domingo, 30 de dezembro de 2012

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

                         
Então, durante o Inferno, nós também, do outro lado do arame farpado, nós também olhávamos para a neve e para Deus. É assim que Deus é. Uma forma infinita e surpreendente. Bela, indolente, imóvel, sem vontade de fazer nada. Como algumas mulheres com as quais, quando éramos meninos, só ousávamos sonhar.

[fala de um judeu polonês, sobrevivente do Holocausto, no filme Aqui é o meu lugar - 2011]  

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

As rosas

   
se abrirem as pernas-primas, primas,
será primavera.
será primavera, primas,
se abrirem as pernas.

na roça do corpo a rosa, que rosa
na roça rosa do corpo que roça
róscida rosa, silêncio e cio
na roça rosa do corpo que rosna
rosas rosa roças: rocio

rosas mucosas ventosas amorosas rosas
ó rosas leitosas no leito de abril...

e se seca a roça e tudo é escarpa
onde o duro cerne
do amor já não serve macio,
onde os seixos-sexos rolam e cedem
entre pedras, perdas e pernas
por paisagens violáceas,
outra rosa, outras rosas ainda
nascem,

se abrirem as pernas, primas, aos pares,
se abrirem as pernas aos párias,
se abrirem as pernas...

e mesmo que chegue o inverno
e tudo em torno transido em inverno
se feche em fracassos, promessas, espera
e mesmo que o inverno emende com outro
que emende com outros invernos,

se abrirem as pernas, primas,
será primavera.
será primavera, primas,
se abrirem as pernas.
                                                                           

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

I - Soneto a uma mulher desiludida

                              
EDWARD HOPPER, summer interior (1909)  


   









                                                               
Se o amor bater, bater a tua porta,
abre, abre gentilmente tuas pernas.
Quem ama assim, na cama, jamais erra,
e estás desiludida mas não morta.

Se bate quem é feio, pouco importa;
recebe qual recebe uma cadela,
declara-te no rabo, dando trela,
ao dono que da lida exausto volta.

Se o amor acaba mas a vida segue,
aos homens, tão tarados, não te negues,
àqueles que inda chovem na tua horta.

Dá, dá, dá mais do que chuchu na serra:
quem ama assim, sacana, jamais erra;
aos homens que te chegam, abre a porta.


* primeiro de 6 sonetos da seção O xifópago aconselha 
(do livro de poemas putanheiros Xifópago e libertinas - inédito). 

domingo, 9 de dezembro de 2012

2 sonetilhos

       
               
nu fechando a porta
                                   
teu corpo nu
sob a torneira
de tanto orvalho
teu corpo nu

é todo feito
de abertos lábios
navegações
em manhã clara

traduz o sol
para o alfabeto
das coisas líquidas

o mar vai sempre
arrebentar
em tuas costas

(sol sem pálpebras, 2007)


*

soneto de cabeceira
                            
aberta na cama,
você de você,
cais, ais, minha carne
aberta na cama.

você, anjo no
puteiro de meu
peito-luminoso:
peitos de néon.

rostoventredorso.
na vala onde jaz
vertida, de borco,
sábado do corpo,
                               
aprendo que a morte
também nos esquece.

(pássaro ruim, 2009)                                                           

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Cavala agalopada

                                              
                    E Ô,os pés turvos dos
                    Desejos de crina branca!                                               
                                                  
                                e.e. cummings (trad. mauricio cardozo)


Se eu seguir pelos pampas delicados,
na garupa, na nuca e nas virilhas;
e seguires nitrindo, os dois pelados
galopando sensíveis e sem cilha;
se empinares, cavala sob a lua,
ou saltares se chego-me a culina;
e se, quase indomável, tu recuas,
quase mansa, agarrada pela crina;
e o cavalo sou eu, ah! cavaleira,
se me montas, quilômetros de espasmos,
 galopamo-nos juntos, longe, ao léu,
à distância a que leve-nos o orgasmo:
novamente a cidade costumeira,
novamente este quarto de motel. 
                                

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

natureza-morta

      
                          (no gato preto)


teu beijo deve ter gosto
de ácido de bateria 
do licor das enzimas
e vaginas
dos dentes do silêncio
de vestido azul sobre a cama

teu beijo deve ter gosto
do horizonte bordado de barcas
de peixe que se bate no raso
e do fôlego das conchas

deve ter gosto
de margarida brotada na lua
de sangue na paleta da tarde
dos becos úmidos da cidade
da noite que aperta
                    entre as coxas

teu beijo deve ter gosto
de lábios só saliva
das flores negras das axilas
de lesma atravessando
                   o pátio

deve ter gosto
do amanhã, as raízes e hastes
de respiração boca a boca
dos corpos no escuro
de nuvens carregadas e mordaças

teu beijo deve ter gosto
das lâminas
do aceiro de âncoras
da gasolina do açúcar

do fruto nem nascido
(e de um fruto que existindo
já recende quase podre)
do gelo das gemas do fogo
dos lábios da ferida

teu beijo deve ter gosto
de língua
          

(sol sem pálpebras, 2007)

domingo, 2 de dezembro de 2012

amantes

                                               
EGON SCHIELE, os amantes (1911)


         













                                   
                                       
ama-a com ternura                  

e brutal
crápula
vampiro
com enfurecida ternura
a estupra
              o que lhe for
              passado futuro.

os teus dedos
 os cinco, os dez: o
décimo primeiro 
são a chave que abre
o corpo dela
 os cinco, os dez 

que vara a carne
da velha

pedófilo brinca
em seu sexo.


2

ou
como búfalos, pelos
vaus da carne

e eternos.


3

somente agora

a fêmea

indivisivelmente
agora

(material, em ponto de
bala, de dar
ossos ao perfume)

o espaço
entre seus seios

cospe pássaros


4

inevitável roçar
a pele de abismos?

saibam no fundo,
rasos como as mãos,
que tudo
(a cama a relva o chão)
é trapézio
e que os corpos pesam

menos que o espírito.

   
(pássaro ruim, 2009)

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

manuel bandeira

                                                      
JOSÉ RIBERA, santa maria egipcíaca (1651)

















               
BALADA DE SANTA MARIA EGIPCÍACA
                     
                     
Santa Maria Egipcíaca seguia.
Em peregrinação à terra do Senhor.

Caía o crepúsculo, e era como um triste sorriso de
                                                                   [mártir...

Santa Maria Egipcíaca chegou
À beira de um grande rio.
Era tão longe a outra margem!
E estava junto à ribanceira,
Num barco,
Um homem de olhar duro.

Santa Maria Egipcíaca rogou:
– Leva-me à outra parte do rio.
Não tenho dinheiro. O Senhor te abençoe.

O homem duro fitou-a sem dó.

Caía o crepúsculo, e era como um triste sorriso de
                                                                   [mártir...

– Não tenho dinheiro. O senhor te abençoe.
Leva-me à outra parte.

O homem duro escarneceu: – Não tens dinheiro,
Mulher, mas tens teu corpo. Dá-me o teu corpo,
                                                           [e vou levar-te.
E fez um gesto. E a santa sorriu.
Na graça divina, ao gesto que ele fez.

Santa Maria Egipcíaca despiu
O manto, e entregou ao barqueiro
A santidade da sua nudez.

                                 
                     (manuel bandeira)

sábado, 24 de novembro de 2012

Dafne

                               
GIAN LORENZO BERNINI, apolo e dafne (1622-1625)

  
                                                      
No bosque fundo, o mundo canta e é mudo.
(Pessoa canta: o mito é nada, tudo.)
E as ninfas são, as ninfas dão... mas uma
não! Aquela: a ninfa-nunca, a fulva Dafne,
filha de Ladão, pomba sem milhafre,
que nunca amou ninguém por nada, em suma.

No bosque fundo, o mundo canta e é mudo.
(Pessoa canta: o mito é nada, tudo.)
Amor que também ama sente asco.
Bem-lhe-quer, mal-lhe-quer, as duas flechas
somaram sim com não – e a conta fecha?
Amor que folga ou falta entorna o frasco.

Dafne dispara. E a crina solta as tranças.
(Um deus, mais do que um fauno, jamais cansa;
o que cuspiu Cupido não se evita.)
Fugindo ao deus que louco corre à cata,
correndo seminua pela mata,
o desespero a deixa mais bonita.

E à sombra do milhafre sobre a pomba
(Cupido entre as folhagens ri-se e zomba),
suplica a presa, a fuga quase finda:
 – Eu quero ser loureiro que não ama!
Loureiros não se deitam numa cama!
Mas natureza é mais que mito ainda...

De estar tão arvorada, a lenha exposta,
o corpo se arrepende e quer e gosta
e agora, aberta em flor, cheira a malícias;
implora a Zeus que torne em vento Apolo:
que o deus lhe passe sempre pelo colo,
que vente por seus louros em carícias.
                              
                
* inspirado nos versos finais do soneto II: 12/ Sonetos a Orfeu, de Rilke.
[Rilke, Rainer Maria. Poemas; tradução e introdução de José Paulo Paes. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.]      

terça-feira, 20 de novembro de 2012

post-scriptum

     
                          : la petite mort


[aqui termina
a ínfima viagem órfica
no aqueronte da saliva]


ossários de amor são líquidos
melancólicos felizes


e se o dia implodiu-se               se só a respiração
            sobre si                                tem vigas

                    é preciso dizer: seus peitos

não são ruínas;

barcos de aqueus, de aquéns
subindo e descendo
no horizonte

(res-pi-ra)

crianças
subindo e descendo
a colina

[aqui termina
a ínfima viagem órfica
no aqueronte da saliva]


o que sei eu da Morte
que sei eu de orfeu e suas culpas,
eu que mal e mal
sei da língua e suas liras?

 claro que sim, foi uma delícia, minha lúdica lúbrica nua
eurídice
               

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

9 línguas

                                                 
                    estou aqui: de corpo e língua
                        
                    exact warm unholy
                                   e.e. cummings


1

e se eu lhe desse
um beijo de língua portuguesa

se eu dissesse
que seus ossos
são ruínas tomadas de vegetação rasteira

se eu dissesse
que seus olhos
foram atravessados por um pássaro

que seu sorriso apodreceu meu ódio
como a lepra

se eu dissesse

que, se de sua nudez você se despe
a caminho da rua,

me perde e excomunga
a luz do quarto em sua pele

e se eu       não dissesse

                                           ?
     
                   
2


queria dizer
não com a língua de falar
(mas) a de lamber


3

cuspir a língua
no criado-mudo, para

que no corpo tudo
sejam línguas.

abrir a janela
ao silêncio da estrela:

aquela que virgem,
rameira,
brilha no eremitério
das ruas,
                           brilha
                           em sua virilha.

e deixá-la falar
a noite inteira
 pelo amor de alumiar 
o que nenhuma estrela
é capaz de falar 


4

Amar.

com mãos absurdas



                      (como um mudo exaltado)


5

entoar o CÂNTICO DOS CÂNTICOS
apenas com as mãos


6

revogar o idioma
e expatriar os pés
a primeira vez

de sua nudez
na moldura móvel
de minhas mãos


7

absurdamento:
fiquei parado o coração batendo,

surrado
por uma corja de borboletas.

(não que fosse sua primeira nudez
o meu primeiro alumbramento.)


8

na calada da noite.


amolar
contra a pedra do olho
um relâmpago enferrujado.

e aproveitá-lo (mesmo que contrário
ao silêncio à fala)

como piercing de língua
numa boca que se cala




    o co
            lapso dos
            andaimes da voz

            dos andaimes do
                                             colibri
             
                      do ex-libris

o dia implodido                       só a respiração
            sobre si                                tem vigas


                 o templo vazio

                              pro

                              fanou

 tudo           ,      
                              tu
                              do que resta
                                                está


           h   o   r   i   z   o   n   t   a   l
                               

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

e.e. cummings (VI)

 
o amor é um lugar...

o amor é um espaço
& por esse espaço de
amor se movem
(com o brilho da paz)
todos os espaços

o sim é um mundo
& nesse mundo de
sim vivem
(habilmente enrodilhados)
todos os mundos


tradução: r.m. & r.j.


love is a place...

love is a place
& through this place of
love move
(with brightness of peace)
all places

yes is a world
& in this world of
yes live
(skilfully curled)
all worlds
       

terça-feira, 13 de novembro de 2012

e.e. cummings (V)

 
im(abelha)ó


im(abelha)ó
v(em)el
você(um
a)está(ú
nica)

dorm(rosa)indo?


tradução: r. m.


un(bee)mo


un(bee)mo
n(in)g
are(th
e)you(o
nly)

asl(rose)eep

domingo, 11 de novembro de 2012

pablo neruda

                             

CONSTANTIN BRANCUSI, musa adormecida (1910)


                                           
SONETO XVII

Não te amo como fosses rosa de sal, topázio
ou a flecha de cravos que propagam o fogo:
eu te amo como se amam certas coisas escuras,
secretamente, aqui, entre a alma e a sombra.

Eu te amo como a planta que não floresce e leva
dentro de si, oculto, o lume daquelas flores,
e o difícil aroma desprendido da terra,
graças a teu amor, vive obscuro no meu corpo. 

Te amo sem saber como, nem quando, nem de onde,
te amo diretamente sem orgulho ou problemas:
assim te amo pois não sei amar de outra maneira,

senão assim de modo em que eu não seja ou sejas,
tão próximo que tua mão em meu peito é minha,
tão perto que se fecham teus olhos se adormeço.   
       
versión: r.m. 

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

pintor e poeta (paul klee)

 
POEM

Water
Waves on the water
A boat on the waves
On the boat-deck, a woman
On the woman, a man.

                             (1906)


tradução: anselm hollo (1962)


POEMA

Água
Ondas sobre a água
Um barco sobre as ondas
Sobre o chão do barco, uma mulher
Sobre a mulher, um homem.

                             (1906)


trad. a partir do inglês: r.m.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

aquarelas em D maior

                               
                                 
CAETANO VELOSO, trem das cores (1982)
               
PAUL KLEE, nuvens sobre Bor (1928)

terça-feira, 6 de novembro de 2012

frank o'hara

                                                                  

MIKE GOLDBERG, sardines (1955)

           
POR QUE NÃO SOU PINTOR

               
Não sou pintor, eu sou poeta.
Por quê? Acho que eu preferiria
ser um pintor, mas não sou. Bem,

por exemplo, Mike Goldberg
está começando um quadro. Eu apareço.
"Senta aí e bebe um pouco" ele
diz. Eu bebo; nós bebemos. Dou uma
olhada. "Você escreveu SARDINHAS nele."
"Pois é, faltava alguma coisa ali."
"Ah". Vou embora e os dias se vão
e apareço de novo. O quadro
vai em frente, e eu me vou, e os dias
se vão. Apareço. O quadro está
terminado. "Cadê as SARDINHAS?"   
Tudo o que sobrou são apenas
letras, "Era demais," Mike diz.

Mas e eu? Um dia estou pensando
numa cor: laranja. Escrevo uma linha
sobre o laranja. Em pouco tempo a coisa vira
uma página inteira de palavras, não linhas.
Depois outra página. É preciso haver
muito mais, não do laranja, das
palavras, de como é terrível o laranja
e a vida. Os dias se vão. Até mesmo
em prosa, sou um poeta de verdade. Meu poema
está terminado e eu não mencionei
o laranja ainda. São doze poemas, eu os chamo de
LARANJAS. E um dia numa galeria
vejo o quadro de Mike, chamado SARDINHAS.

(1971)
  
tradução: rodrigo madeira

                                   
WHY I AM NOT A PAINTER
        
I am not a painter, I am a poet.
Why? I think I would rather be
a painter, but I am not. Well,

for instance, Mark Goldberg
is starting a painting. I drop in.
"Sit down and have a drink" he
says. I drink; we drink. I look
up. "You have SARDINES in it."
"Yes, it needed something there."
"Oh." I go and the days go by
and I drop in again. The painting
is going on, and I go, and the days
go by. I drop in. The painting is
finished. "Where's SARDINES?"
All that's left is just
letters, "It was too much," Mike says.

But me? One day I am thinking of
a color: orange. I write a line
about orange. Pretty soon it is a
whole page of words, not lines.
Then another page. There should be
so much more, not of orange, of
words, of how terrible orange is
and life. Days go by. It is even in
prose, I am a real poet. My poem
is finished and I haven't mentioned
orange yet. It's twelve poems, I call
it ORANGES. And one day in a gallery
I see Mike's painting, called SARDINES.

(1971)   

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

paul klee

                        
como manoel de barros
no terreno baldio das palavras,
ou miró por las calles
y colores catalanes,
com 40, 50, 60 anos
e a maturidade plena
de seu velho assombro,
escolheu como último destino
morrer na infância.


              
paul klee, grupo colorido (1939)

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

paulo henriques britto

 

      LUCIAN FREUD, homem numa cadeira (1985)

                                
MAN IN A CHAIR
(Lucian Freud)

Esperar sentado, mas sem
relaxar os músculos. Mãos
tensas nas coxas como quem
prestes a se levantar. Não

como quem, à espera, descansa.
E sim como se encurralado
na cadeira. Sem esperanças
nem expectativas. Sentado

na cadeira como quem não
espera exatamente nada.
Sem certezas, com exceção
da única, e indesejada.

                    (paulo henriques britto)

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

rainer maria rilke/ trad. josé paulo paes

                
 PICASSO, velho homem sentado (1970)  
QUINTA ELEGIA
     

(...)

Lá o murcho, enrugado tronco da estirpe,
o velho que agora só percute um tambor,
encolhido dentro de sua pele excessiva, como se ela antes
contivesse dois homens, um dos quais
jazesse agora no cemitério, e o outro lhe sobrevivesse
surdo e às vezes um tanto confuso 
na pele viúva.

(...)

terça-feira, 30 de outubro de 2012

rainer maria rilke/ trad. josé paulo paes

              
PABLO PICASSO, Os saltimbancos (1905)


QUINTA ELEGIA
               
 
Mas quem são eles, diz-me, estes errantes, algo
mais fugazes que nós, estes a quem desde cedo
uma vontade nunca satisfeita torce com premência:
para quem, por amor de quem? Ela os torce todavia
e os curva, ata e faz balançar,
ela os atira e apanha de volta; como que de um ar
untado, mais liso, eles caem
no ralo tapete desgastado pelos seus
sempiternos pulos, esse tapete
perdido no universo. 

(...)


Oh vós

que uma dor, pequena ainda
outrora acolheu como brinquedo numa das suas
longas convalescenças...

Tu, que numa queda

como a que só as frutas conhecem, cem vezes ao dia
tombas ainda verde da árvore do movimento
erigida em conjunto (e que, mais veloz que água, em 
poucos minutos conhece primavera, estio e outono) 
te desprendes e te chocas contra o túmulo:
às vezes, numa semipausa, quer formar-se em ti
um semblante amoroso e voltar-se para a rara
meiguice de tua mãe; perde-se todavia no teu corpo,
cuja superfície o consome, esse rosto timidamente
esboçado... E de novo
o homem bate as mãos, chamando ao salto, mas já antes
que chegue a precisar-se uma dor nas cercanias 
do teu sempre saltitante coração, o ardume na planta dos pés
lhe antecede a origem, e algumas
lágrimas corporais afloram em teus olhos.
No entanto, às cegas, eis
o sorriso...

(...)
           
* Das Elegias Duinenses. A Quinta Elegia foi diretamente inspirada pela tela Os Saltimbancos, de Pablo Picasso.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

rainer maria rilke/ trad. manuel bandeira

 
torso de apolo likeios (130-161 d.C.)


 














                                     
TORSO ARCAICO DE APOLO

                                           
Não sabemos como era a cabeça, que falta,
De pupilas amadurecidas, porém
O torso arde ainda como um candelabro e tem,
Só que meio apagada, a luz do olhar, que salta

E brilha. Se não fosse assim, a curva rara
Do peito não deslumbraria, nem achar
Caminho poderia um sorriso e baixar
Da anca suave ao centro onde o sexo se alteara.

Não fosse assim, seria essa estátua uma mera
Pedra, um desfigurado mármore, e nem já
Resplandecera mais como pele de fera.

Seus limites não transporia desmedida
Como uma estrela; pois ali ponto não há
Que não te mire. Força é mudares de vida.
                                                                                                     

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

 IBERÊ CAMARGO, Solidão (1994)
                                                                                                                 

pintor e poeta (iberê camargo)

   
NATUREZA-MORTA

             
Sol do meio-dia. Um pálido clarão sobre o muro defronte à janela. O peitoril se acende. Uma abrasada lâmina de luz penetra dentro da sala: corta a mesa, transpassa e recorta os objetos que lhe estão em cima. Eles se acendem: os caramujos gritam seus brancos. Manchas negras lhes escapam debaixo, circundando-os. O vermelho torna-se púrpura; o amarelo, laranja: o arco-íris está sobre a mesa. As garrafas irisadas se tornam irreais.
Não há mais peso nem dimensão, são apenas cores que flutuam no ar. O sol sobe pela parede, ilumina o espelho: enraivecido, foge dele. Desce. Caminha sobre o chão, reto. Não pode parar. Esgrima contra as coisas. Jamais incide no mesmo traço. Não tropeça. Ele se quebra e se recompõe sobre os planos num instante. Traça o perfil da cadeira, toca debaixo da mesa, mede-lhe a altura, desenha-lhe a planta, arrastando-a sobre o chão, a encosta à parede.
Enquanto circula faz desenhos geométricos impalpáveis, figuras de luz, espectros que imediatamente apaga. Depois vai embora. Não deixa vestígio de seu trajeto. Tudo é sanado. Tudo cala.          


                                                                                                           Rio de Janeiro, 1958


[CAMARGO, Iberê. Gaveta dos Guardados. Org. Augusto Massi. São Paulo: Cosac Naify, 2009]

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

william turner

                               
W.T., nascer do sol com monstros marinhos (1845)


MANHÃ

Alumbro-me 
de imenso


GIUSEPPE UNGARETTI
             
* no original: (MATTINA) M'illumino/ d'immenso 
 trad. r.m.  



W.T., navio negreiro (1840)

               
Adeus Adeus

Sol pescoço sem cabeça

                  
GUILLAUME APOLLINAIRE

* do poema Zona (aqui, o poema na íntegra) 
  trad. ivo barroso, marcos siscar, josely baptista vianna, mário laranjeira e nelson ascher


                

W.T., estudo da luz solar (183?)


         
Que nós sigamos, pois, você e eu,
Enquanto o anoitecer se estende pelo céu
Como um paciente eterizado numa mesa

            
T.S. ELIOT

* do poema Canção de Amor de J. Alfred Prufrock
 trad. rodolfo jaruga
                         

terça-feira, 23 de outubro de 2012


Oswald de Andrade     

Em Piratininga

Ano 458 da Deglutição do Bispo Sardinha.
                    

oswald morto

     
   TARSILA DO AMARAL, retrato de oswald de andrade (1922)


                             (por ferreira gullar)
                     

Enterraram ontem em São Paulo
um anjo antropófago
de asas de folha de bananeira
(mais um nome que se mistura à nossa vegetação tropical)

As escolas e as usinas paulistas
não se detiveram
para olhar o corpo do poeta que anunciara a civilização do ócio
Quanto mais pressa mais vagar

O lenço em que pela última vez
assoou o nariz
era a bandeira nacional


          NOTA:
          Fez sol o dia inteiro em Ipanema
          Oswald de Andrade ajudou o crepúsculo
          hoje domingo 24 de outubro de 1954
                                                                                  

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

p. thiago autran

                    
       thiago autran, s/título (2010)
       
                                                                                                     
formas geométricas
(mesmo escuras intrincadas)
são simples e claras 

belas, limpam-
se de nossas vaidades
como quem limpa a fuligem
de um casaco

o floco de neve
a vértebra
um prédio de trinta andares

fosse geométrica
nossa alma 
(e não algébrica
ou metafísica)
por que diabos temeríamos
a morte?

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

paulo leminski

    
     
JEAN-MICHEL BASQUIAT, cavalgando com a morte (1988)
     
 
o esplêndido corcel
vê a sombra do chicote
e corre, esplendores do cavalo
em labirintos de crina
incentivado pelo vento
cancela espaços de quimera
consumindo o tempo
pira que heróis incinera
tinha ímpetos de céu
e sofreguidão sobre o mar
as campinas cerúleas do pólo
o céu pele de onça
e slides do zodíaco
as campinas dolorosas do pélago
onde pascem peixes
e o nó dos polvos chacina o sol
Aqui a fábula falha
no enjoo do jogar das ondas
fere os cascos nas estrelas
e picado pelos gumes
das feras do horóscopo
turva-se um pouco
cai a vigília no sonho
lúcido e súbito já que mártir
Fica na terra, cavalo
o olho cheio de estrelas
o corpo palhaço das ondas
e o coração no peito
feito um pião dormindo!


* embora o poema acima seja dos menos conhecidos de leminski (do livro la vie en close), além de ser talvez, dentre todos, o menos leminskiano, considero seus cinco versos finais alguns dos versos mais bonitos que já li.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

tadeusz różewicz

                                                 
MARK ROTHKO, preto sobre vermelho, mural series (1959)



O PORTAL
                                             
                  Lasciate ogni speranza
                  Voi ch'entrate

                                                                                    
coragem!

por trás desse portal
não há inferno

o inferno foi desmontado
por teologistas
e profundos psicólogos

convertido em alegoria
por razões humanitárias
e pedagógicas

coragem!
por trás desse portal
a mesma coisa recomeça

dois coveiros bêbados
sentam à beira de um buraco

bebem cerveja sem álcool
e devoram linguiças
piscando para nós
sob a cruz
jogam bola
com o crânio de Adão

a cova espera
o corpo do amanhã
o "imóvel" já vem vindo

coragem!

aqui aguardaremos
o juízo final

água empoça na cova
boiam bitucas de cigarro

coragem!

por trás desse portal
não haverá nem história
nem bondade nem poesia

e o que haverá então
caro estranho?

haverá pedras

pedra
sobre pedra
pedra sobre pedra
e sobre a pedra
uma outra
pedra
                                                     
              
tradução: r.m. (a partir de uma versão em inglês feita por joanna trzeciak)

sexta-feira, 12 de outubro de 2012



      


   



  ROSE OF ROTHKO



amarelo     queima     esfola

    cru      vermelho    vivo

   roxo       hérnia       Rosa






INSTRUÇÕES (POR BOB HOLMAN)

Mark Rothko é um desses pintores que, se você não parar, se você não parar e olhar e olhar e ouvir, podem passar despercebidos. A luminosa assunção ocorre apenas por meio do relaxamento visual e da errância despersonalizada.
Quando visitei a magnífica retrospectiva de Rothko na National Gallery (em Washington D.C.), fui acometido pela natureza linear de suas bombas coloridas: é como se todos os quadros fossem compostos (basicamente) de três linhas, como haikus. Vou chamá-los de Rothkos [os poemas], pensei, e os fiz retangulares à maneira de uma pintura...
Ponha você também as devidas cores, como num jogo da velha, e escreva seu ROTHKO!
Como escrever um Rothko
  1. Um Rothko (poema) só pode ser escrito diante de um Rothko (pintura).
  2. Um Rothko é feito de três linhas, três palavras por linha.
  3. Três dessas nove palavras devem ser cores, e devem formar, no poema, uma dessas linhas do jogo da velha.
  4. Como todas as regras da poesia, quebre-as por sua conta e risco.

***
             
ELSE-PORTRAIT


silêncio     de     cézanne
  
       van     gogh   sonhando

matisse     sem     ossos
                            
  
          


* para assistir a um ótimo documentário da BBC, clique aqui 

mark rothko

            

                                 

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

(Parêntesis: mensalão)

                 
Ontem à tarde, o STF finalmente – sete anos e mais de 20.000 páginas de documentos e depoimentos depois – condenou a cúpula do PT pelos abusos e improbidades do mensalão. Ao mesmo tempo, em São Paulo, José Genoino e José Dirceu eram ovacionados por seus correligionários em encontro nacional do partido. 

Apesar da ridícula reação de petistas, insuflados por uma retórica oca e fanática que os leva a chamar de golpismo o cumprimento da Constituição e das atribuições do Supremo,  justiça vem sendo feita. Os três petistas foram enfim condenados – Lula só escapou pois, inacreditavelmente, ficou no "ponto cego", encoberto por sua popularidade, pelo "pop-lulismo", ou populismo simplesmente. 

Mesmo que esses dirigentes não "puxem cana", já é possível cantar vitória: é um exemplo, modelo para o presente e o futuro, a condenação de peixes assim graúdos, de tão importantes colarinhos brancos; algo, aliás, que o próprio PT, à época em que o partido posava de "única vestal no puteiro", sempre cobrou. 

Em cartas abertas, Genoino e Dirceu – e olha que eu já os admirei por sua resistência à ditadura! – inverteram os sinais e acusaram de golpismo aqueles que apuraram, processaram e condenaram o golpismo de seu próprio partido. Todos os implicados atentaram contra um princípio basilar da democracia, a independência dos três poderes, comprando com propinas apoio político para seu projeto de poder.

Senão, vejamos o que disse Ayres Britto, presidente do STF, ao fim de seu voto: foi ferido "o conteúdo mais eminente da democracia, que é a República, o republicanismo, que postula a possibilidade de renovação dos quadros e dirigentes e a equiparação, na medida do possível, das armas com que se disputa a preferência do voto popular (...) [O objetivo do esquema era] um projeto de poder quadrienalmente quadruplicado. Projeto de poder de continuísmo seco, raso. Golpe, portanto."  

Além deles, parlamentares, banqueiros e empresários também foram condenados. E tudo transmitido em tempo real, pela televisão, na íntegra, para quem quisesse acompanhar.  Isso é ou não é novo em um país culturalmente estamental e aristocrático como o nosso? 

O julgamento do mensalão não é outra coisa que uma conquista, um precedente jurídico no mínimo auspicioso na história do Brasil. Também significativo é o fato de que sete dos dez ministros do STF tenham sido indicados por Lula ou Dilma Rousseff, e que tenham, mesmo assim, fugido aos arreios e constrangimentos do poder executivo. 

Se forem necessários, que venham outros processos e condenações por corrupção ativa e passiva, sejam os implicados petistas ou tucanos, pmdbistas ou "democratas" (DEM). Oxalá realmente deixemos, com o tempo e a prática autocrítica e corajosa, de ser a nação do rapapé e do beija-mão. Oxalá estejamos vivenciando uma autêntica quebra de padrões culturais, ainda que incipiente, na contramão do patrimonialismo e de nossa herança ao mesmo tempo autoritária e bunda mole: a fundamental separação entre o público e o privado, entre o interesse nacional e os interesses pessoais ou partidários.   

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

william carlos williams

                                                                   
PAISAGEM COM A QUEDA DE ÍCARO


Segundo Brueghel 
quando Ícaro caiu
era primavera

um lavrador estava arando
suas terras 
todo esplendor

do ano estava 
acordado formigando
perto

a beira-mar
preocupada
apenas consigo mesma

suando ao sol
que derreteu
a cera das asas

insignificantemente
ao largo da costa
deu-se

um choque quase despercebido
era Ícaro
que se afogava
   
                 
tradução: r.m.


LANDSCAPE WITH THE FALL OF ICARUS

According to Brueghel
when Icarus fell
it was spring

a farmer was ploughing
his field
the whole pageantry

of the year was
awake tingling
near

the edge of the sea
concerned
with itself

sweating in the sun
that melted
the wings' wax

unsignificantly
off the coast
there was

a splash quite unnoticed
this was
Icarus drowning   
           

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

w.h. auden

                                                                                                               
 PIETER BRUEGHEL, paisagem com a queda de ícaro (1558)


MUSEE DES BEAUX ARTS


A respeito do sofrimento, eles nunca erravam,
Os velhos Mestres: como compreendiam bem
Sua posição entre os homens: como ele se dá
Enquanto uma outra pessoa está comendo ou abrindo uma janela ou apenas caminhando monotonamente;
Como, quando os idosos estão reverentemente, apaixonadamente esperando
Pelo milagroso nascimento, sempre deve haver 
Crianças que não faziam questão de que isso acontecesse, patinando
Em uma lagoa congelada à beira da mata:
Eles nunca esqueceram 
Que mesmo o terrível martírio deve seguir seu curso
De alguma maneira, num canto, em algum ponto descuidado
Onde os cachorros seguem com sua vida de cachorro e o cavalo do torturador
Coça o inocente traseiro em uma árvore.

No Ícaro de Brueghel, por exemplo: como tudo se aparta 
Tranquilamente do desastre; o lavrador talvez
Tenha ouvido o barulho, o grito solitário, 
Mas para ele não foi um importante fracasso; o sol brilhava
Como deveria nas brancas pernas que desapareciam em verdes
Águas, e o rico e delicado navio que deve ter visto
Algo incrível, um garoto despencando do céu,
Tinha que chegar a algum lugar e calmamente velejou adiante.    
             
                                                        
tradução: rodrigo madeira
                                  
   
MUSEE DES BEAUX ARTS
       
About suffering they were never wrong,
The old Masters: how well they understood
Its human position: how it takes place
While someone else is eating or opening a window or just walking dully along;
How, when the aged are reverently, passionately waiting
For the miraculous birth, there always must be
Children who did not specially want it to happen, skating
On a pond at the edge of the wood:
They never forgot
That even the dreadful martyrdom must run its course
Anyhow in a corner, some untidy spot
Where the dogs go on with their doggy life and the torturer's horse
Scratches its innocent behind on a tree.
In Breughel's Icarus, for instance: how everything turns away
Quite leisurely from the disaster; the ploughman may
Have heard the splash, the forsaken cry,
But for him it was not an important failure; the sun shone
As it had to on the white legs disappearing into the green
Water, and the expensive delicate ship that must have seen
Something amazing, a boy falling out of the sky,
Had somewhere to get to and sailed calmly on.