domingo, 1 de janeiro de 2012

endomingados

                                                                                             
por que no domingo a água
tem outra velocidade
e é sempre feriado nacional
em nossas vísceras?
por que no domingo
o amor é mais lento, baldio,
vadiado
e os corpos pesam
10 gramas subtraídos?

por que há este insético zumbido
nas retinas?
por que este vazio grávido
de tudo – espera
do quê, meu deus?

por que nossas mãos ficam
quase cristalinas?
e a ordem natural pode ser
suspensa e de uma crisálida
irromper um pássaro?
por que as árvores cantam
um tom mais alto
e os cães latem noutra língua?

por que a vida respinga
das páginas que viramos
quando lemos
e o amor, ósseo, dói alegre como flor
nascendo
sobre o ombro esquerdo?

***

não há consolo necessário,
domingo não é preciso.

domingo não é um dia,
apenas mais um dia.

domingo é uma semana,
domingo é a vida inteira.

                  
                    LU CAÑETE & RODRIGO MADEIRA


(pássaro ruim, 2009)
                                                                                

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