bye, baby)
aparição de carne e carne,
sujeita à chuva
e à ferrugem
do esquecimento.

mas você poderia,
                               eu sei,
                      num golpe obsceno de silêncio,
                                          ali mesmo
                                          na faixa de pedestres,
                      despir-me o pijama da rotina,
                      virá-lo do avesso,
ou (sem vexame algum),
                                ao coral de buzinas,
    enquanto de sua buceta,                
    sob o restolhal cor-
                           de-ozônio desmaiado,
    escorresse um
                 óleo carburante,
                                             simular orgasmos com uma planta,
um poste de eletricidade, e ainda com martelos de plástico.*

                                    
                                                                                   *[de uma notícia online]

eu me lembro,
antes que a noite chegue,
antes que o mundo acabe,
                                               e eu nem sei o seu nome. 


3

nós também construímos
em curitiba (no mundo)
o inferno
com o diesel e a fumaça
do comércio diário.

por isso é que eu sopro a clarineta
de um escapamento
ou canto tossindo,
com a voz pulvero-
rápida, empretecida,
irritada.
os pulmões chiam
dentro do canto
por você,
misturando desejo
e dióxido.

quem diria que a visconde de nácar
tinha vocação (ou combustão,
                        ou congestão)
e fuligem de cegar
para tornar-se
meu caminho de damasco? e você, uma menina
(de 20 e poucos),
um susto da beleza, outra
qualquer, para ser
a epifania
com quadril e seios,
que converte
à única vida que há?

você tremia no ar,
bailarina paranoica,
pisava
      a cortina translúcida
dos gases sujos
                    e do calor,

você tremia no ar.


4

a contar de então,
venho sangrando
no corpo a manhã.
as vísceras da aurora
são anônimas.

o que sobrou de alma
               (o que não foi deixado, uma carcaça
pra feder
                      ao sol),
                                         encardiu-se
                                         no carbono das horas,
                                         viciou em oxigênio.

a vida a vida.
e por trás dela,
ainda a vida.
vida total, fiapo de vida,
vida desavinda,
no avesso de si mesma...

e no coração de tudo
o que vive ainda,
a morte, com dedos
de mercúrio,
inventa-se,
enrola os novelos do tempo.

ou fora de nós,
atrás dos muros e janelas,
dos batentes,
embaixo das pedras,
atrás dos livros
ou
do lampejo
e arquejo
de cada palavra,

nos observa.


5

parir-se é mais difícil
do que ser parido;
como o sol, nascer
todos os dias.

sinto o mundo latejando
em minhas carótidas. a vida,
desde meu estômago
                            (desde meu caralho),
incha, inflama, ameaça
rasgar a pele e as roupas,
arremessar meus olhos
no meio da rua,
explodir meu coração
        como um fogo de artifício.

um galo de lata
de coca-cola,
almuadem,
canta cinco vezes
                           ao dia.

caminho por nossas ruas.
uma araucária
na lapela, uma
araucária atravessada
na garganta.
o iguaçu brota,
poluído,
de minha saliva, lava-se
em minha infância
                
                 (talvez eu compre uma
                 arma,
                 talvez seja
                                  atropelado,
                 ou fume um
                 último cigarro,
                 ou siga um vira-lata
                 por toda a cidade)

e é em você que eu penso, minha amada,
antes que eu me esqueça,
antes

que eu

me esqueça.

                                
          
(pássaro ruim, 2009)

terça-feira, 22 de outubro de 2013

das biografias

  
também vou enfiar minha cunha. não direi nenhuma novidade. mas vou dizer mesmo assim, mesmo que aqui, de mim para mim, neste meu bloguezinho baldio.

creio que todos que admiram chico, gil e caetano (bem como a família ruiz/leminski) ficaram de cabelo em pé nos últimos dias. é inacreditável que homens quase sempre tão lúcidos (principalmente o caetano), além de tão censurados no passado recente de nossa história, agora advoguem pela censura -- pela manutenção dos famigerados artigos 20 e 21 do código civil, claramente inconstitucionais.

usar a palavra "censura" para qualificar a manutenção desses artigos  não é nenhum sensacionalismo marrom, apelação de uma imprensa linchadora, como tentaram insinuar alguns dos envolvidos. o termo é esse mesmo. censura, sim, ainda que com a roupagem de uma perífrase eufemística: "autorização prévia do biografado ou dos herdeiros."

fiquei sem entender como nossos ídolos-de-ontem-e-sempre decidiram se dar esse trabalho. como podem de repente, depois de tanta luta, ir na contramão do que cantaram ("é proibido proibir", "cálice"), de tudo o que sempre representaram e fizeram em favor da liberdade de expressão?

os argumentos da turma, após a detonação da polêmica, foram ainda mais ridículos e desencontrados. sério mesmo, chegou quase a dar pena! o primarismo e a debilidade das justificativas foram quase tão comoventes quanto uma criança assustada pega numa baita incoerência! seria isso, ou quase, não fosse o fato de não haver nada de inocente e inofensivo em se defender a censura prévia.

chico buarque, por exemplo, vem de há pouco pedir desculpas a paulo césar de araújo, biógrafo, historiador e jornalista acusado de haver mentido sobre uma entrevista que, segundo artigo do compositor publicado em O Globo, nunca teria acontecido. a entrevista aconteceu. no dia 30 de março de 1992. está inclusive gravada. paula lavigne, ex-mulher de caetano e líder da "procure saber", usou esta mesma declaração equivocada de chico buarque para acusar, no programa televisivo "saia justa" (eu mesmo vi, chapado de sono, com minha filhinha no colo!), as mentiras do mefistofélico biógrafo de roberto carlos. resumo da ópera bufa: os dois, lavigne e chico, que dizem apenas defender os artistas brasileiros contra as supostas difamações de biógrafos oportunistas, difamaram o trabalho sério e devotado de um biógrafo censurado. fizeram exatamente o que disseram querer evitar. é ou não é, como diz o outro, "o fim do final"?      
     
só imagino o que diria o grande sérgio buarque de holanda, nosso maior historiador, a respeito de um ataque assim leviano ao acesso à informação e à construção de nossa memória coletiva...
não dá pra acreditar que chico & cia -- cujas obras e vidas acompanhamos com tanta atenção e carinho -- defendam a institucionalização das biografias chapa-branca e tentem reduzir à atuação varejeira de sórdidos paparazzi um gênero literário tão importante, na linha direta de plutarco.

biografia não é "contigo", cara! biografia não é fofoca! biografia é, sim, quando praticada por um mestre, literatura e história. e mesmo aquelas que versam sobre a vida e o trabalho de meros artistas. biografias como "o anjo pornográfico", de ruy castro, ou "baudelaire", de théophile gautier, são pequenas obras-primas, tanto pelo panorama histórico que traçam quanto por toda dimensão humana que prospectam. são livros de verdade. são, pra lembrar o que cantou um outro caetano (embora nessa mesma encarnação e biografia), "objetos transcendentes", antinarcísicos -- ou seja, com uma imenso poder de afeto e empatia --, que podemos amar do mesmo "amor táctil que votamos aos maços de cigarro".
ou não?

*

em tempo: simplesmente lamentável a censura praticada por alice ruiz e suas filhas contra os escritores domingos pellegrini e toninho vaz. os caras foram amigos do paulo, companheiros de trincheira. sempre falaram e falam dele com o maior respeito intelectual e carinho possíveis.
abaixo, um desabafo de toninho:

incluí uma passagem que dá voz a alguém que teve acesso às condições de suicídio do pedro. conversei com a ex-mulher do pedro ontem e ela está do meu lado. ela me disse: "você não precisa se explicar, elas não estão preocupadas com o pedro". eu sei que não ofendi à família do pedro. nós somos filhos da contracultura. hoje sou um avô, mas já fui um tremendo maconheiro, biriteiro... eu sei o que eu fui, o que nós fomos. mas há pessoas que não aceitam o passado e a realidade. e o que está no livro é a realidade.

**

hoje me deparei com a seguinte explicação para esse curto-circuito moral e intelectual de nossos mestres mpbistas. quem fala é o próprio paulo césar de araújo, biógrafo do rei(está nu)roberto carlos. acho que o cara matou a charada!



A 'compensação' do Procure Saber


Em entrevista ao GLOBO nesta quarta-feira, Paulo Cesar de Araújo especula que um acordo entre Roberto Carlos e o Procure Saber seria a justificativa para que os grandes nomes da MPB estivessem defendendo a necessidade de autorização para a realização de biografias.
- Por que eles entraram nessa briga? Essa é a pergunta que não quer calar - diz o historiador. - Me parece que houve ali uma espécie de compensação. Roberto iria apoiar a agenda do grupo no caso do Ecad (que pedia, entre outras coisas, a fiscalização do órgão) e, em contrapartida, eles apoiariam a causa contra as biografias não autorizadas. Eles próprios falaram que foi Roberto que trouxe essa questão para o grupo, que curiosamente nasceu pedindo transparência, acusando o Ecad de ser uma caixa-preta. Mas isso é só uma hipótese, uma tentativa de entender o que levaria esses artistas a se posicionar dessa forma.
Araújo nota que a tese do Procure Saber tem seus pilares nos processos que Roberto Carlos moveu contra ele e que levaram à proibição da biografia "Roberto Carlos em detalhes".
- Roberto não está se pronunciando agora porque fez isso em 2007, em seus processos contra mim. Quando vi os argumentos do Procure Saber me dei conta de que já tinha lido aquilo em algum lugar. Claro, tinha lido nos meus processos. As duas teses estão lá, a privacidade e o fato de estarem ganhando dinheiro em nome do artista. E o Procure Saber encampa exatamente as duas teses, não há nenhuma originalidade, eles não criaram nada. Agora eles estão tendo dificuldade para defender essa tese estapafúrdia.
Para Araújo, em seus artigos sobre o tema, Chico, Djavan, Gil e Caetano parecem "amarrados":
- Eles tinham que escolher defender ou a privacidade ou o dinheiro. Há uma dificuldade de defender a proibição de biografias não autorizadas para pessoas que sabem o valor do livro, que além de leitores, são autores. Você vê que Caetano é de partir para cima, de surfar em cima de um assunto. Não foi assim nesse caso. Sinto eles amarrados. Porque eles estão defendendo uma tese que no fundo não acreditam. Roberto nesse sentido foi sincero, porque ele acredita nisso. Ele vive num outro mundo, do mercado imobiliário, do cartão de crédito, o mundo do dinheiro. Não tem maiores intimidades com a literatura. Você até entende ele querer queimar um livro. Mas não os outros.
O historiador chama atenção para outra diferença entre Roberto e os artistas do Procure Saber.
- Eles falam como se estivessem sufocados por biografias não autorizadas. O artigo de Djavan é como se fosse um basta aos milhares de livros escritos sobre eles. E não existe nenhuma! Nenhum deles tem. A do Milton é autorizada, a do Gil é autorizada, o Chico tem perfis autorizados... O único que enfrentou essa situação de ter uma biografia não autorizada de fôlego sobre ele foi Roberto.
Araújo demonstra desânimo na voz ao comentar o fato de ter recebido acusações diretas vindas de Roberto Carlos (que num dos processos pediu sua prisão) e de Chico Buarque (que diz que o historiador mentiu), dois artistas que admira:
- Encarar duas instituições nacionais, o príncipe da MPB de um lado e o Rei da música brasileira do outro, não é fácil. Só os fortes sobrevivem.


[http://oglobo.globo.com/cultura/exclusivo-video-mostra-entrevista-de-chico-buarque-autor-de-biografia-de-roberto-carlos-10394660#ixzz2iMwm5Mvf ]

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

dois olhares comovidos

                

*
trecho da série "bach, o mestre da música" (1985), uma coprodução hungria/alemanha oriental, dirigida por lothar bellag. o cara que assiste à excecução é um tal de leopoldo, príncipe de anhalt-köthen, o maior dentre todos os admiradores e patrocinadores de joão sebastião bach (como dizia, "abrasileirando", vinicius de moraes). ulrich thein está soberbo na pele do compositor. o dvd da série, com quase 6 horas de duração, foi lançado há coisa de um ano pela versátil. vale muito a pena assistir.      



*
imagens do programa chico & caetano (1987, rede globo).
nem o chico estava preparado pra ouvir essas modulações...
                                                

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

      
puxa vida, 
minha filhota nasceu!!


mi paraguayta: 2 meses de existenciazinha
                                        

terça-feira, 20 de agosto de 2013

as musas (poema encontrado no cesto de lixo)

                                                                  
     
                                                                  
conheço a vida
como a palma da minha morte, dirá
o poeta, hamlet de escrivaninha
segurando o peso de seu próprio crânio
com o punho erguido.

está aberta a temporada de caça
aos anjos, pensará.

mas o poema, no último estágio
de algum estranho alzheimer
lírico, como uma folha amassada
encarquilhado, esquecerá uma a uma
todas as palavras, os ritmos,
todos os hemistíquios e as rimas raras,
esquecerá os jogos e torneios e tiradas,
imagens avulsas girando
parafusos no nada,
melancolias e epifanias, solipsismos
e saudades.

mas esquecerá tudo mesmo?,
se pergunta, ator-
doado.

sim, tudo,
mesmo as chaves-de-ouro perdidas nas palhas douradas
da velha tarde futura
e imemoriável.

só então o poeta, enervando-se,
coçando a bunda ou
a calva, cansado
de ao menos 30 séculos
e um dia,
só então o poeta,
fechando as cortinas,
ligará a tevê ou o gás (que importa, nesta
altura do madrugada?)
e dormirá.

enquanto isso, noutro canto da cidade,
as musas

trânsfugas, confusas,
mas libertas
dos escaninhos de marfim, das gaiolas
de saliva e vaidade,
calarão 
 elas sempre calam... 

nos fugazes fins de tarde 
da eternidade, já fartas 
das quireras e quimeras das palavras, 
as musas empoleiradas 
em fios elétricos e invisíveis, ou  
suspensas nos raios de um sol elíptico, 
vão olhar e gargalhar, olhar 
e bocejar, empoleiradas.

com alguma sorte, meu 
irmão de tinta, acertarão em cheio 
a cabeça imensa do poeta 
que passa.
                                                                                 

domingo, 18 de agosto de 2013

wisława szymborska/ trad. regina przybycien

                                             
         

         
ALGUNS GOSTAM DE POESIA

 
Alguns –
ou seja nem todos.
Nem mesmo a maioria de todos, mas a minoria.
Sem contar a escola onde é obrigatório
e os próprios poetas
seriam talvez uns dois em mil.

Gostam –
mas também se gosta de canja de galinha,
gosta-se de galanteios e da cor azul,
gosta-se de um xale velho,
gosta-se de fazer o que se tem vontade,
gosta-se de afagar um cão.

De poesia –
mas o que é isto, poesia.
Muita resposta vaga
já foi dada a essa pergunta.
Pois eu não sei e não sei e me agarro a isso
como a uma tábua de salvação.

                     
 [Szymborska, Wisława. Poemas; seleção e tradução de Regina Przybycien. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.] 

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

margaret atwood/ trad. adriana lisboa II

             
O CANTOR DAS CORUJAS
 

O cantor das corujas seguiu errante para a escuridão.
Mais uma vez não ganhara um prêmio.
Era desse jeito, na escola.
Ele preferia os cantos escuros, camuflava-se
com os cabelos e orelhas dos outros,
e pensava em vogais longas, e fome,
e a amargura da neve funda.
Tais estados de ânimo não atraem resplendor.

O que há comigo? ele pergunta às sombras.
A essa altura eram sombras de árvores.
Por que desperdicei minha corda salva-vidas?
Abri-me aos seus silêncios.
Permiti que crueldade
e penas me possuíssem.
Engoli ratos.
Agora, quando estou no fim, e vazio
de palavras, e sem fôlego,
você não me ajudou.

Bem, disse a coruja, sem fazer um ruído.
Entre nós não existem preços.
Você cantou por necessidade,
como eu canto. Cantou para mim
e minha mata, minha lua, meu lago.
Nossa canção é noturna.
Poucos estão acordados.

       
[Atwood, Margaret. A porta - trad. Adriana Lisboa. Rio de janeiro: Rocco, 2013]

terça-feira, 13 de agosto de 2013

margaret atwood/ trad. adriana lisboa

       


               
OS POETAS AGUENTAM FIRME
                             

Os poetas aguentam firme.
É difícil livrar-se deles,
embora deus saiba que já se tentou.
Passamos por eles na estrada
de pé com suas tigelas mendicantes,
um hábito antigo.
Nada dentro delas agora
além de moscas secas e moedas falsas.
Eles olham reto em frente.
Estão mortos ou o quê?
Têm, contudo, a expressão irritante
dos que sabem mais do nós.

Mais do quê?
O que é isso que alegam saber?
Desembuchem, falamos entre os dentes.
Digam de maneira direta!
Se você tenta obter uma resposta simples,
nesse momento eles se fingem de loucos,
ou então bêbados, ou então pobres.
Vestiram essas fantasias
faz algum tempo,
esses suéteres pretos, esses andrajos;
agora não conseguem mais tirar.
E estão tendo problemas com os dentes.
Esse é um de seus fardos.
Uma ida ao dentista não lhes faria mal.

Estão tendo problemas com as asas, também.
Não temos visto muita coisa de sua parte
no setor de voos, estes dias.
Não os vemos mais parando nos ares, radiantes,
acabaram-se as travessuras aéreas.
Por que diabos são pagos?
(Suponha que sejam pagos.)
Não conseguem sair do chão,
eles e suas penas enlameadas.
Se voam, é para baixo,
para dentro da terra úmida e cinzenta.

Vão embora, dizemos –
e levem sua aborrecida tristeza.
Não os queremos aqui.
Esqueceram-se de como nos dizer
que somos sublimes.
Que o amor é a resposta:
dessa nós sempre gostamos.
Esqueceram-se de como bajular.
Já não são sábios.
Perderam seu esplendor.

Mas os poetas aguentam firme.
São tenazes, acima de tudo.
Não sabem cantar, não sabem voar.
Só dão pulos e grasnidos
e se debatem contra o ar
como se enjaulados,
e contam ocasionais piadas cansadas.
Quando lhes fazem perguntas a respeito, dizem
que falam o que devem.
Cristo, como são pretensiosos.

Há algo que sabem, porém.
Há algo que sabem, sim.
Algo que estão sussurrando,
algo que não podemos ouvir muito bem.
É sobre sexo?
É sobre poeira?
É sobre o medo?

                                                                                                                          
[Atwood, Margaret. A porta - trad. Adriana Lisboa. Rio de janeiro: Rocco, 2013]

domingo, 11 de agosto de 2013

autoentrevista

                                                                                                                                          
- rodrigo madeira, o que é a poesia segundo o rodrigo madeira?
- uma segunda árvore respiratória. ahhhhhh...
mas esta, é claro, é uma resposta ajeitadinha, que talvez já não conte se repetirmos a pergunta... muitas vezes escrevo também, como dizia o lorca, "para que gostem de mim", só isso, ainda que eventualmente gostem apenas com despeito ou indiferença. a arte, sem alguém que dê ouvidos, é uma maneira de autismo. 

- rodrigo, você acredita na inspiração?
- claro. sem inspiração, eu sufocaria... mas nem penso nisso. pra todas as outras coisas da vida sou um pouco manco. sou gago, por exemplo. não um gago prosódico. sou um gago social. agora, quanto à inspiração, até que inspiro e expiro direitinho.

- e você já pensou em parar de escrever?
- não, nunca. já houve ocasiões em que ressenti escrever, ou então senti o desejo stalinista de obrigar as pessoas que admiro a gostarem das coisas que escrevo. mas parar de escrever, não, nunca.

- quem, na sua opinião, é o maior poeta de todos os tempos?
- o maiakóvski, com certeza. tinha quase dois metros e meio de altura. se tropeçasse, já cometia suicídio. maldade... mas ele foi o maior, com certeza. a verlaine, por outro lado, pertence o prêmio de mais careca; baudelaire ocupa um distante segundo lugar. na frança, é claro, porque no brasil o drummond é imbatível.   

- rodrigo, qual a sua maior qualidade?
- a poesia.

- e o seu maior defeito?
- a poesia

- deixe-me agora fazer uma pergunta mais esotérica (risinhos bestas), algo que pertence mais assim ao universo espiritualista...
- diga, santa!

- (risos) então... você acredita na vida além da morte? 
                                
                                                     [como dá pra notar, embora o entrevistado seja ridículo mas não de todo idiota, o entrevistador é um verdadeiro jumento batizado, mula de mãe e pai... faça a média!]
                                        
- quase isso, quase isso. acredito na morte além da vida.

- fiquei sabendo também que você escreve um blog, "o blog às moscas", é verdade? por que este nome? conte-nos um pouco a respeito.
- é verdade, é verdade. você está muito bem informado. o blog literário é uma espécie de "obra aberta", né?! sabe aquele termo universitário usado como se fosse o pó do pirlimpimpim, aquele eco do Eco? o nome “blog às moscas” foi uma ironia que virou profecia e se autocumpre. mas, de modo geral, a blogosfera até que é um espaço bem democrático: ela promove uma espécie de reforma agrária virtual, embora a relevância individual seja ainda ditada pelo livre mercado, pela lei fisiocrática da oferta e da demanda e pela lei aristocrática do nome e sobrenome - além dos amigos e conhecidos que possam "curtir" e "curtir" nossas coisas, ou dizer aquela palavra sensualíssima e indecente que nos faz revirar os olhinhos: "genial, genial!"... o blog é a verdadeira “obra aberta”, em todos os sentidos: aberta, como disse o millôr, a todas as cismas, disparates, máximas, raciocínios, plácitos, despropósitos, ditos, escólios, insultos, necedades, miopias, gnomas, hidrofobias, sofismas e dizidelas... se eu quiser, posso até postar um vídeo pornô no meu blog. posso, não posso? o blog é aberto, mesmo que ninguém ou quase ninguém - as moscas de padaria, como eu afetuosamente nos defino -, mesmo que quase ninguém entre: aberto a revisões e revisões e revisões obsessivas, ao work in progress, aberto às patéticas autoentrevistas, aberto a "le silence éternel de ces espaces infinis", a comentários, réplicas e necas de pitibiriba...    

- sim, sim, hehe, entendo. uma última perguntinha, rodrigo, só mais uma... você não é exatamente um iniciante, por assim dizer... então, pra terminarmos, você gostaria de dizer algo aos iniciantes?... aqueles que... 
- não iniciem! mas, se iniciarem, saibam que isso nunca vai ter fim. e que provavelmente faltarão meios...

- então não vale a pena?...
- mas não se trata de valer a pena, piá! nunca se tratou disso. é como eu te perguntar se a vida vale a pena. tem sentido perguntar isso, minha santa? a vida vale a pena?
                                                                                             

quarta-feira, 31 de julho de 2013

poética #2

         
que meu poema não seja
água parada,
fervilhando horror
ou desespero
com a calma
perigosa dos vasos;
mesmo que esteja
em aparência estático,
seus ossos expostos
insinuem do esqueleto
duro e árido
um movimento.

que meu poema
não seja parado. jamais
como a ave embalsamada,
arremedo, lembrança de vida
na carne da morte,
mesmo que um pássaro
morra em minha voz:
que ele fique respirado
ainda
seu último suspiro
na eternidade precária
da página.

que não seja feito
uma catedral,
este navio encalhado
há séculos,
mesmo que haja
um quê de reza,
de enormidade, de infinitude.

que seja, ainda assim,
bar de beira de estrada,
vivo e à margem da vida,
onde ninguém dorme,
ninguém é sepultado,
onde se vai e se vem
e se confesse
tudo quanto for (extra, 
extra!)ordinário:

      a puta
              o bêbado
       o assassino
                             o argentário
                                    o louco
o tímido
            o mentiroso
            o incoerente.

que a chuva chova, extrínseca,
em meu poema, que o mar
invada as páginas
e salgue e enferruje
e adoeça as palavras,
que o tempo passe
dentro do poema
e o envelheça,
seus ramos e cabelos,
e amarele seus dentes
e vinque sua carne
e enfraqueça seu grito.

mas que ele seja
sempre
(até o fim de sempre),
mesmo que feio,
fétido,
carcomido,

um fato inequívoco
da primavera.


(pássaro ruim, 2009) 

terça-feira, 16 de julho de 2013

robert frost

                                               

                 
                             
JUNTANDO FOLHAS


As pás recolhem as folhas
Como a colher ou a mão,
E um saco cheio de folhas
É leve como um balão.

O dia todo eu farfalho
Fazendo um baita alarido,
Como uma lebre ou um cervo
Que pronto houvessem fugido.

Mas me escapam ao enlace
O que em montes é disposto,
Transbordando de meus braços
E voando no meu rosto.

Se várias e várias vezes,
Até lotar um galpão,
Eu carrego e descarrego,
Que me resta disto então?

Quase nada têm de peso,
E sendo assim desbotadas
Do contato com a terra,
Têm por cor um quase nada.
                                     
Quase nada de proveito.
Mas a safra é safra feita,
E quem há de dizer onde
Vai parar esta colheita?

trad. r.m.


*

GATHERING LEAVES


Spades take up leaves
No better than spoons,
And bags full of leaves
Are light as balloons.

I make a great noise
Of rustling all day
Like rabbit and deer
Running away.

But the mountains I raise
Elude my embrace.
Flowing over my arms
And into my face.

I may load and unload
Again and again
Till I fill the whole shed,
And what have I then?

Next to nothing for weight,
And since they grew duller
From contact with earth,
Next to nothing for color.

Next to nothing for use.
But a crop is a crop,
And who's to say where
The harvest shall stop?
           

quinta-feira, 11 de julho de 2013

o espelho

     


                   
de camisa aberta
em frente a mim mesmo.

o espelho é a prisão profunda
de que somos vigias e presos,

condenados e carcereiros.
e no entanto o homem

é observado, triste alimária
de si mesmo. e no entanto

milhões de olhos o observam
atrás deste, de todos os espelhos.

e no entanto (otnatne on e)
nada há de mais solitário

que o homem (povo estranho e
ninguém) num espelho.


2

nu, já vai
vestido
em pesada couraça
de nudez: imagem

                 (inervação
                 do vidro)

linguagem
solidez permanente-
mente
líquida

apertar a visão:
homem
inseto
árvore

num espelho
quantos
estilhaços
               cabem?


3

a poesia é a última fronteira,
sempre inédita e a mesma.

ali, a loucura expatriou-se
na lucidez, pura e simples e suja e

     
      s  (sangue)    e
n        e
      m
                     t
o            i
                        d


4

o espelho de um narciso apóstata
reflete nos olhos suas costas.

o anonimato é a fundação
de meu espírito, arco árabe

de meu rosto. sou anônimo
como um cão vira-lata

condecorado com sarna, chagas,
laureado de moscas.

sou mais belo agora, cicatrizando
o tempo na carne a carne nas horas

do que quando fui belo bela criança
que se olhou no espelho de casa

como pássaro bebendo água (ingênuo
de imagem e essência) na poça.

superfície burra, sincera, óbvia,
ser é seres é sermos é: ?


RENÉ MAGRITTE, reprodução proibida 
(retrato de edward james), 1937


5

o espelho, coisa mágica do vazio,
feito a arte, inventa volumes:

minha imagem é feita de carne,
doce e arredia como perfume.


6

também reflito o espelho (eu, outro)
quando não há nada em sua frente.

o espelho, raso milhares de abismos,
fez-se a porta para a liberdade  

o espelho espelha a cidade,
o espelho raso como a página 

(vejo minhas víscera no espelho)
infinito afora, além, por dentro


(pássaro ruim, 2009)

segunda-feira, 8 de julho de 2013

carta aberta

                 
farei minha casa de árvore
no bonsai.

janeleira como olhos,
buliçosa,
a araucária cujos galhos
serão verdes cobras...

mas o veneno será todo meu.

vou contente,
saio sem nove horas.
vou lavar minhas únicas roupas
nos arroios da saliva,
quará-las à luz da lua.

farei minha casa de árvore
no bonsai.

amarelecida de fruta-cor e mijo,
a página,
a língua que lhe falta,
indaga-se:
– onde estás? onde estás,
tu que sangravas tanto?

escreva-me de mim o que
quiseres, página,
não me ouço mais!
assino-te em branco,
fundo tuas margens
num fio de catástrofe.
as palavras já são calhaus.

longe, fui colher insetos
                    através da noite

e afio minha faca no orvalho.
                         

(sol sem pálpebras, 2007)

sexta-feira, 5 de julho de 2013

*

     
(pelo ar que vibra)



a aranha invisível
escuta o canto incricrível
dos grilos da noite

r.m.


*


mesmo entre os insetos –
uns sabem cantar,
outros não.


KOBAYASHI ISSA
(a partir de versão em inglês de robert hass)

quinta-feira, 4 de julho de 2013

os gafanhotos de joão batista

                   
os chavelhos        curtos
estudam o espaço:
micromilimorte
dos grãos e          das folhas.

verde é seu estrídulo
verde como a alface.
canto: este amolar
de fêmures-faca

em nervuras de asas.
micromilimorte
do que em mim verdeja:

a tarde de suas
carnes tão azedas
corre nos meus lábios.


(pássaro ruim, 2009)

lêdo ivo

   
O INTERESSE
         

Um pássaro canta
na manhã irônica.
Ó pássaro escarninho,
não cantes para mim.
Leva para bem longe,
para um ninho distante,
a sombra funesta
de tua plumagem.
Recuso-me a escutar
o teu canto de fel.
Não quero partir
na negra viagem.
só me resta ouvir
entre folhas e frutos
o zumbido da vida,
essa abelha insistente
que espalha na manhã
de homens e bichos
uma lição de mel.


[Ivo, Lêdo. Plenilúnio. Rio de janeiro: Topbooks, 2004.]

terça-feira, 2 de julho de 2013

nuno ramos

     
nuno ramos, choro negro (2004)


           
Terei de cantar os gafanhotos 


como um profeta, pedir perdão às formigas
que matei
(milhares)
às asas dos besouro
que arranquei, às barbatanas
de tubarão que comi
terei de amar cada mariposa
e mesmo o creme adstringente
culinário que sai de dentro das baratas
espatifadas sob a sola das sandálias?
Sim, terá.
E ainda por cima
voltar vestido de duende
uma glande enorme, condão, tocando
o pelo dos bichos
dizendo alto o nome deles, em sua própria
língua? Elefante sou eu
dromedário, eis aqui o teu irmão?
Terei de voltar
voltar para sempre
apontando o dedo
enumerando o que já é real
sem mim, mas não propriamente
vivo sem mim? Por que amei
assim, se serei punido? Por que não me deixam ir
sem a sombra de um verso
sem abraçar a pele imunda
do que, jacaré, já morreu?
Porque toquei minha carneira com meu dedo
afundei a digital na cona dela
e vi o branco dos seus olhos
entre os cílios, sob a cúpula
cheia de uma luz pesada mas sempre
(sempre)
transparente, como o alto de uma ogiva
gótica
misturado ao interior viscoso de uma jabuticaba
terei de amar o que não é meu, matéria confusa, pelanca
física que tento cantar?
Sim, terá.


[Nuno Ramos, in: Jornal Cândido, n 12, julho 2012.]

quinta-feira, 27 de junho de 2013

louva-a-deus

     

                               
derredor
tudo é uma única carne,
massa de sangue e manhãs,
um único crime e milagre;
nas contorções do ar,
a mesma espessura do minério.

piso folhas secas, manchadas
de outono e icterícia.
avanço, anjo carnívoro,
enfiando os dedos azuis nos
bolsos furados do existir, nas
alegrias de alto teor alcoólico, nos
instantes como sais de prata,
frutos, fósforos.
caibo inteiro em minha solidão.

não estou só.
um perfume gordurento do corpo
(nu sob as roupas) rói mucosas e 
epidermes e
me impele ao reino onde sou
bicho, outro, construção remedida
pelo arqui-
teto de estrelas. meu fedor
é uma chama! me depõe nova-
mente sobre as árvores.

eis que vejo: o louva-a-deus. 
olha-me como 
              se eu fora de fora, 
alienígena, um cão sobre a jangada.
olhamo-nos 
              circunspectos.

será que pensa, será que sofre
quando curva a cabeça, beato e fera?
remexe o espéculo de antenas
(não dirá palavra),
experimenta as asas,
mantídeo de entre folhagens.

penetro hipoteticamente
sua armadura
em verde-escarro,
ou por baixo
             seu espigão fracionado
e ausculto
a víscera espumando morte
e espanto.

existe nele um rancor que é meu,
uma alegria radiante.

louvamos ambos,
de espinhos armados,
o sol que brilha indiferente
sobre deus e o mundo.

                                           
(sol sem pálpebras, 2007)

terça-feira, 25 de junho de 2013

adriano scandolara

              
* A.S. apresenta-se hj (dia 25, terça-feira) no wonka bar. 

             

A paixão segundo A.S.


Roguei a teus olhos   perdão
ó, barata,
por uma epifania,
o sal primordial dos doces olhos
e a opressão da tarde
indolente
como a queda de dez andares
vista em vidro
fosco,
o chinelo te esmaga.


[Scandolara, Adriano. Lira de lixo. São Paulo: Editora Patuá, 2013.]

segunda-feira, 24 de junho de 2013

ferreira gullar

             
A ALEGRIA


O sofrimento não tem
nenhum valor,
não acende um halo
em volta de tua cabeça, não
ilumina trecho algum
de tua carne escura
(nem mesmo o que iluminaria
a lembrança ou a ilusão
de uma alegria).

Sofres tu, sofre
um cão ferido, um inseto
que o inseticida envenena.
Será maior a tua dor
que a daquele gato que viste
a espinha quebrada a pau
arrastando-se a berrar pela sarjeta
sem ao menos poder morrer?

A justiça é moral, a injustiça
não. A dor
te iguala a ratos e baratas
que também de dentro dos esgotos
espiam o sol
e no seu corpo nojento
de entrefezes
                     querem estar contentes.


[Gullar, Ferreira. Toda Poesia. Rio de Janeiro: José Olímpio, 2008.]

terça-feira, 18 de junho de 2013

"orgasmo cívico"

   
foto de gustavo gantois (portal terra)
       


FILHOS DA ÉPOCA


Somos filhos da época
e a época é política.

Todas as tuas, nossas, vossas coisas
diurnas e noturnas,
são coisas políticas.

Querendo ou não querendo,
teus genes têm um passado político,
tua pele, um matiz político,
teus olhos, um aspecto político.

O que você diz tem ressonância,
o que silencia tem um eco
de um jeito ou de outro político.

Até caminhando e cantando a canção
você dá passos políticos
sobre um solo político.

Versos apolíticos também são políticos,
e no alto a lua ilumina
com um brilho já pouco lunar.
Ser ou não ser, eis a questão.
Qual questão, me dirão.
Uma questão política.         

(...)

            wisława szymborska 
            (trad. regina przybycien)
             

sábado, 15 de junho de 2013

                 
i. m. Cyrene de Mello Pozzo (1929-2013).

para meu amigo de infância, meu irmão
ricardo pozzo.

neste momento.
                

*
                                 
5

o último fósforo contorceu-se,
exausto.

a aurora respira
com dificuldade

como se arrastasse
um galeão no seco.

esta agulha atravessa
todos os dedais.

(...)

mas, exatamente onde falta
a permanência, (onde falta)
a eternidade, ainda resta

a ternura.
                     

quinta-feira, 13 de junho de 2013

leonard cohen

                                 
SUMMER HAIKU


Silence
And a deeper silence
When the crickets hesitate


                      LEONARD COHEN
   

*


HAICAI DE VERÃO


Silêncio
E um silêncio maior
Quando os grilos hesitam
         

quarta-feira, 12 de junho de 2013

margaret atwood/ trad. adriana lisboa

                             

arte de kristine paulus


GRILOS


Setembro. Ásper silvestre. Uvas rosadas,
pequeninas e amargas,
o gosto do índigo do inverno
já floresce dentro delas.

A casa é invadida por grilos,
entraram em busca do calor.
Esgueiram-se para dentro do forno
e para trás da geladeira,
armam investidas pelo chão
cantando uns para os outros:
Aqui, aqui, aqui, aqui. 
Pisamos neles por engano,
apanhamo-los, às dúzias,
dúzias de consciências negras contorcendo-se,
e jogamos porta afora.

Eles não têm o que comer,
não conosco. Não há mais colheitas ou celeiros,
só mesas e cadeiras.
Ficamos afluentes demais.
Dentro de casa, morreriam de fome.
Espere, espere, espere, espere, dizem. Temem
morrer congelados. Sob a vassoura
sua armadura negra estala.

A formiga e o gafanhoto têm
seu lugar em nossos bestiários:
a primeira acumula riquezas, o segundo
gasta. Ficamos no meio do caminho, aprovamos
a formiga (cabeça), adoramos
o (coração) gafanhoto,
emulamos a ambos: por que escolher?
Armazenamos e vadiamos.

Quanto aos grilos, foram
censurados. Não temos
grilos em nossas lareiras. Não temos lareiras.

Ainda assim, eles nos acordam
à fria meia-noite,
pequenas vozes tímidas que não podemos localizar,
pequenos relógios tiquetaqueando,
relógios baratos; pequenas lembranças de metal:
tarde, tarde, tarde, tarde,
em algum lugar em meio aos lençóis,
nas molas das camas, no ouvido,
as hordas dos mortos de fome
voltam como as batidas de nossos corações.


[Atwood, Margaret. A porta - trad. Adriana Lisboa. Rio de janeiro: Rocco, 2013]