domingo, 30 de dezembro de 2012

      


Imitons la ténacité
De cet insecte qu'on méprise

(apollinaire)

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

                         
Então, durante o Inferno, nós também, do outro lado do arame farpado, nós também olhávamos para a neve e para Deus. É assim que Deus é. Uma forma infinita e surpreendente. Bela, indolente, imóvel, sem vontade de fazer nada. Como algumas mulheres com as quais, quando éramos meninos, só ousávamos sonhar.

[fala de um judeu polonês, sobrevivente do Holocausto, no filme Aqui é o meu lugar - 2011]  

domingo, 9 de dezembro de 2012

2 sonetilhos

       
               
nu fechando a porta
                                   
teu corpo nu
sob a torneira
de tanto orvalho
teu corpo nu

é todo feito
de abertos lábios
navegações
em manhã clara

traduz o sol
para o alfabeto
das coisas líquidas

o mar vai sempre
arrebentar
em tuas costas

(sol sem pálpebras, 2007)


*

soneto de cabeceira
                            
aberta na cama,
você de você,
cais, ais, minha carne
aberta na cama.

você, anjo no
puteiro de meu
peito-luminoso:
peitos de néon.

rostoventredorso.
na vala onde jaz
vertida, de borco,
sábado do corpo,
                               
aprendo que a morte
também nos esquece.

(pássaro ruim, 2009)                                                           

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

natureza-morta

      
                          (no gato preto)


teu beijo deve ter gosto
de ácido de bateria 
do licor das enzimas
e vaginas
dos dentes do silêncio
de vestido azul sobre a cama

teu beijo deve ter gosto
do horizonte bordado de barcas
de peixe que se bate no raso
e do fôlego das conchas

deve ter gosto
de margarida brotada na lua
de sangue na paleta da tarde
dos becos úmidos da cidade
da noite que aperta
                    entre as coxas

teu beijo deve ter gosto
de lábios só saliva
das flores negras das axilas
de lesma atravessando
                   o pátio

deve ter gosto
do amanhã, as raízes e hastes
de respiração boca a boca
dos corpos no escuro
de nuvens carregadas e mordaças

teu beijo deve ter gosto
das lâminas
do aceiro de âncoras
da gasolina do açúcar

do fruto nem nascido
(e de um fruto que existindo
já recende quase podre)
do gelo das gemas do fogo
dos lábios da ferida

teu beijo deve ter gosto
de língua
          

(sol sem pálpebras, 2007)