sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

4 peças para ferrugem



a)

     parafuso
    
não de rosca soberba
para chapas de metal.
    
segurou quadros? fixou
     sextavado o esqueleto da cama?
     emprenhou porcas, coadjuvou
     dobradiças e roldanas?
    
     um tendão de aço
     que não vale
     nada sobre nada
    
existirá
     sem qualquer bênção de deus
     centenas de anos

b)

skol cerveja pilsen
beijou os lábios da mulher
no verão de 85?
   
esta veio dar na praia

as axilas do tétano
cheiram a ferro de sangue.

quando o sol bate
no último cm²
brunido e intato
da folha-de-flandres

brilha mais que diamante

c)
      quem já viu
      um arpão
      oxidado
      no meio
      de uma cidade
      sem praias?

d)
        o quarto objeto
        é um poema.

        não costumam ser
        inventariados em capões
        ou ferros-velhos
        comidos de ferrugem
        os poemas.

        mas ninguém o leu
        ninguém
        sequer o escreveu
baldio
sem o que ter sido ou dito
        ninguém diz:
                              um poema!
       
        mais agora
que a lepra
do metal o faz
 – no chão vermelho
ervas rasteiras do alfabeto –   
ainda mais patético          
e ilegível

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Numa tacada


jogo no papel
tudo que tenho

um tampo de mesa sem limites
e os ruídos (inaudíveis)
da cidade

contente me calo -

esta reserva de pobreza
é uma promessa de alegria


                   ALBERTO MARTINS

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

mãos #2



mesmo que minha língua
fosse cortada pela
lâmina da lua crescente
e jogada ao chão, coberta
de formigas
como num delírio de lynch

mesmo que minha alma
fosse arrancada para
cobrir os pés de hades
ou a usasse perséfone 
como um xale

e meu coração
extraído
pelo bom-senso dos necropsistas
esquecido em frigorífico
atirado à pira
,

restariam minha mãos
imarcescíveis

restariam
ainda

para erguer teu corpo acima
das mortes
de todas as derrotas

como uma bandeira obscena

sábado, 19 de fevereiro de 2011

***

3 coisas pra se fazer no inferno

ir a uma missa rezada por blake
ler joão cabral esquadrinhar o aqueronte
tanger viola encordoada com as tripas de catão


3 coisas pra se fazer no purgatório

ouvir a última missa de bach (50 anos de duração)
dormir sob um céu noturno de van gogh
ler o livro africano de rimbaud


3 coisas pra se fazer no paraíso

caçar passarinhos com são francisco de assis
comer os pêssegos e maçãs de cézanne
assediar sem tréguas beatriz

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

kazuo ohno

            
                                     


                                        Photograph by Nourit Masson-Sekin             
                  


o antemorto dançarino de butô
é marcescente ao vento, botão de flor

o antenascido dançarino de butô
é milagre no ventre, fim de flor

é o espírito usando a carne
pra dizer o que a carne não sabe

é o espírito usando a carne
pra dizer o que na carne não cabe

o corpo que use o corpo
pra dizer o que o corpo não fala

a dança do cadáver, do fantasma
em louvor à vida, antes que a dança da vida
acabe 

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

A primeira crônica a gente nunca deleta

                                                        foto: lu cañete

       Já comecei mal. O título é péssimo. Um trocadilho desenxabido a ponto de vexame. Mas e daí? O que não mata engorda. Abalofar um texto é mais fácil que rechear um peru e muito mais fácil que emagrecer no Passeio Público. Posso afastar com uma das mãos o enxame de pequenos e pontiagudos pudores e fechar porta e janela. O leitor que percebeu a tempo a roubada, já deu o fora; deve estar aliviado. Me merece só aquele – você – que não é de largar o osso: mesmo com as pulgas que cismam, atrás da orelha, irá até o fim.
      Minha primeira crônica... Primeiras crônicas são escritas desde antes da memória do mundo. Nada de novo sob o sol, ou à frente do difusor de luz e suas extraordinárias lâmpadas de cátodo frio. No entanto, primeiras crônicas são escritas sem que isso precise ser anunciado nas primeiras crônicas.
      Eis meu grande trunfo: escrever já de cara uma crônica sobre a total falta de assunto. Temas vacuifeitos fazem charme irresistível nos dígitos de todo cronista que se preze e menospreze. Mas o sujeito tem que ter cancha, honra ao mérito pela câmara dos vereadores, pequena sesmaria num jornal do interior, no mínimo. Ou, por meu turno, voluntarismo e vigarice.
       É pelo menos arbitrário dedicar a primeira crônica à incapacidade de escrever uma crônica. Como um aborto que dê à luz? Como matar um morto? Como preencher um furo com um buraco? Vai daí, leitor, a você o vislumbre de minha boa saúde crônica.     
      Preciso agora cozinhar o galo, ganhar tempo. Porque o tempo – a lenta ferrugem do tempo – é a maior inquietação da falta de assunto. Pensei em falar um pouco nas crônicas bíblicas, um dos trinta e nove livros do Antigo Testamento cristão. Fazer a lição de casa, pinçar algo misterioso, capaz de dar cem metros de profundidade a esta poça. Algo como: “Porque, tendo cinquenta e seis anos, (Tobias) perdeu a vista dos seus olhos e recobrou-a aos sessenta”. Não cabe. Seria uma traição ao vácuo. Seria uma guinada pseudoteológica que não só daria um sentido, como um sentido sobrenatural. A ausência temática não tem nada de sobrenatural. Tem todas as doenças da carne e do tempo, a fraqueza do doce e franqueza do podre que convoquem pequenas moscas e formigas infinitas para a última ceia.
      Talvez uma referência às Crônicas de Bob Dylan, a uma ou outra peça de Beckett, quem sabe àquela vertiginosa falta de assunto em A Day in the Life: vinte e quatro compassos vazios preenchidos por uma orquestra doente dos nervos; João que vê um filme, lê o jornal, oh boy... Paulo que entra no ônibus e acende um cigarro.
      Mas pra que tanto? A mediocridade é uma zona de conforto e os dois parágrafos ganhos distraíram-nos durante uma horinha morta no fastio do texto. Uma crônica que, sem ter almoçado nem saído pra trabalhar, passará rigorosamente o dia todo fazendo a sesta.       
      Com sua fidelidade vira-lata, o leitor, há um minuto, minuto e tanto, me acompanha. Só pode haver nele algo de franciscano, de lírico e andorinha capaz de beber água no fossado; ou melhor, de vira-lata mesmo, aquela fundíssima camaradagem incondicional, de quem nos quer e ama e segue entre o primeiro farol da Visconde de Nácar e a esquina com a Emiliano Perneta – e depois vai embora. Este leitor vira-lata que me olha fundo, mais fundo do que um irmão, como no belo poema de Alberto Martins. É graças a ele – ninguém: falta de assunto em pessoa? – que chego aonde chego, medindo com o olhar o terreno que me falta do nada a parte alguma.   
      Abalofei meu peru pra comê-lo aqui mesmo. Eu sei que a esta altura devo estar sozinho. As possibilidades de uma tarde gastas num shorts da seleção e chinelos de dedo, pretensiosamente. Mas tá valendo. Já é melhor que minha primeira missa no Ministério do Amor. De longe melhor que meu primeiro poema, coitado, lá se vão 17 anos, passarinho prematuro com cinco ossinhos quebrados pelo corpo. Aquele poema péssimo em que jogo até hoje a minha vida. Aquele poema que de alguma maneira me trouxe exatamente até aqui.            

* Rodrigo Madeira é crônico. Colabora quinzenalmente, às terças-feiras, em seu próprio blog. 

cinecittà


                p. terence keller

asa nisi masa
asa nisi masa...



(apenas o que basta
para que
              no gesto automático e desatento
sejamos assim meio carlito
ou para subirmos nas árvores
loucos de tanto tempo
                                   clamando: quero uma mulher!

as maravilhosas mocreias de fellini, ah!
sobretudo as mocreias: saraghina

no peito do bon-vivant uma crise
nos peitos da dona da tabacaria
no destino da prostituta
                                    a desilusão
e nos olhos do falsário
                                    um remorso

em vinhedos e ciprestes da rimini
insular quase, onde o tempo quebrou
e o adulto traja calças curtas
a infância
                é feita de bronze e pátinas
     e padres e comunistas e devotos e foliões

              e continua, continua
porque a infância
              eu a invento enquanto lembro

tudo é a mesma, vária qual a vida
tapeçaria de sangue
                                 e celuloide
nos casamentos e fugas e traições e suicídios
no intelectual pendurado como mussolini e roda
roda a ciranda da vida
nos haréns, procissões, carros e estrelas de cinema
e na fontana di trevi e na lua azul
                                 como um cavalo preto ao luar

roda roda a ciranda da vida
no espancamento e na loucura, nas fatuidades
e no directore  da orquestra
e nos parlapatões histéricos
                            como macacos com navalhas
em agradecimento
pois que começa ou finda o espetáculo

vejam o que dizem: é bom estar vivo!
                               é bom estar vivo!

todo eu sorrio, vesúvio, vindima
velo o corpo de passarinho
                              de cabíria ou gelsomina – a cabeça de alcachofra
e se choro ao ver zampanò, espantalho de hércules, chorar
durmo após nas areias, bêbado, ao espraiar que acarinha
e quebra os cabelos

gira gira num moto-contínuo de cimento e sonho
                               a ciranda
e o morto ressuscita
                               num jogo de cena

de manhã, sempre haverá
um trem que parte, uma nave que vai
rumo às cidades, rumo a qualquer parte

ruma
a vida reinventada)

os filmes de federico
são apenas filmes

e assim mesmo
sabem ver
por minhas retinas
        
    a lona

 – precária invisível –

entre todo céu
e cada homem  

   
* poema do livro "sol sem pálprebras" (revisado)

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

exercícios banais 1


já conheci
crianças armadas e bêbadas ensandecidas 
policiais às três da madrugada em lugares ermos
já senti na pele metralhadora, faca, estilete
e já voei aviões que cairiam
tive praga na fazenda, doença grave, morte na família
enfrentei crises, desemprego, acidentes, filas
já olhei nos olhos de meus assassinos... 

mas nada, nada é mais aterrador que a normopata
num guichê do DETRAN.