sábado, 16 de novembro de 2013

giuseppe ungaretti

                                    
ATTRITO

Locvizza il 23 settembre 1916


Con la mia fame di lupo                                                                          *
ammaino
il mio corpo di pecorella

Sono come
la misera barca
e come l'oceano libidinoso

*


ATRITO

Locvizza, 23 de setembro de 1916


Com minha fome de lobo
amaino
meu corpo de ovelhinha

Sou como
a mísera barca
e como o oceano libidinoso

                    
*imagem encontrada na parede de uma igreja medieval na dinamarca.                                                

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

mario benedetti

                         
UMA MULHER DESPIDA E NO ESCURO


Uma mulher despida e no escuro
tem uma claridade que ilumina
de modo que se há algum desconsolo
apagão, noite em que a lua não brilha
é de muito bom tom e de bom gosto
ter à mão uma mulher despida
 
Uma mulher despida e no escuro
gera um resplendor que dá confiança
no calendário então só há domingos
pelos cantos vibram fios de aranha
e os olhos felizes e felinos
olham e de olhar nunca se cansam.

Uma mulher despida e no escuro
para nossas mãos vocacionadas
para o coração é um desperdício
e é quase um destino para os lábios
uma mulher sem roupas é um enigma
e é sempre uma festa decifrá-lo.

Uma mulher despida e no escuro
gera uma luz própria e nos acende
o forro do teto em céu converte-se
e é uma glória não ser inocente
uma mulher querida ou vislumbrada
desbarata ao menos uma vez a morte.

                                  
                                     MARIO BENEDETTI

versão: r.m. 
 

"una mujer desnuda y en lo oscuro", recitado pelo próprio poeta:
http://youtu.be/rfgJE0TUmwY
                        

domingo, 10 de novembro de 2013

o verão

                               
a luz do sol e das luas de cloro varou a escuridão de nossas roupas. parece até um crime. talvez dissesse algum menino olhando pela fresta: um assassinato. e somos mais ou menos delicados. e estamos felizes.
tu começas pelos lábios, carne sobre carne (a lânguida liquenografia da língua). os lábios são o fruto que se colhe com os lábios.
árvore de ossos, vento. esta macieira é o único livro que li na vida.
sou um lenhador implausível, comovido, de mãos nuas. (ou és tu, com a serra elétrica de hálito & sussuros, com teu machado de maciezas & calores & perfumes, a lenhadora que me derruba?)
teu corpo jazz na relva. meu corpo jazz na relva.
e cavo um bunker no domingo de tua virilha. e deixo minhas mãos pastarem como bois famintos.
as coxas cheiram a terra molhada. no pescoço és uma égua, haste doente. teus mamilos são despenhadeiros.
folheio o corão de teus cabelos. estou vivo, como quem autentica a própria morte no cartório das veias.
a vida é enorme, minha amiga, a vida nos acontece à queima-roupa.
deus existe por alguns instantes? é a palavra de silêncio, o grafite de néctar no muro das costas? a cama é um bosque onde o perfume lança âncoras de hera.
separar as pernas, abrir a caixinha de música de tuas súplicas. ah, a boceta! uma fogeira no centro do corpo, do quarto, da galáxia, dos séculos.
eu sei, sou um cego, um analfabeto. nosso esqueleto é um relâmpago.
subirei todas as escadas de tua nudez? sonhar, floração de tesouras. os óculos no chão. meu coração é um cavalo escoiceando a caixa torácica. uma ave que bate contra o vidro.
de repente, nem isso. resfolegante, calmo, um pouco triste (temos a idade de um crepúsculo). o cavalo exausto sobre o campo, o cavalo exausto na colina. um pássaro que lateja  – & a morte tem quase o tamanho da vida  –  sobre a réstia de sol que atravessa a cama.
                                                    

(poema revisitado: pássaro ruim, 2009)