sábado, 20 de dezembro de 2014

o inseto

                                       
                              PA-
                        LARVA
        
                           ferreira gullar


o soneto 
fechou-se à 
verborreia,
fez careta

ao discurso.
tem agora
o hemistíquio
dos insetos

dissecados.
e entreabriu-se
aos desvãos,

por mais mínimos,
como quem 
se abre ao mar.


2

o inseto de
palarva e tinta,
multiplicado
por suas asas,

despega da
margem esquerda.
magro e comprido,
no afã de ser

fero e revivo,
deixará a página
(conta se morre

pouco depois?)
pelas paredes
sem transcendência.


3

antes de pousar
de uma vez por todas,
o sonetinseto
revela-se inteiro

à sanha suctória
nas dermes da vida:
imos, méis e conas.
morto, vai feder

quase impercebido:
mínimos abismos.
seu registro no 

papel será como
a abelha esmagada
correndo no vidro.


4

ou a fibrólise:
carne do susto,
e não do sono,
mil florações.

duma crisálida
renascerá:
sangue de tinta,
asas-sulfite,

a carnadura 
de gosma e de âmbar.
para queimar

no ar e nas veias,
como um veneno,
como o verão.

          
(pássaro ruim, 2009) 

sábado, 12 de julho de 2014

robert musil

                            


O PAPEL MATA-MOSCAS

                
O papel mata-moscas Tangle-foot tem mais ou menos trinta e seis centímetros de comprimento e vinte e um centímetros de largura; é coberto por uma cola amarela e tóxica e vem do Canadá. Quando uma mosca pousa sobre ele – sem demonstrar qualquer avidez especial, mas seguindo uma convenção, afinal de contas já há tantas outras ali –, fica colada primeiramente apenas pelas extremidades dobradas de todas as suas perninhas. Uma sensação bem suave e estranha, como quando andamos no escuro e pisamos descalços sobre alguma coisa que ainda não é nada a não ser algo que oferece uma resistência mole, morna, confusa, para dentro do que a humanidade já vai jorrando terrivelmente aos poucos, o reconhecimento de uma mão que de algum modo ali jaz e nos segura com cinco dedos cada vez mais nítidos em seus propósitos.

Então todas as moscas fazem força e se levantam, eretas, semelhantes a tábidos que não querem ser notados, ou como militares velhos e alquebrados (e de pernas ligeiramente arqueadas, como quando se está sobre um monte inclinado). Elas se endireitam, reunindo força e concentração. Depois de poucos segundos, estão decididas e começam a fazer o que podem, zumbir e tentar se erguer. Executam essa ação furiosa por tanto tempo até que a exaustão as obriga a parar. Segue-se uma pausa para respirar e uma nova tentativa. Mas os intervalos se tornam cada vez mais longos. Elas estão paradas ali e eu sinto como estão desnorteadas. De baixo sobem vapores desconcertantes. Como pequenos martelos, suas línguas tateiam fora da boca. Suas cabeças são marrons e peludas como se fossem feitas de casca de coco; como ídolos negros antropomórficos. Elas se curvam para frente e para trás sobre suas perninhas enlaçadas e presas, se dobram sobre os joelhos e avançam se erguendo, como fazem seres humanos que tentam movimentar de qualquer jeito uma carga pesada demais; mais trágicas do que trabalhadores, mais verdadeiras na expressão atlética do esforço extremo do que Laocoonte. E então chega o estranho e recorrente instante em que a necessidade do segundo que passa triunfa sobre toda a poderosa constância da existência.

É o instante em que por causa da dor um alpinista abre voluntariamente a mão cujos dedos ainda se agarravam, em que um homem perdido na neve se deita no chão como uma criança, em que um homem perseguido com os flancos em brasa para de correr. Elas já não têm mais forças para manter-se em pé, elas afundam um pouco e nesse instante são totalmente humanas. De imediato são agarradas por uma nova parte, mais acima na perna ou na parte traseira do corpo ou na extremidade de uma asa.

Quando elas superaram a exaustação anímica e depois de um breve instante voltam a lutar por sua vida, já estão fixadas numa posição desfavorável, e seus movimentos se tornam pouco naturais. Então elas jazem com as pernas dianteiras esticadas, apoiadas sobre os cotovelos, e tentam se levantar. Ou estão sentadas no chão, empinadas, de braços erguidos, como mulheres que tentam em vão escapar aos punhos de um homem. Ou jazem sobre a barriga, com a cabeça e os braços estendidos à frente, como se houvessem desabado em meio à corrida, e continuam erguendo apenas o rosto. Mas o inimigo sempre e desde o princípio é passivo e vence apenas devido aos instantes de desespero e confusão. Um nada, um isso as puxa para baixo. Tão devagar, que mal se consegue acompanhar o que acontece, e na maior parte das vezes com uma aceleração brusca ao final, quando o último colapso interno as abate. Então elas se deixam cair de repente, para a frente, de rosto, sobre as pernas; ou de lado, todas as pernas esticadas para longe do corpo; muitas vezes também de lado, com as pernas remando para trás. Assim elas jazem. Como aeroplanos caídos, que apontam uma das asas para o ar. Ou como cavalos mortos miseravelmente. Ou com infinitos gestos de desespero. Ou como adormecidos. Ainda no dia seguinte uma delas às vezes desperta, tateia por um momento com uma das pernas ou zumbe com a asa. Às vezes um desses movimentos perpassa o campo inteiro, então todas afundam ainda um pouco mais em sua morte. E só do lado do corpo, na região em que estão fixadas as pernas, elas têm algum órgão diminuto e cintilante que ainda vive por bastante tempo. Ele se abre e se fecha, não se pode caracterizá-lo sem lente de aumento, ele se parece com um minúsculo olho humano, que se abre e se fecha sem cessar.


ROBERT MUSIL (1880-1942)
trad. MARCELO BACKES

quarta-feira, 4 de junho de 2014

souvenirs

          
*

até quando encontrar
seus fios de cabelo
no meio dos meus livros?


*

agora
imagine
uma
caixa
torácica
de
bom
tamanho
acústica
saudável
onde
pulsasse

bem-
acondicionado

do
lado
esquerdo
do
peito

um
baço. 

             
*
                      
outro dia mesmo, vadiando as gavetas,
topei com uma de suas costelas.

o que um dia foi pra mim
lua crescente, pente,
bumerangue de marfim

(e – ainda – quantas vezes
arco para violinos genoveses?),

hoje é apenas um souvenir
de timbuktu.

                           
*

talvez depois sorrissem, se um deles
perguntasse, patético, aturdido,
na noite exumada:

o único osso
que restou de nosso
amor decomposto

é a lua,
essa mesma lua 
linda lá no alto?

                     
*
                                
(não que fosse aquela nudez
o primeiro alumbramento.)

você lembra?

ali parados, o coração batendo,
surrados
por uma corja de borboletas.

            
*
       
não é o tempo, necessariamente.
não é da alçada dos relógios.
o vento
                                 
é que comove as árvores, despenteia
o móbile das lembranças.
                                                                                      

terça-feira, 20 de maio de 2014

mestre bandeira

       
arte de arcângelo ianelli
         
                               
o mais belo poema sobre a menstruação (a real, não a metafórica, não o "mênstruo incruento das madrugadas", como escreveu o próprio bandeira noutra parte). sutil. tudo bem oculto. aquela mulher logo ali: vestida, nua sob as roupas, que bem pode estar sangrando pelas ruas...  
        
                       
ÁGUA-FORTE
        
O preto no branco,
O pente na pele:
Pássaro espalmado
No céu quase branco.
                   
Em meio do pente,
A concha bivalve
Num mar de escarlata.
Concha, rosa ou tâmara?
                              
No escuro recesso,
As fontes da vida
A sangrar inúteis
Por duas feridas.
                                  
Tudo bem oculto
Sob as aparências
Da água-forte simples:
De face, de flanco,
O preto no branco.
                               
                                                                                              
            MANUEL BANDEIRA

terça-feira, 29 de abril de 2014

Écloga ligeira (ou: aurea hypocritas)

                           
nicolas poussin, os pastores de arcádia (1637-38)

               
EDIR

Que fazes aqui, capeta,
tão mudo de pregações,
num prado de tentações
abordando esta ninfeta?

Eu te flagro, coisa ruim,
pastoreando seus pecados
com seu bordão tridentado
entre as anjas de escarpim.


VALDEMIRO

E tu, encosto nefando,
que fazes então aqui?
Fui quem primeiro te vi,
olhos saltados, babando.

Foste flagrado, seu cão,
entre os montes concretados
e os rebanhos desgarrados,
sem tua bíblia na mão.


EDIR

Eu-eu vim por Madalena,
Em-em nome de Jesus,
vim como quem verga à cruz
trazer luz a uma falena.
     
(dirigindo-se à ninfeta)
        
O reino do Senhor tem,
maior que as delícias vãs,
amor infinito. Irmã,
aceite Jesus! Amém?


VALDEMIRO

E eu-eu lá sou publicano,
Eu-eu lá sou embusteiro?!
Que me custam uns dinheiros
pra arrancá-la ao desengano?

(dirigindo-se à ninfeta)

Meu amor vai mais além.
E Deus dá mais do que as putas!
Sai, encosto! Encosto, escuta:
ela é minha, é nossa! Amém? 


EDIR

Isso é uma prosperidade,
uma baita obra de Deus,
convencer quaisquer ateus
aos cajados da Verdade.

Filho pródigo, ó pastor,
vamos con-ver-tê-la juntos!
Ao inferno outros assuntos,
se infinito é o nosso amor!


VALDEMIRO

Deus é pai e Deus é pau
– Universal ou Mundial –
para toda e qualquer obra.
Se o pecado a Deus se dobra,
ao inferno outros assuntos:
vamos convertê-la juntos!

                  
A NINFETA, MADALENA, FALENA, PRIMA & IRMÃ

Amém, amém, meus irmãos,
mas não tenho a noite inteira!
Pra que tanta embromação,
tanta conversa fuleira?!

Eu não quero nem saber
quem é santo e quem é ogro.
Se juntos vão converter,
Eu cobro de cada o dobro! 
                                             

sexta-feira, 25 de abril de 2014

e. e. cummings/ trad. adalberto müller

                                                     
aabaixo aah belíssima tradução de adalberto müller para 
um(hum) dos mais saborosos poemas de e. e. cum(mm)ings

:

11

posso pegar ele disse
(vou gritar ela disse
desse lado ele disse)
engraçado ela disse

(posso tocar ele disse
onde vai dar ela disse
bem perto ele disse)
tá certo ela disse

(vai dar jogo ele disse
não tão longe ela disse
onde é longe ele disse
onde há fogo ela disse)

posso ficar ele disse
(que lugar ela disse
desse jeito ele disse
nada feito ela disse

posso pôr ele disse
é amor ela disse)
você quer ele disse
(vai doer ela disse

com cuidado ele disse
é casado ela disse
assim ele disse)
siim ela disse

(é demais ele disse
maais ela disse
aah ele disse)
devagar ela disse

(jáa?ele disse
aah ela disse)
valeu!ele disse
(é Meu ela disse) 


trad. adalberto müller

*

11

may i feel said he
(i'll squeal said she
just once said he)
it's fun said she

(may i touch said he
how much said she
a lot said he)
why not said she

(let's go said he
not too far said she
what's too far said he
where you are said she)

may i stay said he
(which way said she
like this said he
if you kiss said she

may i move said he
is it love said she)
if you're willing said he
(but you're killing said she

but it's life said he
but your wife said she
now said he)
ow said she

(tiptop said he
don't stop said she
oh no said he)
go slow said she

(cccome?said he
ummm said she)
you're divine!said he
(you are Mine said she) 
                   

terça-feira, 22 de abril de 2014

anne sexton

                                                                                 
QUANDO O HOMEM ENTRA NA MULHER
                 
                           
Quando o homem
entra na mulher,
como a onda mordendo a orla,
de novo e de novo,
e a mulher de prazer abre a boca
e seus dentes brilham
como o alfabeto,
Logos irrompe ordenhando uma estrela
e o homem
dentro da mulher
dá um nó,
para que nunca mais
se separem,
e a mulher escala uma flor
engolindo-lhe a haste
e Logos irrompe
e desata seus rios.

Este homem,
esta mulher,
com sua dupla fome,
tentaram ir além
das cortinas de Deus,
e brevemente conseguiram,
mesmo que Deus
em Sua perversidade
desfaça o nó. 
                   
trad. r.m.

*

WHEN MAN ENTERS WOMAN

When man
enters woman,
like the surf biting the shore,
again and again,
and the woman opens her mouth in pleasure
and her teeth gleam
like the alphabet,
Logos appears milking a star,
and the man
inside of woman
ties a knot
so that they will
never again be separate
and the woman
climbs into a flower
and swallows its stem
and Logos appears
and unleashed their rivers.
                      
This man,
this woman
with their double hunger,
have tried to reach through
the curtain of God
and briefly they have,
though God
in His perversity
unties the knot.
                        

sexta-feira, 18 de abril de 2014

sexta-feira santa/ jorge luis borges

                                                   
CRISTO NA CRUZ
                    
                                                     
Cristo na cruz. Os pés tocam a terra.
Os três madeiros são de igual altura.
Cristo não está no meio. É o terceiro.
A negra barba pende sobre o peito.
O rosto não é o rosto das imagens.
É áspero e judeu. Eu não o vejo
e o seguirei buscando até o dia
de meus últimos passos pela terra.
Esse homem alquebrado sofre e cala.
A coroa de espinhos o excrucia.
Não o alcança a zombaria da plebe
que viu sua agonia tantas vezes.
A sua ou a de outro. Dá no mesmo.
Cristo na cruz. Desordenadamente
pensa no reino que talvez o espere,
pensa numa mulher que não foi sua.
Não lhe é dado enxergar a teologia,
a indecifrável Trindade, os gnósticos,
as catedrais, a navalha de Occam,
as púrpuras, as mitras, a liturgia,
a conversão de Guthrum pela espada,
a inquisição, bem como o sangue mártir,
as atrozes Cruzadas, Joana D’Arc,
o Vaticano que bendiz exércitos.
Sabe que não é um deus, que é um homem
que morre com o dia. Não lhe importa.          
Lhe importa o duro ferro de seus cravos.
Não é romano. Não é grego. Geme.
E nos deixou esplêndidas metáforas
e uma doutrina do perdão que pode
anular o passado. (Essa sentença
escreveu-a um irlandês em um cárcere.)
Sua alma busca o fim, apressada.
Escureceu um pouco. Já está morto.
Anda uma mosca pela carne quieta.
De que pode servir-me que aquele homem
tenha então sofrido, se eu sofro agora?
                                                                                     
trad. r.m.
                        

segunda-feira, 24 de março de 2014

marcelino freire

           
                                  
animação: rodrigo burdman
narração: paulo césar pereio


segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

octavio paz

                                                                                                  
                                        
                                  mulher de pé em vermelho,
                                  egon schiele, 1913

                                                       
CORPO À VISTA

 
E as sombras se abriram outra vez e mostraram teu corpo:
teu cabelo, outono espesso, queda de água solar,
tua boca e a branca disciplina de seus dentes canibais, prisioneiros em chamas,
tua pele de pão apenas dourado e teus olhos de açúcar queimado,
lugares onde o tempo não transcorre,
vales que apenas meus lábios conhecem,
desfiladeiro da lua que ascende à tua garganta entre teus seios,
cascata petrificada da nuca,
alto platô de teu ventre,
prata sem fim de teu costado.

Teus olhos são os olhos fixos do tigre
e um minuto depois são os olhos úmidos do cão.

Sempre há abelhas em teu cabelo.

Tua coluna flui tranquila sob meus olhos
como a coluna do rio à luz de um incêndio.

Águas dormidas golpeiam dia e noite tua cintura de argila
e em tuas costas, imensas como os areais da lua,
o vento sopra por minha boca e seu longo gemido cobre com suas duas asas grises
a noite dos corpos,
como a sombra da águia na solidão do firmamento.

As unhas dos dedos de teus pés são feitas do cristal do verão.

Entre tuas pernas há um poço de água dormida,
baía onde o mar de noite se aquieta, negro cavalo de espuma,
caverna ao pé da montanha que esconde um tesouro,
boca do forno onde são feitas hóstias,
sorridentes lábios entreabertos e atrozes,
núpcias da luz e da sombra, do visível e invisível
(ali espera a carne sua ressurreição e o dia da vida perdurável).

Pátria de sangue,
única terra que conheço e me conhece,
única pátria em que eu creio,
única porta ao infinito.
                                                                                  
         
trad. r.m.

original de octavio paz
                                  

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

ex-votos

                                                      
francisco, a tentação de clara,
clara tentação de chico.                    
e o fato de, se amando,                         
não se amarem, mais                             
que a pobreza extrema, mais
que as ceias cobertas de cinzas,
foi-lhes o supremo sacrifício.*


                                                                      * [1212 d.c., por aí,
                                                       sob o céu lápis-lazúli de assis.]
          
hoje, não: hoje tudo é
permitido. deus é pai, deus é mãe
e deus é filhos.
              
os dois irmãos e amigos,
os dois jograis de deus em deus unidos
amam-se enfim dum amor físico
– no chão, nas matas, nos catres
de palha e feno e lama, nas grutas –,
amam-se além das reticências e das culpas,
na cama infinitamente estreita
do impossível.
                                          
[o latim das moscas]  
                                          
                

            

simone martini, santa chiara, 1312-20.
                                                                

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

paulo neves

      
FRANCESCO

                        
Não foi virtude
o que ele viu na pobreza
mas o último véu da carne
e esta certeza quase maligna:
nada existe além da carne.
E a carne é somente um meio
de abordar o enigma
que há na carne,
de receber os estigmas
que só se leem na carne.
        
                                                   
[Neves, Paulo. Viagem, Espera - Escritos Poéticos. São Paulo: Companhia das letras, 2006.]
                                                                                             
St. Francis Preaching to the Birds - Giotto
giotto, são francisco pregando aos pássaros (1299)
                                          

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

karina


                                            
           * apenas um rapaz latino-americano - belchior  
                                             

                      

* revelação - fagner

                                                     

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

i'm lying in the rain

      
                                                                                                                                    

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

don't need a whore, don't need no booze, don't need a virgin priest

                            
                                                                                                                              

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

the king

 
* bridge over troubled water  (simon & garfunkel)
                 
                                                          

domingo, 5 de janeiro de 2014

nasal nightingale & the plugz 84

 
* ou, na definição de um arguto comentarista,
what a timelessly cool mother fucker!
        
 
                                                                            

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

milonga del moro judío (jorge drexler - chicho sánchez ferlosio)

                                                                                                                          

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

drummond

       
                          
    
Hieronymus Bosch,
Tríptico da Epifania (ou Adoração dos Reis Magos), 1495.



VI NASCER UM DEUS


Em novembro chegaram os signos.
O céu nebuloso não filtrava
estrelas anunciantes
nem os bronzes de São José junto ao palácio Tiradentes
tangiam a Boa-Nova.
Eram outros os signos
e vinham na voz de iaras-propaganda
páginas inteiras de refrigerador e carro nacional
mas vinham.
O governo destinou só 210 mil dólares
à importação de artigos natalinos
avelãs figos castanhas ameixas amêndoas
sóis luas outonos cristalizados
orvalho de uísque em ramo de pinheiro
champagne extra-sec pour les connoisseurs
mas vinham
a fome sambava entre caçarolas desertas
e o amor dormia na entressafra
mas vinham
e petroleiros jatos caminhões nas BR televisores transistores
                                                                               [corretores
descobriram subitamente
Jesus.

(Quem adquire a big cesta de natal Tremendous
no ato de pagamento da primeira prestação
recebe prêmio garantido
e concorre
na última quarta-feira de cada mês
– números correspondentes aos da Loteria Federal –
a visões como um apartamento
                                             um jipe                             

                                             uma lambreta
                                                    um lunik
                                     um anjo eletrônico
e mais:
ajuda quinhentos velhinhos
a provar alegria
pois a Obra de Senectude Evangélica
tem comissão em cada cesta vendida.)

... na manjedoura?
no presépio?
no chão, diante do pórtico arruinado, como em Siena o pintou
                                                                   [Francesco Giorgio?
na capelinha torta de São Gonçalo do Rio Abaixo?
na big cesta de natal?

                                        ... repousa o Infante esperado.
As luzes em que o esculpiram tornam-lhe o corpo dourado. 

O Cristo é sempre novo, e na fraqueza deste menino
há um silencioso motor, uma confidência e um sino.

Nasce a cada dezembro e nasce de mil jeitos.
Temos de procurá-lo até na gruta de nossos defeitos.

Ministro deputados presidentes de sindicados
prosternam-se, estabelecendo os primeiros contatos.

Preside (mal) as assembleias de todas as sociedades
anônimas, anônimo ele próprio, nas inumerabilidades

de sua pobritude. E tenta renascer a cada hora
em que se distrai nossa polícia, assim como uma flora

sem jardineiro apendoa, e, sem húmus, no espaço
restaura o dinamismo das nuvens. Sua pureza arma um laço

à astúcia terrestre com que todos nos defendemos
da outra face do amor, a face dos extremos.

Inventou-se menino para ser ao menos contemplado,
senão querido (pois amamos a nosso modo limitado,

e de criança temos pena, porque submersos garotos
ainda fazem boiar em nós seus barcos rotos,

e a tristeza infantil, malva seca no catecismo, nunca se esquece).
Assim o Cristo vem numa cantiga sem rumo, não na prece

                  com pandeiros alegres tocando
                  com chapéus de palhinha amarela
                  companheiros alegres cantando.

Ó lapinha,

menino de barro,
deus de brinquedo,
areia branca de córrego,
musgo de penhasco,
Belém de papel,
primeira utopia,
primeira abordagem
de território místico,
primeiro tremor.
Vi nascer um deus.
Onde, pouco importa.
Como, pouco importa.
Vi nascer um deus
em plena calçada
entre camelôs;
na vitrina da boutique
sorria ou chorava,
não sei bem ao certo;
a luz da boate
mal lhe debuxava
o mínimo perfil.
Vi nascer um deus
entre embaixadores
entre publicanos
entre verdureiros
entre mensalistas,
no Maracanã
em Para-lá-do-mapa,
quando os gatos rondam
a espinha da noite
os mendigos espreitam
os inferninhos
e no museu acordam as telas
informais
e o homem esquece
metade da ciência atômica:
vi nascer um deus.
O mais pobre,
o mais simples.

                                        
[Andrade, Carlos Drummond. Lição de Coisas. São Paulo, Companhia das Letras, 2012.]

sábado, 7 de dezembro de 2013

madiba


 
foto por abigail hadeed
 
                                                                                                                             
deixando um pouco de lado as postagens pornossatíricas, também quero fazer minha homenagem a nelson mandela. madiba. o maior político e estadista da segunda metade do século XX. "o homem que ensinou a perdoar".

"invictus", este poema que tentei traduzir (mal, diga-se, a toque de caixa),  era o preferido de mandela. os versos de william ernest henley, poeta vitoriano pouco lembrado para além dos belíssimos versos em questão, foram uma espécie de companhia moral e espiritual durante o 27 anos de cárcere do líder sul-africano.
                         
*
                   

INVICTUS


Do fundo desta noite que me veste,
Tal qual dum fosso o escuro indivisível,
Eu agradeço ao deus que ainda reste
Por este meu espírito invencível.
                                                                 
Da circunstância em garras afiadas,
Não me curvei nem foi lamúria ouvida.
Tomando dos acasos mil pancadas,
Minha cabeça sangra, mas erguida.
                                                                    
Além deste lugar de raiva e danos,
O Horror da sombra emerge desde cedo,
e ainda assim, feroz passar dos anos
me encontra e sempre encontrará sem medo.
                                                                           
Que seja a porta estreita quanto for,
Já não importa a dor do veredito;
Sou eu de meu destino meu senhor:
Eu sou o capitão de meu espírito.
 
                                     
trad. r.m.
    

*
                                                     
INVICTUS
 
 
Out of the night that covers me,
Black as the pit from pole to pole,
I thak whatever gods may be
For my unconquerable soul.
                                                   
In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.
                                                        
Beyond this place of wrath and tears
Looms but the horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds and shall find me unafraid.
                                                         
It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll,
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul.