terça-feira, 2 de julho de 2013

nuno ramos

     
nuno ramos, choro negro (2004)


           
Terei de cantar os gafanhotos 


como um profeta, pedir perdão às formigas
que matei
(milhares)
às asas dos besouro
que arranquei, às barbatanas
de tubarão que comi
terei de amar cada mariposa
e mesmo o creme adstringente
culinário que sai de dentro das baratas
espatifadas sob a sola das sandálias?
Sim, terá.
E ainda por cima
voltar vestido de duende
uma glande enorme, condão, tocando
o pelo dos bichos
dizendo alto o nome deles, em sua própria
língua? Elefante sou eu
dromedário, eis aqui o teu irmão?
Terei de voltar
voltar para sempre
apontando o dedo
enumerando o que já é real
sem mim, mas não propriamente
vivo sem mim? Por que amei
assim, se serei punido? Por que não me deixam ir
sem a sombra de um verso
sem abraçar a pele imunda
do que, jacaré, já morreu?
Porque toquei minha carneira com meu dedo
afundei a digital na cona dela
e vi o branco dos seus olhos
entre os cílios, sob a cúpula
cheia de uma luz pesada mas sempre
(sempre)
transparente, como o alto de uma ogiva
gótica
misturado ao interior viscoso de uma jabuticaba
terei de amar o que não é meu, matéria confusa, pelanca
física que tento cantar?
Sim, terá.


[Nuno Ramos, in: Jornal Cândido, n 12, julho 2012.]

quinta-feira, 27 de junho de 2013

louva-a-deus

     

                               
derredor
tudo é uma única carne,
massa de sangue e manhãs,
um único crime e milagre;
nas contorções do ar,
a mesma espessura do minério.

piso folhas secas, manchadas
de outono e icterícia.
avanço, anjo carnívoro,
enfiando os dedos azuis nos
bolsos furados do existir, nas
alegrias de alto teor alcoólico, nos
instantes como sais de prata,
frutos, fósforos.
caibo inteiro em minha solidão.

não estou só.
um perfume gordurento do corpo
(nu sob as roupas) rói mucosas e 
epidermes e
me impele ao reino onde sou
bicho, outro, construção remedida
pelo arqui-
teto de estrelas. meu fedor
é uma chama! me depõe nova-
mente sobre as árvores.

eis que vejo: o louva-a-deus. 
olha-me como 
              se eu fora de fora, 
alienígena, um cão sobre a jangada.
olhamo-nos 
              circunspectos.

será que pensa, será que sofre
quando curva a cabeça, beato e fera?
remexe o espéculo de antenas
(não dirá palavra),
experimenta as asas,
mantídeo de entre folhagens.

penetro hipoteticamente
sua armadura
em verde-escarro,
ou por baixo
             seu espigão fracionado
e ausculto
a víscera espumando morte
e espanto.

existe nele um rancor que é meu,
uma alegria radiante.

louvamos ambos,
de espinhos armados,
o sol que brilha indiferente
sobre deus e o mundo.

                                           
(sol sem pálpebras, 2007)

terça-feira, 25 de junho de 2013

adriano scandolara

              
* A.S. apresenta-se hj (dia 25, terça-feira) no wonka bar. 

             

A paixão segundo A.S.


Roguei a teus olhos   perdão
ó, barata,
por uma epifania,
o sal primordial dos doces olhos
e a opressão da tarde
indolente
como a queda de dez andares
vista em vidro
fosco,
o chinelo te esmaga.


[Scandolara, Adriano. Lira de lixo. São Paulo: Editora Patuá, 2013.]

segunda-feira, 24 de junho de 2013

ferreira gullar

             
A ALEGRIA


O sofrimento não tem
nenhum valor,
não acende um halo
em volta de tua cabeça, não
ilumina trecho algum
de tua carne escura
(nem mesmo o que iluminaria
a lembrança ou a ilusão
de uma alegria).

Sofres tu, sofre
um cão ferido, um inseto
que o inseticida envenena.
Será maior a tua dor
que a daquele gato que viste
a espinha quebrada a pau
arrastando-se a berrar pela sarjeta
sem ao menos poder morrer?

A justiça é moral, a injustiça
não. A dor
te iguala a ratos e baratas
que também de dentro dos esgotos
espiam o sol
e no seu corpo nojento
de entrefezes
                     querem estar contentes.


[Gullar, Ferreira. Toda Poesia. Rio de Janeiro: José Olímpio, 2008.]

terça-feira, 18 de junho de 2013

"orgasmo cívico"

   
foto de gustavo gantois (portal terra)
       


FILHOS DA ÉPOCA


Somos filhos da época
e a época é política.

Todas as tuas, nossas, vossas coisas
diurnas e noturnas,
são coisas políticas.

Querendo ou não querendo,
teus genes têm um passado político,
tua pele, um matiz político,
teus olhos, um aspecto político.

O que você diz tem ressonância,
o que silencia tem um eco
de um jeito ou de outro político.

Até caminhando e cantando a canção
você dá passos políticos
sobre um solo político.

Versos apolíticos também são políticos,
e no alto a lua ilumina
com um brilho já pouco lunar.
Ser ou não ser, eis a questão.
Qual questão, me dirão.
Uma questão política.         

(...)

            wisława szymborska 
            (trad. regina przybycien)
             

sábado, 15 de junho de 2013

                 
i. m. Cyrene de Mello Pozzo (1929-2013).

para meu amigo de infância, meu irmão
ricardo pozzo.

neste momento.
                

*
                                 
5

o último fósforo contorceu-se,
exausto.

a aurora respira
com dificuldade

como se arrastasse
um galeão no seco.

esta agulha atravessa
todos os dedais.

(...)

mas, exatamente onde falta
a permanência, (onde falta)
a eternidade, ainda resta

a ternura.
                     

quinta-feira, 13 de junho de 2013

leonard cohen

                                 
SUMMER HAIKU


Silence
And a deeper silence
When the crickets hesitate


                      LEONARD COHEN
   

*


HAICAI DE VERÃO


Silêncio
E um silêncio maior
Quando os grilos hesitam
         

quarta-feira, 12 de junho de 2013

margaret atwood/ trad. adriana lisboa

                             

arte de kristine paulus


GRILOS


Setembro. Ásper silvestre. Uvas rosadas,
pequeninas e amargas,
o gosto do índigo do inverno
já floresce dentro delas.

A casa é invadida por grilos,
entraram em busca do calor.
Esgueiram-se para dentro do forno
e para trás da geladeira,
armam investidas pelo chão
cantando uns para os outros:
Aqui, aqui, aqui, aqui. 
Pisamos neles por engano,
apanhamo-los, às dúzias,
dúzias de consciências negras contorcendo-se,
e jogamos porta afora.

Eles não têm o que comer,
não conosco. Não há mais colheitas ou celeiros,
só mesas e cadeiras.
Ficamos afluentes demais.
Dentro de casa, morreriam de fome.
Espere, espere, espere, espere, dizem. Temem
morrer congelados. Sob a vassoura
sua armadura negra estala.

A formiga e o gafanhoto têm
seu lugar em nossos bestiários:
a primeira acumula riquezas, o segundo
gasta. Ficamos no meio do caminho, aprovamos
a formiga (cabeça), adoramos
o (coração) gafanhoto,
emulamos a ambos: por que escolher?
Armazenamos e vadiamos.

Quanto aos grilos, foram
censurados. Não temos
grilos em nossas lareiras. Não temos lareiras.

Ainda assim, eles nos acordam
à fria meia-noite,
pequenas vozes tímidas que não podemos localizar,
pequenos relógios tiquetaqueando,
relógios baratos; pequenas lembranças de metal:
tarde, tarde, tarde, tarde,
em algum lugar em meio aos lençóis,
nas molas das camas, no ouvido,
as hordas dos mortos de fome
voltam como as batidas de nossos corações.


[Atwood, Margaret. A porta - trad. Adriana Lisboa. Rio de janeiro: Rocco, 2013]

segunda-feira, 10 de junho de 2013

drummond

                                                                                                                                                   
CAÇA NOTURNA


No escuro
o zumbido gigante do besouro
corrói os cristais do sono.
Que avião é esse, levando para Teerã
uma amizade um amor um bloco de oitenta indiferenças
que não acaba de passar e circunvoa
sobre a casa perdida na floresta
imobiliária?

Vai o ouvido apurando
na trama do rumor suas nervuras:
inseto múltiplo reunido
para compor o zanzineio surdo
circular opressivo
zunzin de mil zonzons zoando em meio
à pasta de calor
da noite em branco.

São as eletrobombas em serviço.
A música da seca.
Pickup que não para de girar.
Gato que não cansa de roncar.
Ah, como os conheço!
Fazem parte da vida esses possantes
motores de tocaia
na caça lunar de água, lebre esquiva
sugada
por um canal de desespero e insônia.

Que gemido grilado, apenas zi,
tímido se incorpora ao zon compacto?
Que vozinha medrosa mais suspira
do que zoa, no côncavo noturno?
O motorzinho do poeta,
pobre galgo da casa,
1/4 de HP, caçando em vão.


[Andrade, Carlos Drummond de. Lição de Coisas (1962). São Paulo: Companhia da Letras, 2012.]

sábado, 8 de junho de 2013

                                                                     
Se tivesse escrito
dom quixote (III / o esguio propósito)
de drummond

obra menor       (um poema com patas
                           que farelam nos dedos)

eu seria bem mais
que o entomologista
que não fui
eu seria 

um cuteleiro que apronta
os talhares dos grilos 

o cardiólogo da aurora
passarinheiro

                      de gafanhotos




















***


  
III / O esguio propósito

Caniço de pesca
fisgando o ar,
gafanhoto montado
em corcel magriz,
espectro de grilo
cingindo loriga,
fio de linha
à brisa torcido,
              relâmpago
              ingênuo
              furor
de solitárias horas indormidas
quando o projeto a noite obscura.
Esporeia
o cavalo,
esporeia
o sem-fim.

                       DRUMMOND


* os 21 poemas de drummond, escritos no início dos anos 70, baseavam-se nos 21 desenhos a lápis sobre cartão que cândido portinari produzira, em 1956, para ilustrar uma edição do dom quixote.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

epígrafe


       
one fly makes a summer

                      MARK TWAIN
         

sexta-feira, 31 de maio de 2013

o inseto

                                         
                              PA-
                        LARVA
        
                           ferreira gullar


o soneto 
fechou-se à 
verborreia,
fez careta

ao discurso.
tem agora
o hemistíquio
dos insetos

dissecados.
e entreabriu-se
aos desvãos,

por mais mínimos,
como quem 
se abre ao mar.


2

o inseto de
palarva e tinta,
multiplicado
por suas asas,

despega da
margem esquerda.
magro e comprido,
no afã de ser

fero e revivo,
deixará a página
(conta se morre

pouco depois?)
pelas paredes
sem transcendência.


3

antes de pousar
de uma vez por todas
o sonetinseto
revela-se inteiro

à sanha suctória
nas dermes da vida:
imos, méis e conas.
morto, vai feder

quase impercebido:
mínimos abismos.
seu registro no 

papel será como
a abelha esmagada
correndo no vidro.


4

ou a fibrólise:
carne do susto,
e não do sono,
mil florações.

duma crisálida
renascerá:
sangue de tinta,
asas-sulfite,

a carnadura 
de gosma e de âmbar.
para queimar

no ar e nas veias,
como um veneno,
como o verão.

          
(pássaro ruim, 2009) 

quarta-feira, 29 de maio de 2013

arakida moritaki (1472-1549)


                         
A flor caída retorna ao seu ramo:
uma borboleta

               
* traduzido do italiano (Il fiore caduto rivola a suo ramo:/una farfalla)

terça-feira, 28 de maio de 2013

murilo mendes

       
OSSOS DE BORBOLETA


São lindos os ossos de borboleta. Bem sei que só existem em sentido figurado; ninharias que lhes deram o nome; um ceitil, um sexto de real ou do irreal, um milésimo do zero. Mas acredito teimosamente na existência dos ossos de borboleta.

Bem sei que por exemplo os ossos de siba ou sépia são admiráveis; tanto assim que o poeta Montale batizou Ossi di seppia um dos seus melhores livros. Bem sei que o molusco de que é tipo a Sepia officinallis tornou-se precioso até na oficina do pintor.

Mas os ossos de borboleta! Que finura, que delicadeza! Voam.

                                                                            
                                                             MURILO MENDES (in: poliedro, 1965-66)

segunda-feira, 27 de maio de 2013

affonso ávila

                                                                       
             arte de elisabete lucido


CRISÁLIDA


onde a vida viça
a um sol ou graça
e à luz se esgarça
forma ou flor
cambiante escante
fio de ar ou asa
pânica ou impávida
entanto ávida
de ritmo e instante
ao vir a ser de ser
aula de nascer
mínimo

   
[Pinto, Manuel da costa. Antologia comentada da poesia brasileira do século 21. São Paulo: Publifolha, 2006.]

domingo, 26 de maio de 2013

paulo neves

                                 
A BORBOLETA
     
                             
Ela passeia sozinha
sem rumo e sem rumor.
Aparece, embora ela seja
no incerto modo uma essência,
pois basta uma só borboleta
para que o ar se perfume
e a gente queira adejar
com ela nas adjacências.

                         
[Neves, Paulo. Viagem, espera: 40 poemas e outros escritos. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.]

sexta-feira, 24 de maio de 2013

emily dickinson

     
XVIII
     
     
DUAS borboletas valsavam, meio-
dia, sobre um rio em bemol;
Correram depois firmamento afora,
Pousaram num raio de sol;

E então elas, juntas, seguiram viagem
Sobre um mar todo ensolarado, 
Embora não haja, em qualquer dos portos,
Relato de haverem chegado.

Se anunciadas pelo pássaro ao longe,
Se achadas em éter no mar,
Por uma fragata, algum mercador,
Notícia não veio me achar.

trad: r.m.


*

Part Two: Nature

XVIII


TWO butterflies went out at noon
And waltzed above a stream,
Then stepped straight through the firmament
And rested on a beam;
  
And then together bore away        
Upon a shining sea,—
Though never yet, in any port,
Their coming mentioned be.
  
If spoken by the distant bird,
If met in ether sea        
By frigate or by merchantman,
Report was not to me.
                                       

quarta-feira, 22 de maio de 2013

rodrigo garcia lopes


                  
BUTTERFLY
                              
            
betrayed by
a winter wind
the beautiful butterfly
slowly flo-
wing like a
flying flower

fallen over
a frozen
river

(bitter is
to fly
so far
to die:

better flying forever)


*


traída pelo
vento do inverno

a bela
borboleta

lenta- (asa
flor fluindo)
mente

caindo sobre
um rio
congelado

(amargo é
voar

tão longe
pra morrer:

melhor voar pra sempre)


          RODRIGO GARCIA LOPES
                                                           

* aquia bela canção de garcia lopes (parceria com neuza pinheiro), interpretada pelo próprio poeta.   

segunda-feira, 20 de maio de 2013

kobayashi issa

     
desenho e haiku (borboleta de jardim): kobayashi issa



   
borboleta de jardim -
o bebê engatinha, ela voa
engatinha atrás, ela voa


*

janela aberta -
a borboleta carrega meus olhos
através do campo


* a partir das traduções (japonês-inglês) de david g. lanoue.

sábado, 18 de maio de 2013

francis ponge/ trad. adalberto müller e carlos loria


                                                                                                                 
JOAN MIRÓ, a caça à borboleta (1975)


A BORBOLETA


     Quando o açúcar elaborado nos talos surge no fundo das flores, como em xícaras mal lavadas - um grande esforço se produz no solo de onde, súbito, as borboletas alçam voo.
     Porém, como cada lagarta teve a cabeça ofuscada e enegrecida, e o torso adelgaçado pela verdadeira explosão de onde as asas simétricas flamejaram,
    Desde então, a borboleta errática só pousa ao acaso do percurso, ou quase isso.    
    Fósforo voejante, sua chama não é contagiosa. E, além do mais, ela chega muito tarde e pode apenas constatar as flores desabrochadas. Não importa: comportando-se como acendedora de lâmpadas, verifica a provisão de óleo de cada uma. Pousa no cimo das flores o farrapo atrofiado que carrega, e vinga assim sua longa humilhação amorfa de lagarta ao pé dos caules.
    Minúsculo veleiro dos ares maltratado pelo vento como pétala superfetatória, vagabundeia pelo jardim.


 trad. adalberto müller e carlos loria


       
LE PAPILLON


        Lorsque le sucre élaboré dans les tiges surgit au fond des fleurs, comme des tasses mal lavées, - un grand effort se produit par terre tous les Papillons tout à coup prennent leur vol.
        Mais comme chaque chenille eut la tête aveuglée et laissée noire, et le torse amaigri par la véritable explosion d'où les ailes symétriques flambèrent,
        Dès lors le papillon erratique ne se pose plus qu'au hasard de sa course, ou tout comme.
       Allumette volante, sa flamme n'est pas contagieuse. Et d'ailleurs, il arrive trop tard et ne peut que constater les fleurs écloses. N'importe : se conduisant en lampiste, il vérifie la provision d'huile de chacune. Il pose au sommet des fleurs la guenille atrophiée qu'il emporte et venge ainsi sa longue humiliation amorphe de chenille au pied des tiges.
       Minuscule voilier des airs maltraité par le vent en pétale superfétatoire, il vagabonde au jardin.

                                                                                                   FRANCIS PONGE

quinta-feira, 16 de maio de 2013

maría elena walsh/ mercedes sosa

                      
     
    

(versãozinha super livre)


COMO UMA CIGARRA

Tantas vezes me mataram
Tantas vezes eu morri
E no entanto estou aqui
Ressuscitando
Eu dou graças à desgraça
E à mão com um punhal
Porque me matou tão mal
E segui cantando

Cantando ao sol como uma cigarra
Depois de um ano embaixo da terra
Igual ao sobrevivente
Que volta de uma guerra

Tantas vezes me apagaram
Tantas desapareci
A meu próprio enterro eu fui
Só e chorando
Fiz um longo e triste aceno
Mas depois eu me esqueci
De abandonar-me ali
E segui cantando

Cantando ao sol como uma cigarra
Depois de um ano embaixo da terra
Igual ao sobrevivente
Que volta de uma guerra

Tantas vezes te mataram
Tantas ressuscitarás
Quantas noites passarás
Desesperando
E na hora do naufrágio
Da total escuridão
Alguém te estenderá a mão 
E seguirás cantando

Cantando ao sol como uma cigarra
Depois de um ano embaixo da terra
Igual ao sobrevivente
Que volta de uma guerra

         
maría elena walsh (1930-2011)
                             

quarta-feira, 15 de maio de 2013

carlos drummond de andrade

                                           
ÁPORO

                   
Um inseto cava
cava sem alarme
perfurando a terra
sem achar escape.

Que fazer, exausto,
em país bloqueado,
enlace de noite
raiz e minério?

Eis que o labirinto
(oh razão, mistério)
presto se desata:

em verde, sozinha,
antieuclidiana,
uma orquídea forma-se.


*

trechos da análise do poema "o áporo" por davi arrigucci júnior ("coração partido", cosac naify, 2002):

Incluído num longo livro, "A Rosa do Povo", livro longo e difícil, o breve poema pode ser destacado como um ponto alto, não só pela qualidade em si, mas pelo caráter exemplar com relação ao conjunto da obra. É que contém, em máxima condensação, características básicas da lírica reflexiva e problemas centrais que o poeta enfrenta e supera com seu trabalho. Nele se vê como Drummond faz da dificuldade arte.
[...]

Tempos atrás, Décio Pignatari se deteve a estudá-lo. Ao descrevê-lo formalmente, fez uma série de observações esclarecedoras sobre aspectos parciais, mas importantes da construção do texto, deixando claro o método "indicativo" que inventou para sua leitura.
Em primeiro lugar, registra, transcrevendo verbetes de vários dicionários, desdobramentos semânticos da palavra "áporo": um problema sem saída, com solução difícil ou impossível (sinônimo de aporia); um gênero de plantas da família das orquídeas; um inseto himenóptero, da família dos cavadores (...)
Descreve, em seguida, a metamorfose do inseto em flor-poema. O percurso sonoro-semântico desse termo e de sua ação (cavar) se imprimiria, isomorficamente, na tessitura física dos signos, ao formar-se a orquídea e o poema, através de uma cadeia de aliterações verticais, completando-se o processo com a sílaba central do "inseto semiótico" em posição de libertar-se ("forma-se").
Comenta também o tratamento parodístico de miniaturização do "inseto-soneto": decassílabos tradicionais rasgados pelo meio em pentassílabos; glosa crítica de expressões pseudo-castiças ("Eis que", "Oh razão"); enlace entre ritmo e significado, a ponto de insinuar de repente, em compasso de valsa romântica, uma inflexão irônica sobre a própria forma do soneto. Sugere ainda, sem crer que com ela se possa acrescentar algo de essencial, uma abertura à interpretação, entendendo por isso alusões referenciais a certos fatos histórico-políticos da década de 40 a que fragmentos do texto poderiam se prestar (como "país bloqueado" , relacionado com o Estado Novo, ou "presto se desata", com a libertação de Luís Carlos Prestes...).
[...]

O áporo enquanto inseto nada tem a ver, certamente, com a orquídea, mas ambos, inseto e orquídea, se referem ao mesmo significante na origem, fazendo parte de uma mesma história desenvolvida no texto. Ao conectá-los, a historieta envolve de fato uma extrema dificuldade, pois deve superar a contradição que opõe os seres nela enredados, uma vez que se trata de seres completamente distintos em sua identidade de animal e flor. No entanto, o primeiro se converte no segundo, integrando a contradição: só no mito, e na metáfora poética, que é um mito em pequeno, como afirmou Vico, se abre a possibilidade de deslizamento da identidade, à maneira de "isso é aquilo", para lembrar termos de Drummond.
[...]

O significante inicial pode ter surgido de um achado casual de leitura, mas o poema, significante final, estabelece relações necessárias entre os termos que desdobram as denotações da palavra-chave numa nova estrutura, que é a do mini-soneto, no qual esses materiais aproveitados ressurgem, também eles, completamente mudados. O que permite a metamorfose interna do inseto em flor não é, obviamente, um processo da natureza, embora se faça à sua semelhança; é resultado de um esforço humano de mudança: a do trabalho do poeta com as palavras talvez achadas no dicionário.
[...]

Essa transformação dos materiais, que dá lugar à metamorfose interna do inseto em orquídea (...) decorre em parte da mobilização dos elementos linguísticos encontrados talvez ao acaso, mas depende sobretudo do trabalho do poeta e de como funcionou sua imaginação despertada pelo achado. (...) Essa mudança realmente radical consiste na "articulação" , antes inexistente, entre termos absolutamente divergentes entre si quanto à expressão e ao significado. Eles nada parecem ter em comum, a não ser seu passado de dicionário ligado ao signo "áporo" e, no entanto, vão formar, em novo contexto, um todo completo, um enredo (também chamado "mythos", na acepção aristotélica da "Poética").
Isso quer dizer que os materiais foram trabalhados numa direção que lhes deu coerência pela forma de organização: a da narrativa, e passaram a constituir a historieta do inseto cavador que se metamorfoseia, após um caminho difícil, de súbito e contra toda lógica, numa orquídea.
         

sexta-feira, 10 de maio de 2013

vinicius de moraes

       
O MOSQUITO          

               
Parece mentira
De tão esquisito:
Mas sobre o papel
O feio mosquito
Fez sombra de lira!

              Montevidéu, 1959.
                                             

quinta-feira, 9 de maio de 2013

e.e. cummings/ trad. augusto de campos

                                                  
           
                                 o-h-o-t-n-a-f-g-a
                       que
s)e  e(u  olh)o
paraoaltor
                HOTGOAFAN
                                         eunindose(n-
umEle):s
              aL
                   !t:
A                                                         c
                            (h
eGaNdO                         .gOaTfOaNh)
                                                           a
recom(tor)pon(n)d(ar-se)o
,gafanhoto;

         
tradução: augusto de campos

                                  
                         
                                 r-p-o-p-h-e-s-s-a-g-r
                        who
a)s  w(e  loo)k
upnowgath
                 PPEGORHRASS
                                                   eringin(o-
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          eA
               !p:
S                                                           a
                            (r
rIvInG                      .gRrEaPsPhOs)
                                                           to
rea(be)rran(com)gi(e)ngly
,grasshopper;
                
                                                                                    



segunda-feira, 6 de maio de 2013

epígrafe



Wolę czas owadzi od gwiezdnego.

wisława szymborska 


 *

Prefiro o tempo dos insetos ao das estrelas.

(trad. regina przybycien)