sexta-feira, 26 de agosto de 2011

uã molher (ou: cantiga de amor e escárnio)

                                   
U o coito d´amor, coita d´amor.

                            RODRIGO ALFONSO DE SÁ-MADEIRA



* "U" significa "onde" em galego-português.

** Rodrigo Alfonso de Sá-Madeira (Lamego, 1215-1263).  Ao verso acima transcrito, cantigas completas e verso avulso (embora titulado), seus admiradores, já no século XIV, apuseram o subtítulo Cantiga de Amor e EscárnioDo cancioneiro madeiriano, a única obra que não se fadou a extravio. 
Sua escansão - dez sílabas poéticas - preclaramente dissona da arbitrária regularidade silábica observável nos trovadorismos (o poema, ao revés, mantém-se decassílabo do começo ao fim); exatamente por isso - e, ademais, por conta da paranomásica e primorosa antítese -,  o grande Trovador de Lamego ensoleirou, séculos depois, o classicismo ibérico, fazendo enorme comoção entre os maiores nomes do período. El-Rei D. Dinis (1261-1325), cujo dom poético antecedia ao Dom nobiliárquico, mandou que erguessem em honras do incontrastável lamecense uma estátua, de triste destino pulverizada, em 1755, pelo terremoto que arruinou Lisboa.
Não obstante, não foram poucos a detratá-lo. (Lá como cá, trasantontem como hoje, literaturas são vespeiros onde a abelha solitária ressuma os méis.) Paio Soares Taveirós, à guisa de exemplo, foi daqueles que, dissaborosos, infamaram-lhe a reputação: o pé de seu poema-total seria quebrado, vez que se faz, segundo a má-lingua, entre as duas primeiras palavrículas a inelutável elisão. Contudo e contodos, tirante aleivosias e et coeteras, ou ainda que outros mais, "oportunistas especializados", tentem a todo preço  (à semelhança já se fez a Shakespeare) desacreditar-lhe o gênio e mesmo a existência, Sá-Madeira foi - dentre os maiores líricos de Lusitânia - o maior e mais profícuo dos trovadores luso-galegos. 

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