sábado, 20 de dezembro de 2014

o inseto

                                       
                              PA-
                        LARVA
        
                           ferreira gullar


o soneto 
fechou-se à 
verborreia,
fez careta

ao discurso.
tem agora
o hemistíquio
dos insetos

dissecados.
e entreabriu-se
aos desvãos,

por mais mínimos,
como quem 
se abre ao mar.


2

o inseto de
palarva e tinta,
multiplicado
por suas asas,

despega da
margem esquerda.
magro e comprido,
no afã de ser

fero e revivo,
deixará a página
(conta se morre

pouco depois?)
pelas paredes
sem transcendência.


3

antes de pousar
de uma vez por todas,
o sonetinseto
revela-se inteiro

à sanha suctória
nas dermes da vida:
imos, méis e conas.
morto, vai feder

quase impercebido:
mínimos abismos.
seu registro no 

papel será como
a abelha esmagada
correndo no vidro.


4

ou a fibrólise:
carne do susto,
e não do sono,
mil florações.

duma crisálida
renascerá:
sangue de tinta,
asas-sulfite,

a carnadura 
de gosma e de âmbar.
para queimar

no ar e nas veias,
como um veneno,
como o verão.

          
(pássaro ruim, 2009) 

sábado, 12 de julho de 2014

robert musil

                            


O PAPEL MATA-MOSCAS

                
O papel mata-moscas Tangle-foot tem mais ou menos trinta e seis centímetros de comprimento e vinte e um centímetros de largura; é coberto por uma cola amarela e tóxica e vem do Canadá. Quando uma mosca pousa sobre ele – sem demonstrar qualquer avidez especial, mas seguindo uma convenção, afinal de contas já há tantas outras ali –, fica colada primeiramente apenas pelas extremidades dobradas de todas as suas perninhas. Uma sensação bem suave e estranha, como quando andamos no escuro e pisamos descalços sobre alguma coisa que ainda não é nada a não ser algo que oferece uma resistência mole, morna, confusa, para dentro do que a humanidade já vai jorrando terrivelmente aos poucos, o reconhecimento de uma mão que de algum modo ali jaz e nos segura com cinco dedos cada vez mais nítidos em seus propósitos.

Então todas as moscas fazem força e se levantam, eretas, semelhantes a tábidos que não querem ser notados, ou como militares velhos e alquebrados (e de pernas ligeiramente arqueadas, como quando se está sobre um monte inclinado). Elas se endireitam, reunindo força e concentração. Depois de poucos segundos, estão decididas e começam a fazer o que podem, zumbir e tentar se erguer. Executam essa ação furiosa por tanto tempo até que a exaustão as obriga a parar. Segue-se uma pausa para respirar e uma nova tentativa. Mas os intervalos se tornam cada vez mais longos. Elas estão paradas ali e eu sinto como estão desnorteadas. De baixo sobem vapores desconcertantes. Como pequenos martelos, suas línguas tateiam fora da boca. Suas cabeças são marrons e peludas como se fossem feitas de casca de coco; como ídolos negros antropomórficos. Elas se curvam para frente e para trás sobre suas perninhas enlaçadas e presas, se dobram sobre os joelhos e avançam se erguendo, como fazem seres humanos que tentam movimentar de qualquer jeito uma carga pesada demais; mais trágicas do que trabalhadores, mais verdadeiras na expressão atlética do esforço extremo do que Laocoonte. E então chega o estranho e recorrente instante em que a necessidade do segundo que passa triunfa sobre toda a poderosa constância da existência.

É o instante em que por causa da dor um alpinista abre voluntariamente a mão cujos dedos ainda se agarravam, em que um homem perdido na neve se deita no chão como uma criança, em que um homem perseguido com os flancos em brasa para de correr. Elas já não têm mais forças para manter-se em pé, elas afundam um pouco e nesse instante são totalmente humanas. De imediato são agarradas por uma nova parte, mais acima na perna ou na parte traseira do corpo ou na extremidade de uma asa.

Quando elas superaram a exaustação anímica e depois de um breve instante voltam a lutar por sua vida, já estão fixadas numa posição desfavorável, e seus movimentos se tornam pouco naturais. Então elas jazem com as pernas dianteiras esticadas, apoiadas sobre os cotovelos, e tentam se levantar. Ou estão sentadas no chão, empinadas, de braços erguidos, como mulheres que tentam em vão escapar aos punhos de um homem. Ou jazem sobre a barriga, com a cabeça e os braços estendidos à frente, como se houvessem desabado em meio à corrida, e continuam erguendo apenas o rosto. Mas o inimigo sempre e desde o princípio é passivo e vence apenas devido aos instantes de desespero e confusão. Um nada, um isso as puxa para baixo. Tão devagar, que mal se consegue acompanhar o que acontece, e na maior parte das vezes com uma aceleração brusca ao final, quando o último colapso interno as abate. Então elas se deixam cair de repente, para a frente, de rosto, sobre as pernas; ou de lado, todas as pernas esticadas para longe do corpo; muitas vezes também de lado, com as pernas remando para trás. Assim elas jazem. Como aeroplanos caídos, que apontam uma das asas para o ar. Ou como cavalos mortos miseravelmente. Ou com infinitos gestos de desespero. Ou como adormecidos. Ainda no dia seguinte uma delas às vezes desperta, tateia por um momento com uma das pernas ou zumbe com a asa. Às vezes um desses movimentos perpassa o campo inteiro, então todas afundam ainda um pouco mais em sua morte. E só do lado do corpo, na região em que estão fixadas as pernas, elas têm algum órgão diminuto e cintilante que ainda vive por bastante tempo. Ele se abre e se fecha, não se pode caracterizá-lo sem lente de aumento, ele se parece com um minúsculo olho humano, que se abre e se fecha sem cessar.


ROBERT MUSIL (1880-1942)
trad. MARCELO BACKES

quarta-feira, 4 de junho de 2014

souvenirs

          
*

até quando encontrar
seus fios de cabelo
no meio dos meus livros?


*

agora
imagine
uma
caixa
torácica
de
bom
tamanho
acústica
saudável
onde
pulsasse

bem-
acondicionado

do
lado
esquerdo
do
peito

um
baço. 

             
*
                      
outro dia mesmo, vadiando as gavetas,
topei com uma de suas costelas.

o que um dia foi pra mim
lua crescente, pente,
bumerangue de marfim

(e – ainda – quantas vezes
arco para violinos genoveses?),

hoje é apenas um souvenir
de timbuktu.

                           
*

talvez depois sorrissem, se um deles
perguntasse, patético, aturdido,
na noite exumada:

o único osso
que restou de nosso
amor decomposto

é a lua,
essa mesma lua 
linda lá no alto?

                     
*
                                
(não que fosse aquela nudez
o primeiro alumbramento.)

você lembra?

ali parados, o coração batendo,
surrados
por uma corja de borboletas.

            
*
       
não é o tempo, necessariamente.
não é da alçada dos relógios.
o vento
                                 
é que comove as árvores, despenteia
o móbile das lembranças.
                                                                                      

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Baudelairianinha (das flores do mal-
me-quer, bem-me-quer)

                                 
Errando só dentro da noite
tão quente, tão úmida e escura,
noite sem astros, lastros, lua,
como o negro tosão do púbis
na moça de tão fresca idade,
eu fodo longe, ainda e nunca
a buceta desta saudade.
                                                     

nu sobre uma almofada azul (1917), amedeo modigliani


terça-feira, 20 de maio de 2014

mestre bandeira

       
arte de arcângelo ianelli
         
                               
o mais belo poema sobre a menstruação (a real, não a metafórica, não o "mênstruo incruento das madrugadas", como escreveu o próprio bandeira noutra parte). sutil. tudo bem oculto. aquela mulher logo ali: vestida, nua sob as roupas, que bem pode estar sangrando pelas ruas...  
        
                       
ÁGUA-FORTE
        
O preto no branco,
O pente na pele:
Pássaro espalmado
No céu quase branco.
                   
Em meio do pente,
A concha bivalve
Num mar de escarlata.
Concha, rosa ou tâmara?
                              
No escuro recesso,
As fontes da vida
A sangrar inúteis
Por duas feridas.
                                  
Tudo bem oculto
Sob as aparências
Da água-forte simples:
De face, de flanco,
O preto no branco.
                               
                                                                                              
            MANUEL BANDEIRA

quinta-feira, 15 de maio de 2014

mestre gregório

     
A umas freiras que mandaram perguntar por ociosidade ao poeta a definição do Priapo e ele lhes mandou definido, e explicado nestas

   
DÉCIMAS
        

1
      Ei-lo vai desenfreado,
      que quebrou na briga o freio,
      todo vai de sangue cheio,
      todo vai ensanguentado:
      meteu-se na briga armado,
      como quem nada receia,
      foi dar um golpe na veia,
      deu outro também em si,
      bem merece estar assi,
      quem se mete em casa alheia.
                                                     
2
      Inda que pareça nova,
      Senhora, a comparação,
      é semelhante ao furão,
      que entra sem temer a cova,
      quer faça calma, quer chova,
      nunca receia as estradas,
      mas antes se estão tapadas,
      para as poder penetrar,
      começa de pelejar
      como porco às focinhadas.
                                       
3
      Este lampreão com talo,
      que tudo come sem nojo,
      tem pesos como relojo,
      também serve de badalo:
      tem freio como cavalo,
      e como frade capelo,
      é engraçado vê-lo
      ora curto, ora comprido,
      anda de peles vestido,
      curtidas já sem cabelo.

4                                              
      Quem seu preço não entende
      não dará por ele nada,
      é como cobra enroscada
      que em aquecendo se estende:
      é círio, quando se acende,
      é relógio, que não mente,
      é pepino de semente,
      tem cano como funil,
      é pau para tamboril,
      bate os couros lindamente.

(...)

7
      Tanto tem de mais valia
      quanto tem de peso, e relho,
      é semelhante ao coelho,
      que somente em cova cria:
      quer de noite, quer de dia,
      se tem pasto, sempre come,
      o comer lhe acende a fome,
      mas às vezes de cansado,
      de prazer inteiriçado,
      dentro em si se esconde, e some.

(...)

9
      Tem uma contínua fome,
      e sempre para comer
      está pronto, e é de crer
      que em qualquer das horas come:
      traz por geração seu nome,
      que por fim hei de explicar,
      e também posso afirmar
      que, sendo tão esfaimado,
      dá leite como um danado,
      a quem o quer ordenhar.

10
      É da condição de ouriço,
      que quando lhe tocam, se arma,
      ergue-se em tocando alarma,
      como cavalo castiço:
      é mais longo, que roliço,
      de condição mui travessa,
      direi, porque não me esqueça,
      que é criado nas cavernas,
      e que somente entre as pernas
      gosta de ter a cabeça.

(...)

12
      É pincel, que cem mil vezes
      mais que os outros pincéis val,
      porque dura sempre a cal
      com que caia, nove meses
      este faz haver Meneses,
      Almadas, e Vasconcelos,
      Rochas, Farias, e Teles,
      Coelhos, Britos, Madeiras*,
      Sousas, e Castros, e Meiras,
      Lancastros, Coutinhos, Melos.

13
      Este, Senhora. a quem sigo,
      de tão raras condições,
      é caralho de culhões,
      das mulheres muito amigos:
      se tomais na mão, vos digo
      que haveis de achá-lo sisudo;
      mas sorumbático, e mudo,
      sem que vos diga o que quer,
      vos haveis de oferecer
      o seu serviço, contudo.
               

                      GREGÓRIO DE MATOS
                   
                                         
* fiz questão de meter aí os meus, é claro, em lugar dos Pereiras. 

sexta-feira, 9 de maio de 2014

lapsus linguae #2

     
                        

así como cristo multiplicó los penes (...), hay que multiplicar el arte.
                 

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Um cântico

                                                               

                                                                                                    
                        in questo cazzo... in questo caso, la provvidenza di Dio
                        si rende visibile in questo gesto de solidarietà.

                                                   Papa Francisco (num belo lapsus linguae)

                                                 
Se tudo é medo
Se tudo é tredo
Se ao desenredo
A fé se esvai,
Segura a minha vara e vai
                                    
Se a fossa ferve
Se acaba a verve
Se queima o azerve
Se nada serve
E tudo trai,
Segura a minha vara e vai
                  
Se tudo passa
Ou esvoaça
Se tudo embaça  
Se o tempo jaça
Se a morte caça
E a noite cai,
Segura a minha vara e vai
                                                              

terça-feira, 29 de abril de 2014

Écloga ligeira (ou: aurea hypocritas)

                           
nicolas poussin, os pastores de arcádia (1637-38)

               
EDIR

Que fazes aqui, capeta,
tão mudo de pregações,
num prado de tentações
abordando esta ninfeta?

Eu te flagro, coisa ruim,
pastoreando seus pecados
com seu bordão tridentado
entre as anjas de escarpim.


VALDEMIRO

E tu, encosto nefando,
que fazes então aqui?
Fui quem primeiro te vi,
olhos saltados, babando.

Foste flagrado, seu cão,
entre os montes concretados
e os rebanhos desgarrados,
sem tua bíblia na mão.


EDIR

Eu-eu vim por Madalena,
Em-em nome de Jesus,
vim como quem verga à cruz
trazer luz a uma falena.
     
(dirigindo-se à ninfeta)
        
O reino do Senhor tem,
maior que as delícias vãs,
amor infinito. Irmã,
aceite Jesus! Amém?


VALDEMIRO

E eu-eu lá sou publicano,
Eu-eu lá sou embusteiro?!
Que me custam uns dinheiros
pra arrancá-la ao desengano?

(dirigindo-se à ninfeta)

Meu amor vai mais além.
E Deus dá mais do que as putas!
Sai, encosto! Encosto, escuta:
ela é minha, é nossa! Amém? 


EDIR

Isso é uma prosperidade,
uma baita obra de Deus,
convencer quaisquer ateus
aos cajados da Verdade.

Filho pródigo, ó pastor,
vamos con-ver-tê-la juntos!
Ao inferno outros assuntos,
se infinito é o nosso amor!


VALDEMIRO

Deus é pai e Deus é pau
– Universal ou Mundial –
para toda e qualquer obra.
Se o pecado a Deus se dobra,
ao inferno outros assuntos:
vamos convertê-la juntos!

                  
A NINFETA, MADALENA, FALENA, PRIMA & IRMÃ

Amém, amém, meus irmãos,
mas não tenho a noite inteira!
Pra que tanta embromação,
tanta conversa fuleira?!

Eu não quero nem saber
quem é santo e quem é ogro.
Se juntos vão converter,
Eu cobro de cada o dobro! 
                                             

sexta-feira, 25 de abril de 2014

e. e. cummings/ trad. adalberto müller

                                                     
aabaixo aah belíssima tradução de adalberto müller para 
um(hum) dos mais saborosos poemas de e. e. cum(mm)ings

:

11

posso pegar ele disse
(vou gritar ela disse
desse lado ele disse)
engraçado ela disse

(posso tocar ele disse
onde vai dar ela disse
bem perto ele disse)
tá certo ela disse

(vai dar jogo ele disse
não tão longe ela disse
onde é longe ele disse
onde há fogo ela disse)

posso ficar ele disse
(que lugar ela disse
desse jeito ele disse
nada feito ela disse

posso pôr ele disse
é amor ela disse)
você quer ele disse
(vai doer ela disse

com cuidado ele disse
é casado ela disse
assim ele disse)
siim ela disse

(é demais ele disse
maais ela disse
aah ele disse)
devagar ela disse

(jáa?ele disse
aah ela disse)
valeu!ele disse
(é Meu ela disse) 


trad. adalberto müller

*

11

may i feel said he
(i'll squeal said she
just once said he)
it's fun said she

(may i touch said he
how much said she
a lot said he)
why not said she

(let's go said he
not too far said she
what's too far said he
where you are said she)

may i stay said he
(which way said she
like this said he
if you kiss said she

may i move said he
is it love said she)
if you're willing said he
(but you're killing said she

but it's life said he
but your wife said she
now said he)
ow said she

(tiptop said he
don't stop said she
oh no said he)
go slow said she

(cccome?said he
ummm said she)
you're divine!said he
(you are Mine said she) 
                   

terça-feira, 22 de abril de 2014

anne sexton

                                                                                 
QUANDO O HOMEM ENTRA NA MULHER
                 
                           
Quando o homem
entra na mulher,
como a onda mordendo a orla,
de novo e de novo,
e a mulher de prazer abre a boca
e seus dentes brilham
como o alfabeto,
Logos irrompe ordenhando uma estrela
e o homem
dentro da mulher
dá um nó,
para que nunca mais
se separem,
e a mulher escala uma flor
engolindo-lhe a haste
e Logos irrompe
e desata seus rios.

Este homem,
esta mulher,
com sua dupla fome,
tentaram ir além
das cortinas de Deus,
e brevemente conseguiram,
mesmo que Deus
em Sua perversidade
desfaça o nó. 
                   
trad. r.m.

*

WHEN MAN ENTERS WOMAN

When man
enters woman,
like the surf biting the shore,
again and again,
and the woman opens her mouth in pleasure
and her teeth gleam
like the alphabet,
Logos appears milking a star,
and the man
inside of woman
ties a knot
so that they will
never again be separate
and the woman
climbs into a flower
and swallows its stem
and Logos appears
and unleashed their rivers.
                      
This man,
this woman
with their double hunger,
have tried to reach through
the curtain of God
and briefly they have,
though God
in His perversity
unties the knot.
                        

sexta-feira, 18 de abril de 2014

sexta-feira santa/ jorge luis borges

                                                   
CRISTO NA CRUZ
                    
                                                     
Cristo na cruz. Os pés tocam a terra.
Os três madeiros são de igual altura.
Cristo não está no meio. É o terceiro.
A negra barba pende sobre o peito.
O rosto não é o rosto das imagens.
É áspero e judeu. Eu não o vejo
e o seguirei buscando até o dia
de meus últimos passos pela terra.
Esse homem alquebrado sofre e cala.
A coroa de espinhos o excrucia.
Não o alcança a zombaria da plebe
que viu sua agonia tantas vezes.
A sua ou a de outro. Dá no mesmo.
Cristo na cruz. Desordenadamente
pensa no reino que talvez o espere,
pensa numa mulher que não foi sua.
Não lhe é dado enxergar a teologia,
a indecifrável Trindade, os gnósticos,
as catedrais, a navalha de Occam,
as púrpuras, as mitras, a liturgia,
a conversão de Guthrum pela espada,
a inquisição, bem como o sangue mártir,
as atrozes Cruzadas, Joana D’Arc,
o Vaticano que bendiz exércitos.
Sabe que não é um deus, que é um homem
que morre com o dia. Não lhe importa.          
Lhe importa o duro ferro de seus cravos.
Não é romano. Não é grego. Geme.
E nos deixou esplêndidas metáforas
e uma doutrina do perdão que pode
anular o passado. (Essa sentença
escreveu-a um irlandês em um cárcere.)
Sua alma busca o fim, apressada.
Escureceu um pouco. Já está morto.
Anda uma mosca pela carne quieta.
De que pode servir-me que aquele homem
tenha então sofrido, se eu sofro agora?
                                                                                     
trad. r.m.
                        

segunda-feira, 14 de abril de 2014

                                                                 
sexy skeletons (calendário de uma empresa de raio-x)  
                    
  
Sexo é vida!

                                 boston medical group 


O homem começa a morrer na sua primeira experiência sexual.

                         nelson rodrigues
                             

quinta-feira, 10 de abril de 2014

questo è pietro aretino, poeta tosco

                        
arte de wenceslaus hollar (1647)          

















                                                   
Aretino imundo, secretário do mundo
  
                                       (Veneza/Curitiba, 1553/2012)



I - DUBBIO CLXIX (putatis putandis)


De percorrer, em dez dias,
terreno que equivalia
(ou trezentos e trinta e oito
pés – de pele, pelos, coitos)
a um campo de futebol,
lambidelas ou mamadas,
bem capaz, despudorada,
tua língua um caracol?



II - RISOLUZIONE CLXX


Tem um coração astuto
palpitando na cueca
– não me entendas mal, sou puto –
sentimental que se preza;
não me entendas mal, sou puto;
putaria é, pois, a dois,
sozinho, em três ou em muitos,
antes, durante, depois,
o único e exclusivo assunto

que interessa, uma conversa
de caralho para cona,
cuzinho de mocetona,
um travessão que atravessa.
pr´o papo reto de um pau,
abre, verbi gratia, a bunda;
se esta “frieza” não flerta,
se sou superficial,
– vais me explodir minha verga –
sei que és quentinha e profunda.
                                                             

quinta-feira, 3 de abril de 2014

                                                                             
Gosto de sentir a minha língua
roçar a língua de Luís de Camões.

caetano veloso

segunda-feira, 24 de março de 2014

marcelino freire

           
                                  
animação: rodrigo burdman
narração: paulo césar pereio


sábado, 22 de março de 2014

clássico!

                                                                                                              
 
um pistoleiro chamado papaco (1986)
direção: mário vaz filho
papaco: fernando benini
                                                         

quarta-feira, 19 de março de 2014

Cacófatos ao telefone

                                                                
roy lichtenstein, ohhh...alright... (1964)






 
 
 
 
                              
Em versos que Safo deu
(essa sábia, ó, essa fada!),
ao ouvido apela a Dona
à mocinha a picar alhos:
“Ah, Virgínia, ó alma minha,
esquece aromal comida
ou quem diz ‘não dês, Virgínia!’

"És moça que se disputa,
mas, se em face disso, lutas
pois te pesa a culpa então,
ou se digo e bole nada
– amor discando, enganada –,
eu desligo e vou-me já,
que amor outras me já dão!”
                                                            

terça-feira, 18 de março de 2014

                                                                                   
roland topor, siesta (1975)
                                    

terça-feira, 4 de março de 2014

blocos

                                                                                  

            

alguns belos nomes de blocos pelos carnavais do brasil:


- É mole, mas é meu  (Rio de Janeiro)

- Chupa, mas não morde! (São Luís do Maranhão)

- Já comi pior, pagando (Rio)

- Vai, vomita e volta! (Rio)

- Me atirei no pau do gato (bloco GLS de Olinda)

- Bloco da rola cansada (bloco da melhor idade do Guarujá)

- Aí dentro, excelência! (Fortaleza)                

- Nem Freud nem sai de cima (Rio)

- Cumêro mãe! (Olinda)

- Filhos de Glande (Belém do Pará)

- Espada preguiçosa (Salvador)

- Já que tá dentro, deixa! (São Luís do Maranhão)

- Virgens do formigueiro quente (Belo Horizonte)

- Encosta que ele cresce! (Rio)

- Se não quiser me dar, me empresta (Rio)

            
* nomes levantados por josé (macaco) simão em suas colunas pré-carnaval (folha de s. paulo).

*                        
                         
carnaval, o vau
da carne
                                     

sábado, 1 de março de 2014

james joyce

                                                                                                                         


Para NORA

(Dublin, 8 de dezembro de 1909)

Nora, minha doce putinha, fiz como você mandou, sua menininha sacana, e bati uma bronha duas vezes quando li sua carta. É delicioso ver que você realmente curte ser fodida pelo rabo. Sim, agora posso lembrar aquela noite em que a fodi por trás por um tempão. Foi a metida mais sacana que eu já lhe dei, meu bem. Minha pica ficou atolada em você por várias horas, pondo e tirando de sua garupa empinada. Senti suas nádegas gordas e suadas sob minha barriga e vi seu rosto em brasa e seu olhar endoidecido. A cada metida que dava, sua língua sem-vergonha irrompia por entre os lábios, e, se eu desse uma estocada maior e mais forte que a de costume, peidos gordos e porcos espocavam de seu traseiro. Você tinha um rabo cheio de peidos aquela noite, e eu, fodendo, os expulsava de você, grandes camaradas gordos, longos e sussurrantes, pequenos estalidos ligeiros e felizes e muitos peidinhos, pequenos peidinhos sacaninhas que terminaram num longo jorro de seu cu. É maravilhoso meter numa mulher peidona quando cada metida arranca dela mais um peido: acho que eu reconheceria o peido de Nora em qualquer lugar. Acho que poderia identificá-lo numa sala cheia de mulheres que peidam. É um barulho um tanto feminino, nada parecido com o vento úmido que, imagino, as esposas gordalhufas soltam. É súbito e seco e sacana como o que uma audaciosa menina soltaria, divertindo-se, no dormitório de uma escola à noite. Espero que Nora dispare peidos sem fim na minha cara, para que eu os conheça também pelo cheiro.        

(...)

trad. r.m.
                                                                                                                                                                                                                                 
*

To NORA

(Dublin, 8 December 1909)

My sweet little whorish Nora I did as you told me, you dirty little girl, and pulled myself off twice when I read your letter. I am delighted to see that you do like being fucked arseways. Yes, now I can remember that night when I fucked you for so long backwards. It was the dirtiest fucking I ever gave you, darling. My prick was stuck in you for hours, fucking in and out under your upturned rump. I felt your fat sweaty buttocks under my belly and saw your flushed face and mad eyes. At every fuck I gave you your shameless tongue came bursting out through your lips and if I gave you a bigger stronger fuck than usual, fat dirty farts came spluttering out of your backside. You had an arse full of farts that night, darling, and I fucked them out of you, big fat fellows, long windy ones, quick little merry cracks and a lot of tiny little naughty farties ending in a long gush from your hole. It is wonderful to fuck a farting woman when every fuck drives one out of her. I think I would know Nora's fart anywhere. I think I could pick hers out in a roomful of farting women. It is a rather girlish noise not like the wet windy fart which I imagine fat wives have. It is sudden and dry and dirty like what a bold girl would let off in fun in a school dormitory at night. I hope Nora will let off no end of her farts in my face so that I may know their smell also.

(...)