sábado, 15 de fevereiro de 2014
O xifópago, engajadíssimo, sampleia uma quadrinha do mestre juca
Eu tenho duas cabeças,
Todas duas sem censura.
A de cima é democrática,
A de baixo é a ditadura.
juca chaves
quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014
O xifópago à beira-mar agora escreve (com sua vara) nas areias úmidas da praia um pequeno madrigal de veraneio
foto de custódio coimbra
Ah, doce
concha azeda!
Largada
em lençóis rotos, marulhados,Insones sedas
Beijando-a com seu sal ensolarado.
E a maresia deixa atarantados,
Revivos, meio bestas, quase plenos,
Tarados tão ingênuos,
Imberbes ante a concha aos pés na praia...
Nas lânguidas areias, linda e leda,
A fresca concha é Vênus quem espraia?
Ah, bivalve, biscaia,
Ah, doce concha azeda!
segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014
octavio paz
mulher de pé em vermelho,
egon schiele, 1913
CORPO À VISTA
teu cabelo, outono espesso, queda de água solar,
tua boca e a branca disciplina de seus dentes canibais, prisioneiros em chamas,
tua pele de pão apenas dourado e teus olhos de açúcar queimado,
lugares onde o tempo não transcorre,
vales que apenas meus lábios conhecem,
desfiladeiro da lua que ascende à tua garganta entre teus seios,
cascata petrificada da nuca,
alto platô de teu ventre,
prata sem fim de teu costado.
Teus olhos são os olhos fixos do tigre
e um minuto depois são os olhos úmidos do cão.
Sempre há abelhas em teu cabelo.
Tua coluna flui tranquila sob meus olhos
como a coluna do rio à luz de um incêndio.
Águas dormidas golpeiam dia e noite tua cintura de argila
e em tuas costas, imensas como os areais da lua,o vento sopra por minha boca e seu longo gemido cobre com suas duas asas grises
a noite dos corpos,
como a sombra da águia na solidão do firmamento.
As unhas dos dedos de teus pés são feitas do cristal do
verão.
Entre tuas pernas há um poço de água dormida,
baía onde o mar de noite se aquieta, negro cavalo de espuma,caverna ao pé da montanha que esconde um tesouro,
boca do forno onde são feitas hóstias,
sorridentes lábios entreabertos e atrozes,
núpcias da luz e da sombra, do visível e invisível
(ali espera a carne sua ressurreição e o dia da vida perdurável).
Pátria de sangue,
única terra que
conheço e me conhece,única pátria em que eu creio,
única porta ao infinito.
trad. r.m.
original de octavio paz
quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014
terça-feira, 28 de janeiro de 2014

salvador dalí (foto de philippe halsman),
caveira macabra de salvador dalí, 1951.
A nudez é sempre nova e a mesma. E há algo no desejo que lateja apavorado. Por mais sacanas que sejamos, em alguma parte de nós, homens e mulheres, estalam nossos olhos de criança, nosso espanto, um terror excitadíssimo. Como se o sexo fosse uma forma deliciosa e irresistível de morte – a face clara da morte. Como um mistério, uma (in)experiência que nos deixa, meninos de tudo, inteiramente nus diante do fim.
segunda-feira, 27 de janeiro de 2014
Só uma perguntinha (antes de atravessar a avenida)
– Ei, moça, e se acaso a putaria
nos fizer um pouquinho mais puros?
quinta-feira, 23 de janeiro de 2014
d.h. lawrence

hieronymus bosch, detalhe do painel central de
o jardim das delícias terrenas (1480-1490)
A INDECÊNCIA PODE SER SÃ
A indecência pode ser sã e saudável.
Na verdade, um pouco de indecência é necessário em toda vida
para mantê-la sã e saudável.
E um pouco de putaria pode ser são e saudável.
Na verdade, um pouco de putaria é necessário em toda vida
para mantê-la sã e saudável.
Até a sodomia pode ser sã e saudável,
caso haja envolvido um sentimento genuíno.
Mas ponha qualquer delas no cérebro, e se tornarão perniciosas:
a indecência no cérebro torna-se obscenidade, maldosa.
A putaria no cérebro torna-se realmente sifilítica,
e a sodomia no cérebro torna-se uma missão,
a coisa toda – vício, missões, etc. – insanamente insalubre.
Da mema forma, a castidade em boa hora é doce e saudável.
Mas a castidade no cérebro é um vício, uma perversão.
E a rígida supressão de toda indecência, putaria ou qualquer outro comércio
[como esses
é um caminho seguro à delirante insanidade.
A quinta geração de puritanos, quando não é obscenamente pervertida,
é idiota. Então, você tem de escolher.
trad: r.m.
BAWDY CAN BE SANE
Bawdy can be sane and wholesome,
in fact a little bawdy is necessary in every life
to keep it sane and wholesome.
And a little whoring can be sane and wholesome.
In fact a little whoring is necessary in every life
to keep it sane and wholesome.
Even sodomy can be sane and wholesome
granted there is an exchange of genuine feeling.
But get any of them on the brain, and they become pernicious:
bawdy on the brain becomes obscenity, vicious.
Whoring on the brain becomes really syphilitic
and sodomy on the brain becomes a mission,
all the lot of them, vice, missions, etc., insanely unhealthy.
In the same way, chastity in its hour is sweet and wholesome.
But chastity on the brain is a vice, a perversion.
And rigid suppression of all bawdy, whoring or other such commerce
is a straight way to raving insanity.
The fifth generation of puritans, when it isn't obscenely profligate,
is idiot. So you've got to choose.
D. H. LAWRENCE
quinta-feira, 16 de janeiro de 2014
ex-votos
francisco, a tentação de clara,
clara tentação de chico.
e o fato de, se amando,
não se amarem, mais
que a pobreza extrema, mais
que as ceias cobertas de cinzas,
foi-lhes o supremo sacrifício.*
* [1212 d.c., por aí,
sob o céu lápis-lazúli de
assis.]
hoje, não: hoje tudo é
permitido. deus é pai, deus é mãee deus é filhos.
os dois irmãos e amigos,
os dois jograis de deus em deus unidos
– no chão, nas matas, nos catres
de palha e feno e lama, nas grutas –,
amam-se além das reticências e das culpas,
na cama infinitamente estreita
do impossível.
[o latim das moscas]
simone martini, santa chiara, 1312-20.
quarta-feira, 15 de janeiro de 2014
dante alighieri/ tradução: italo eugenio mauro
bonaventura berlinghieri,
são francisco e cenas de sua vida (1235)
CANTO XI [PARAÍSO]
(...)
Quando era ainda a infância sua recente
já começava a receber, na terra,
da grã virtude sua, conforto a gente;
porque jovem, por tal mulher, a guerra
do pai sofreu, a quem, tal como à morte,
ninguém a porta do prazer descerra;
e diante da espiritual sua corte
e 'coram patre' a ela foi unido
e dia a dia teve-lhe amor mais forte.
Ela, privada do primo marido,
mil e cem anos de abandono e dor
sofreu, sem receber um só pedido;
nem lhe valeu ouvir o seu valor
prezado – co' Amiclate, quando a achou –
por quem ao mundo só incutiu terror;
nem ser firme e constante a avantajou,
que, quando ao pé Maria chegou-lhe perto,
no alto da cruz com Cristo ela chorou.
Mas, para não prosseguir demais coberto,
que Francisco e Pobreza esses amantes
são, ora eu digo com falar aberto.
A sua concórdia, os seus ledos semblantes,
seu meigo olhar davam, de amor galhardo
e de santo pensar, provas bastantes;
fazendo que o venerável Bernardo
se descalçasse e, na busca da paz
correndo, o seu correr julgasse tardo.
Ó secreta riqueza, ó Bem feraz!
Já se descalça Egídio e já Silvestre
seguindo o esposo, tanto a esposa apraz.
E toma então esse pai, esse Mestre,
com sua mulher e sua família, o trilho
da corte, só cingindo a corda agreste.
(...)
[Alighieri, Dante. A Divina Comédia – tradução, comentários e notas de Italo Eugenio Mauro. São Paulo: Editora 34, 2009.]
segunda-feira, 13 de janeiro de 2014
paulo neves
FRANCESCO
Não foi virtude
o que ele viu na pobreza
mas o último véu da carne
e esta certeza quase maligna:
nada existe além da carne.
E a carne é somente um meio
de abordar o enigma
que há na carne,
de receber os estigmas
que só se leem na carne.
[Neves, Paulo. Viagem, Espera - Escritos Poéticos. São Paulo: Companhia das letras, 2006.]
sexta-feira, 10 de janeiro de 2014
quinta-feira, 9 de janeiro de 2014
terça-feira, 7 de janeiro de 2014
segunda-feira, 6 de janeiro de 2014
domingo, 5 de janeiro de 2014
nasal nightingale & the plugz 84
* ou, na definição de um arguto comentarista,
what a timelessly cool mother fucker!
sexta-feira, 3 de janeiro de 2014
quinta-feira, 2 de janeiro de 2014
terça-feira, 24 de dezembro de 2013
drummond
Hieronymus Bosch,
Tríptico da Epifania (ou Adoração dos Reis Magos), 1495.
VI NASCER UM DEUS
Em novembro chegaram os signos.
O céu nebuloso não filtrava
estrelas anunciantes
nem os bronzes de São José junto ao palácio Tiradentes
tangiam a Boa-Nova.
Eram outros os signos
e vinham na voz de iaras-propaganda
páginas inteiras de refrigerador e carro nacional
mas vinham.
O governo destinou só 210 mil dólares
à importação de artigos natalinos
avelãs figos castanhas ameixas amêndoas
sóis luas outonos cristalizados
orvalho de uísque em ramo de pinheiro
champagne extra-sec pour les connoisseurs
mas vinham
a fome sambava entre caçarolas desertas
e o amor dormia na entressafra
mas vinham
e petroleiros jatos caminhões nas BR televisores transistores
[corretores
descobriram subitamente
Jesus.
(Quem adquire a big cesta de natal Tremendous
no ato de pagamento da primeira prestação
recebe prêmio garantido
e concorre
na última quarta-feira de cada mês
– números correspondentes aos da Loteria Federal –
a visões como um apartamento
um jipe
uma lambreta
um lunik
um anjo eletrônico
e mais:
ajuda quinhentos velhinhos
a provar alegria
pois a Obra de Senectude Evangélica
tem comissão em cada cesta vendida.)
... na manjedoura?
no presépio?
no chão, diante do pórtico arruinado, como em Siena o pintou
[Francesco Giorgio?
na capelinha torta de São Gonçalo do Rio Abaixo?
na big cesta de natal?
... repousa o Infante esperado.
As luzes em que o esculpiram tornam-lhe o corpo dourado.
O Cristo é sempre novo, e na fraqueza deste menino
há um silencioso motor, uma confidência e um sino.
Nasce a cada dezembro e nasce de mil jeitos.
Temos de procurá-lo até na gruta de nossos defeitos.
Ministro deputados presidentes de sindicados
prosternam-se, estabelecendo os primeiros contatos.
Preside (mal) as assembleias de todas as sociedades
anônimas, anônimo ele próprio, nas inumerabilidades
de sua pobritude. E tenta renascer a cada hora
em que se distrai nossa polícia, assim como uma flora
sem jardineiro apendoa, e, sem húmus, no espaço
restaura o dinamismo das nuvens. Sua pureza arma um laço
à astúcia terrestre com que todos nos defendemos
da outra face do amor, a face dos extremos.
Inventou-se menino para ser ao menos contemplado,
senão querido (pois amamos a nosso modo limitado,
e de criança temos pena, porque submersos garotos
ainda fazem boiar em nós seus barcos rotos,
e a tristeza infantil, malva seca no catecismo, nunca se esquece).
Assim o Cristo vem numa cantiga sem rumo, não na prece
com pandeiros alegres tocando
com chapéus de palhinha amarela
companheiros alegres cantando.
Ó lapinha,
menino de barro,
deus de brinquedo,
areia branca de córrego,
musgo de penhasco,
Belém de papel,
primeira utopia,
primeira abordagem
de território místico,
primeiro tremor.
Vi nascer um deus.
Onde, pouco importa.
Como, pouco importa.
Vi nascer um deus
em plena calçada
entre camelôs;
na vitrina da boutique
sorria ou chorava,
não sei bem ao certo;
a luz da boate
mal lhe debuxava
o mínimo perfil.
Vi nascer um deus
entre embaixadores
entre publicanos
entre verdureiros
entre mensalistas,
no Maracanã
em Para-lá-do-mapa,
quando os gatos rondam
a espinha da noite
os mendigos espreitam
os inferninhos
e no museu acordam as telas
informais
e o homem esquece
metade da ciência atômica:
vi nascer um deus.
O mais pobre,
o mais simples.
[Andrade, Carlos Drummond. Lição de Coisas. São Paulo, Companhia das Letras, 2012.]
sábado, 7 de dezembro de 2013
madiba

foto por abigail hadeed
deixando um pouco de lado as postagens pornossatíricas, também quero fazer minha homenagem a nelson mandela. madiba. o maior político e estadista da segunda metade do século XX. "o homem que ensinou a perdoar".
"invictus", este poema que tentei traduzir (mal, diga-se, a toque de caixa), era o preferido de mandela. os versos de william ernest henley, poeta vitoriano pouco lembrado para além dos belíssimos versos em questão, foram uma espécie de companhia moral e espiritual durante o 27 anos de cárcere do líder sul-africano.
*
INVICTUS
Do fundo desta noite
que me veste,
Tal qual dum fosso o
escuro indivisível,
Eu agradeço ao deus
que ainda reste
Por este meu espírito
invencível.
Da circunstância em garras
afiadas,
Não me curvei nem foi
lamúria ouvida.
Tomando dos acasos
mil pancadas,
Minha cabeça sangra,
mas erguida.
Além deste lugar de
raiva e danos,
O Horror da sombra
emerge desde cedo,
e ainda assim, feroz
passar dos anos
me encontra e sempre encontrará
sem medo.
Que seja a porta estreita quanto for,
Já não importa a dor do veredito;
Sou eu de meu destino
meu senhor:
Eu sou o capitão de
meu espírito.
trad. r.m.
*
INVICTUS
Out of the night that covers me,
Black as the pit from pole to pole,
I thak whatever gods may be
For my unconquerable soul.
In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.
Beyond this place of wrath and tears
Looms but the horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds and shall find me unafraid.
It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll,
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul.
quarta-feira, 4 de dezembro de 2013
VI – Iâmbicos curiosos
Eu sei que tens amor que dar, sincera,
e sei que a xana espera minha vara;eu sei que “a rima é rica” – tu ponderas – ,
mas faz um outro encaixe rima rara.
Se deixas que eu te afague com as nozes
e afogue o podre pulcro feio cisneno cu, botão de flor que em fogos tisne,
ao dar-se assim desfazem-se as neuroses.
Por que o horror, se o cu já sabe de
prazeres que da mão e do bidê? Por quê, se a roda sempre acaba imunda?
Que o rabo aguente a merda como a tora,
que cagues para dentro e para fora:ao vaso ou pau por trás, sorria a bunda.
* um dos sete sonetos da seção "o xifópago aconselha".
terça-feira, 3 de dezembro de 2013
bem no meio do cu da morte
maria schneider e marlon brando na antológica cena
de "o último tango em paris" (bertolucci, 1972)
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