quarta-feira, 31 de outubro de 2012

rainer maria rilke/ trad. josé paulo paes

                
 PICASSO, velho homem sentado (1970)  
QUINTA ELEGIA
     

(...)

Lá o murcho, enrugado tronco da estirpe,
o velho que agora só percute um tambor,
encolhido dentro de sua pele excessiva, como se ela antes
contivesse dois homens, um dos quais
jazesse agora no cemitério, e o outro lhe sobrevivesse
surdo e às vezes um tanto confuso 
na pele viúva.

(...)

terça-feira, 30 de outubro de 2012

rainer maria rilke/ trad. josé paulo paes

              
PABLO PICASSO, Os saltimbancos (1905)


QUINTA ELEGIA
               
 
Mas quem são eles, diz-me, estes errantes, algo
mais fugazes que nós, estes a quem desde cedo
uma vontade nunca satisfeita torce com premência:
para quem, por amor de quem? Ela os torce todavia
e os curva, ata e faz balançar,
ela os atira e apanha de volta; como que de um ar
untado, mais liso, eles caem
no ralo tapete desgastado pelos seus
sempiternos pulos, esse tapete
perdido no universo. 

(...)


Oh vós

que uma dor, pequena ainda
outrora acolheu como brinquedo numa das suas
longas convalescenças...

Tu, que numa queda

como a que só as frutas conhecem, cem vezes ao dia
tombas ainda verde da árvore do movimento
erigida em conjunto (e que, mais veloz que água, em 
poucos minutos conhece primavera, estio e outono) 
te desprendes e te chocas contra o túmulo:
às vezes, numa semipausa, quer formar-se em ti
um semblante amoroso e voltar-se para a rara
meiguice de tua mãe; perde-se todavia no teu corpo,
cuja superfície o consome, esse rosto timidamente
esboçado... E de novo
o homem bate as mãos, chamando ao salto, mas já antes
que chegue a precisar-se uma dor nas cercanias 
do teu sempre saltitante coração, o ardume na planta dos pés
lhe antecede a origem, e algumas
lágrimas corporais afloram em teus olhos.
No entanto, às cegas, eis
o sorriso...

(...)
           
* Das Elegias Duinenses. A Quinta Elegia foi diretamente inspirada pela tela Os Saltimbancos, de Pablo Picasso.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

rainer maria rilke/ trad. manuel bandeira

 
torso de apolo likeios (130-161 d.C.)


 














                                     
TORSO ARCAICO DE APOLO

                                           
Não sabemos como era a cabeça, que falta,
De pupilas amadurecidas, porém
O torso arde ainda como um candelabro e tem,
Só que meio apagada, a luz do olhar, que salta

E brilha. Se não fosse assim, a curva rara
Do peito não deslumbraria, nem achar
Caminho poderia um sorriso e baixar
Da anca suave ao centro onde o sexo se alteara.

Não fosse assim, seria essa estátua uma mera
Pedra, um desfigurado mármore, e nem já
Resplandecera mais como pele de fera.

Seus limites não transporia desmedida
Como uma estrela; pois ali ponto não há
Que não te mire. Força é mudares de vida.
                                                                                                     

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

 IBERÊ CAMARGO, Solidão (1994)
                                                                                                                 

pintor e poeta (iberê camargo)

   
NATUREZA-MORTA

             
Sol do meio-dia. Um pálido clarão sobre o muro defronte à janela. O peitoril se acende. Uma abrasada lâmina de luz penetra dentro da sala: corta a mesa, transpassa e recorta os objetos que lhe estão em cima. Eles se acendem: os caramujos gritam seus brancos. Manchas negras lhes escapam debaixo, circundando-os. O vermelho torna-se púrpura; o amarelo, laranja: o arco-íris está sobre a mesa. As garrafas irisadas se tornam irreais.
Não há mais peso nem dimensão, são apenas cores que flutuam no ar. O sol sobe pela parede, ilumina o espelho: enraivecido, foge dele. Desce. Caminha sobre o chão, reto. Não pode parar. Esgrima contra as coisas. Jamais incide no mesmo traço. Não tropeça. Ele se quebra e se recompõe sobre os planos num instante. Traça o perfil da cadeira, toca debaixo da mesa, mede-lhe a altura, desenha-lhe a planta, arrastando-a sobre o chão, a encosta à parede.
Enquanto circula faz desenhos geométricos impalpáveis, figuras de luz, espectros que imediatamente apaga. Depois vai embora. Não deixa vestígio de seu trajeto. Tudo é sanado. Tudo cala.          


                                                                                                           Rio de Janeiro, 1958


[CAMARGO, Iberê. Gaveta dos Guardados. Org. Augusto Massi. São Paulo: Cosac Naify, 2009]

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

william turner

                               
W.T., nascer do sol com monstros marinhos (1845)


MANHÃ

Alumbro-me 
de imenso


GIUSEPPE UNGARETTI
             
* no original: (MATTINA) M'illumino/ d'immenso 
 trad. r.m.  



W.T., navio negreiro (1840)

               
Adeus Adeus

Sol pescoço sem cabeça

                  
GUILLAUME APOLLINAIRE

* do poema Zona (aqui, o poema na íntegra) 
  trad. ivo barroso, marcos siscar, josely baptista vianna, mário laranjeira e nelson ascher


                

W.T., estudo da luz solar (183?)


         
Que nós sigamos, pois, você e eu,
Enquanto o anoitecer se estende pelo céu
Como um paciente eterizado numa mesa

            
T.S. ELIOT

* do poema Canção de Amor de J. Alfred Prufrock
 trad. rodolfo jaruga
                         

terça-feira, 23 de outubro de 2012


Oswald de Andrade     

Em Piratininga

Ano 458 da Deglutição do Bispo Sardinha.
                    

oswald morto

     
   TARSILA DO AMARAL, retrato de oswald de andrade (1922)


                             (por ferreira gullar)
                     

Enterraram ontem em São Paulo
um anjo antropófago
de asas de folha de bananeira
(mais um nome que se mistura à nossa vegetação tropical)

As escolas e as usinas paulistas
não se detiveram
para olhar o corpo do poeta que anunciara a civilização do ócio
Quanto mais pressa mais vagar

O lenço em que pela última vez
assoou o nariz
era a bandeira nacional


          NOTA:
          Fez sol o dia inteiro em Ipanema
          Oswald de Andrade ajudou o crepúsculo
          hoje domingo 24 de outubro de 1954
                                                                                  

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

p. thiago autran

                    
       thiago autran, s/título (2010)
       
                                                                                                     
formas geométricas
(mesmo escuras intrincadas)
são simples e claras 

belas, limpam-
se de nossas vaidades
como quem limpa a fuligem
de um casaco

o floco de neve
a vértebra
um prédio de trinta andares

fosse geométrica
nossa alma 
(e não algébrica
ou metafísica)
por que diabos temeríamos
a morte?

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

paulo leminski

    
     
JEAN-MICHEL BASQUIAT, cavalgando com a morte (1988)
     
 
o esplêndido corcel
vê a sombra do chicote
e corre, esplendores do cavalo
em labirintos de crina
incentivado pelo vento
cancela espaços de quimera
consumindo o tempo
pira que heróis incinera
tinha ímpetos de céu
e sofreguidão sobre o mar
as campinas cerúleas do pólo
o céu pele de onça
e slides do zodíaco
as campinas dolorosas do pélago
onde pascem peixes
e o nó dos polvos chacina o sol
Aqui a fábula falha
no enjoo do jogar das ondas
fere os cascos nas estrelas
e picado pelos gumes
das feras do horóscopo
turva-se um pouco
cai a vigília no sonho
lúcido e súbito já que mártir
Fica na terra, cavalo
o olho cheio de estrelas
o corpo palhaço das ondas
e o coração no peito
feito um pião dormindo!


* embora o poema acima seja dos menos conhecidos de leminski (do livro la vie en close), além de ser talvez, dentre todos, o menos leminskiano, considero seus cinco versos finais alguns dos versos mais bonitos que já li.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

tadeusz różewicz

                                                 
MARK ROTHKO, preto sobre vermelho, mural series (1959)



O PORTAL
                                             
                  Lasciate ogni speranza
                  Voi ch'entrate

                                                                                    
coragem!

por trás desse portal
não há inferno

o inferno foi desmontado
por teologistas
e profundos psicólogos

convertido em alegoria
por razões humanitárias
e pedagógicas

coragem!
por trás desse portal
a mesma coisa recomeça

dois coveiros bêbados
sentam à beira de um buraco

bebem cerveja sem álcool
e devoram linguiças
piscando para nós
sob a cruz
jogam bola
com o crânio de Adão

a cova espera
o corpo do amanhã
o "imóvel" já vem vindo

coragem!

aqui aguardaremos
o juízo final

água empoça na cova
boiam bitucas de cigarro

coragem!

por trás desse portal
não haverá nem história
nem bondade nem poesia

e o que haverá então
caro estranho?

haverá pedras

pedra
sobre pedra
pedra sobre pedra
e sobre a pedra
uma outra
pedra
                                                     
              
tradução: r.m. (a partir de uma versão em inglês feita por joanna trzeciak)

sexta-feira, 12 de outubro de 2012



      


   



  ROSE OF ROTHKO



amarelo     queima     esfola

    cru      vermelho    vivo

   roxo       hérnia       Rosa






INSTRUÇÕES (POR BOB HOLMAN)

Mark Rothko é um desses pintores que, se você não parar, se você não parar e olhar e olhar e ouvir, podem passar despercebidos. A luminosa assunção ocorre apenas por meio do relaxamento visual e da errância despersonalizada.
Quando visitei a magnífica retrospectiva de Rothko na National Gallery (em Washington D.C.), fui acometido pela natureza linear de suas bombas coloridas: é como se todos os quadros fossem compostos (basicamente) de três linhas, como haikus. Vou chamá-los de Rothkos [os poemas], pensei, e os fiz retangulares à maneira de uma pintura...
Ponha você também as devidas cores, como num jogo da velha, e escreva seu ROTHKO!
Como escrever um Rothko
  1. Um Rothko (poema) só pode ser escrito diante de um Rothko (pintura).
  2. Um Rothko é feito de três linhas, três palavras por linha.
  3. Três dessas nove palavras devem ser cores, e devem formar, no poema, uma dessas linhas do jogo da velha.
  4. Como todas as regras da poesia, quebre-as por sua conta e risco.

***
             
ELSE-PORTRAIT


silêncio     de     cézanne
  
       van     gogh   sonhando

matisse     sem     ossos
                            
  
          


* para assistir a um ótimo documentário da BBC, clique aqui 

mark rothko

            

                                 

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

(Parêntesis: mensalão)

                 
Ontem à tarde, o STF finalmente – sete anos e mais de 20.000 páginas de documentos e depoimentos depois – condenou a cúpula do PT pelos abusos e improbidades do mensalão. Ao mesmo tempo, em São Paulo, José Genoino e José Dirceu eram ovacionados por seus correligionários em encontro nacional do partido. 

Apesar da ridícula reação de petistas, insuflados por uma retórica oca e fanática que os leva a chamar de golpismo o cumprimento da Constituição e das atribuições do Supremo,  justiça vem sendo feita. Os três petistas foram enfim condenados – Lula só escapou pois, inacreditavelmente, ficou no "ponto cego", encoberto por sua popularidade, pelo "pop-lulismo", ou populismo simplesmente. 

Mesmo que esses dirigentes não "puxem cana", já é possível cantar vitória: é um exemplo, modelo para o presente e o futuro, a condenação de peixes assim graúdos, de tão importantes colarinhos brancos; algo, aliás, que o próprio PT, à época em que o partido posava de "única vestal no puteiro", sempre cobrou. 

Em cartas abertas, Genoino e Dirceu – e olha que eu já os admirei por sua resistência à ditadura! – inverteram os sinais e acusaram de golpismo aqueles que apuraram, processaram e condenaram o golpismo de seu próprio partido. Todos os implicados atentaram contra um princípio basilar da democracia, a independência dos três poderes, comprando com propinas apoio político para seu projeto de poder.

Senão, vejamos o que disse Ayres Britto, presidente do STF, ao fim de seu voto: foi ferido "o conteúdo mais eminente da democracia, que é a República, o republicanismo, que postula a possibilidade de renovação dos quadros e dirigentes e a equiparação, na medida do possível, das armas com que se disputa a preferência do voto popular (...) [O objetivo do esquema era] um projeto de poder quadrienalmente quadruplicado. Projeto de poder de continuísmo seco, raso. Golpe, portanto."  

Além deles, parlamentares, banqueiros e empresários também foram condenados. E tudo transmitido em tempo real, pela televisão, na íntegra, para quem quisesse acompanhar.  Isso é ou não é novo em um país culturalmente estamental e aristocrático como o nosso? 

O julgamento do mensalão não é outra coisa que uma conquista, um precedente jurídico no mínimo auspicioso na história do Brasil. Também significativo é o fato de que sete dos dez ministros do STF tenham sido indicados por Lula ou Dilma Rousseff, e que tenham, mesmo assim, fugido aos arreios e constrangimentos do poder executivo. 

Se forem necessários, que venham outros processos e condenações por corrupção ativa e passiva, sejam os implicados petistas ou tucanos, pmdbistas ou "democratas" (DEM). Oxalá realmente deixemos, com o tempo e a prática autocrítica e corajosa, de ser a nação do rapapé e do beija-mão. Oxalá estejamos vivenciando uma autêntica quebra de padrões culturais, ainda que incipiente, na contramão do patrimonialismo e de nossa herança ao mesmo tempo autoritária e bunda mole: a fundamental separação entre o público e o privado, entre o interesse nacional e os interesses pessoais ou partidários.   

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

william carlos williams

                                                                   
PAISAGEM COM A QUEDA DE ÍCARO


Segundo Brueghel 
quando Ícaro caiu
era primavera

um lavrador estava arando
suas terras 
todo esplendor

do ano estava 
acordado formigando
perto

a beira-mar
preocupada
apenas consigo mesma

suando ao sol
que derreteu
a cera das asas

insignificantemente
ao largo da costa
deu-se

um choque quase despercebido
era Ícaro
que se afogava
   
                 
tradução: r.m.


LANDSCAPE WITH THE FALL OF ICARUS

According to Brueghel
when Icarus fell
it was spring

a farmer was ploughing
his field
the whole pageantry

of the year was
awake tingling
near

the edge of the sea
concerned
with itself

sweating in the sun
that melted
the wings' wax

unsignificantly
off the coast
there was

a splash quite unnoticed
this was
Icarus drowning   
           

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

w.h. auden

                                                                                                               
 PIETER BRUEGHEL, paisagem com a queda de ícaro (1558)


MUSEE DES BEAUX ARTS


A respeito do sofrimento, eles nunca erravam,
Os velhos Mestres: como compreendiam bem
Sua posição entre os homens: como ele se dá
Enquanto uma outra pessoa está comendo ou abrindo uma janela ou apenas caminhando monotonamente;
Como, quando os idosos estão reverentemente, apaixonadamente esperando
Pelo milagroso nascimento, sempre deve haver 
Crianças que não faziam questão de que isso acontecesse, patinando
Em uma lagoa congelada à beira da mata:
Eles nunca esqueceram 
Que mesmo o terrível martírio deve seguir seu curso
De alguma maneira, num canto, em algum ponto descuidado
Onde os cachorros seguem com sua vida de cachorro e o cavalo do torturador
Coça o inocente traseiro em uma árvore.

No Ícaro de Brueghel, por exemplo: como tudo se aparta 
Tranquilamente do desastre; o lavrador talvez
Tenha ouvido o barulho, o grito solitário, 
Mas para ele não foi um importante fracasso; o sol brilhava
Como deveria nas brancas pernas que desapareciam em verdes
Águas, e o rico e delicado navio que deve ter visto
Algo incrível, um garoto despencando do céu,
Tinha que chegar a algum lugar e calmamente velejou adiante.    
             
                                                        
tradução: rodrigo madeira
                                  
   
MUSEE DES BEAUX ARTS
       
About suffering they were never wrong,
The old Masters: how well they understood
Its human position: how it takes place
While someone else is eating or opening a window or just walking dully along;
How, when the aged are reverently, passionately waiting
For the miraculous birth, there always must be
Children who did not specially want it to happen, skating
On a pond at the edge of the wood:
They never forgot
That even the dreadful martyrdom must run its course
Anyhow in a corner, some untidy spot
Where the dogs go on with their doggy life and the torturer's horse
Scratches its innocent behind on a tree.
In Breughel's Icarus, for instance: how everything turns away
Quite leisurely from the disaster; the ploughman may
Have heard the splash, the forsaken cry,
But for him it was not an important failure; the sun shone
As it had to on the white legs disappearing into the green
Water, and the expensive delicate ship that must have seen
Something amazing, a boy falling out of the sky,
Had somewhere to get to and sailed calmly on.
                             

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

eucanaã ferraz

                
UMA COISA CASA

I
            
No início
era apenas
lé com lé

cré com cré
e variações 
disso.

Depois, faz-se o Hélio
E Hélio,
seu parangolé.

E como o homem
já era verbo,
eis que o homem disse:

se o chalé
é a casa
do barão do café,

o parangolé
será o palácio
da ralé;

se os bichos
se refugiaram na arca
de noé,
as bichas estarão
felizes no arco
do parangolé;
se a oca é
o abrigo do Pajé
e de seu povo,

o oco do Parangolé
também será
evoé!

pois se o gueto é
bairro do não,
o Parangolé

será praia dos sins
de Lygia Clark, Monsueto,
Waly Salomão;

se o medo corre
serviçal
à saia da fé,

o Parangolé
será de si mesmo
o sal, a Sé.

Pois que seja a linguagem
como quer o filósofo
a morada do ser;

mas eu vos digo,
em verdade, que
o Parangolé é a casa do é.

                                                 
                   EUCANAÃ FERRAZ
                   
* primeira das três partes do poema. 



nildo da mangueira, com parangolé 
de HÉLIO OITICICA (1964) 

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

sandálias & peneiras


sandálias e peneiras
ARTHUR BISPO DO ROSÁRIO, sandálias e peneiras
   
                                                                                                                       

de sandálias nos pés o espaço ganhas
sobre a seda de tão sonhadas dunas.
ao precípite andar em chãs nenhumas,
luas pânicas pulsam, subterrâneas.

o que gritas e calas sob a Letra?
raízes estouradas e sem nomes,
despetaladas anjas de mil fomes,
verdades absolutas obsoletas?

do que perdes, preso, inda fica
sisifar precipícios com prazer?
"eu, bispo, que coo meu café na mitra,

exponho, sujo de sol, a vocês"
– então um quase ouvir de tanto ver 
"loucura bem mais sã que a lucidez."


(sol sem pálpebras, 2007)

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

andré kertész (1894-1985)

     





* da série distorções  (1933).  o fotógrafo de origem húngara tirou aproximadamente 200 fotografias das modelos najinskaya verackhatz e kasine nadia, nuas e distorcidas por espelhos côncavos e convexos de parques de diversões.