Estamos todos voltados para a direção de Meca. Torço pelos tunisianos, egípcios, iemenitas e líbios revoltosos. Mas com apreensão. Longe de mim querer, como aponta Edward Said em “Orientalismo”, dar uma de taxidermista cultural e essencializar os muçulmanos ou reduzir os árabes a uma categoria retrógrada (antimoderna) de indivíduo. Nem é minha intenção reafirmar uma identidade negativa do tipo: eu, um ocidental civilizado, sou tudo o que um muçulmano não é ou jamais poderá ser. Não creio na tal visão, a meu ver altamente redutora, do “choque de civilizações” e, quando uso termos como “ocidental” ou “Ocidente”, sei que recorro mais a uma abstrata economia de palavras do que propriamente a uma civilização, estanque e bem definida.
O Oriente Médio é um assunto caprichoso e espinhoso até para quem dedica sua vida a estudá-lo. Uma “geografia política” estilhaçada em etnias e tribos, sunitas e xiitas, governos seculares e teocráticos, de quebra complicada à enésima potência pela criação de Israel em 1948 e as sucessivas e desastrosas políticas norte-americanas para a região. Um verdadeiro camelo na sala de estar.
Quem se arrisca a fazer futurologia em um cenário tão incerto? Mas podemos, sem incorrer em prejulgamentos, temer – e temer bastante. Uma coisa parece certa para todos os especialistas que acompanham o desdobrar dos acontecimentos: a enxurrada revolucionária que ora vemos muito provavelmente mudará a cara e o equilíbrio de forças na região. Na esteira disso, o Ocidente, totalmente “viciado” no óleo negro prospectado pelos árabes, também se verá diante de impasses e reordenações de suas políticas exteriores.
Um problema maior, no entanto, reponta nos “horizontes que cheiram a gasolina”. Embora haja cinquenta e três países majoritariamente islâmicos no mundo, diversos em tudo e inclassificáveis pelas mãos de necropsistas culturais, um fantasma comum parece rondá-los, em especial o Oriente Médio e o Al Magreb: o fanatismo religioso. Povos mergulhados no caldo de desespero, falta de coesão e tradição democrática – somando-se a isso os ambíguos sentimentos de atração e repulsa, admiração e ressentimento diante das potências ocidentais –, tornam-se suscetíveis ao carisma inflamado e às soluções mágicas e maniqueístas oferecidas pelos radicais.
Revoluções são eventos excepcionais e magnéticos. Hipnóticos como tornados, são ao mesmo tempo terríveis e belos, entusiasmantes e assustadores. Acrescente-se a espontaneidade combativa de um povo cansado da tirania, impossível não se tornar simpatizante de primeira hora. O problema é que as revoluções podem engolir rapidamente seus artífices mais legítimos e maiores interessados – o povo –, dando ensejo a radicalismos de toda ordem. A história moderna é farta em exemplos: de Robespierre a Stálin, de Mao a Khomeini. Líderes megalomaníacos a ponto de se elegerem representantes diretos da História ou de Deus, pelo bem da revolução, “condenados” a perpetuar-se no poder (nem precisamos ir tão longe: pensemos em Fidel Castro). A partir desse ponto, qualquer opositor ou moderado é tido como “contrarrevolucionário” ou “infiel”; o regime precisa eliminá-lo.
A África como um todo, mas agora em foco a África Árabe, é outro bem acabado exemplo. Muitos dos tiranos que a partir dos anos 60 subiram ao poder, fizeram-no por meio de revoluções populares ou golpes de estado com amplo apoio da população. O próprio Muamar Kadafi tornou-se o supremo coronel, em 1969, aclamado como o salvador da pátria e sucessor de Gamal Abdel Nasser na condução do pan-arabismo secular. Kadafi, há 41 anos no poder, é um desses líderes absolutamente medíocres, mas oportunistas e carismáticos, em tudo opostos aos estadistas: uma síntese fatal de megalomania, incompetência e brutalidade.
Desde o processo de descolonização, no pós-guerra, dois caminhos políticos se abriram no Oriente Médio e no Norte da África: de um lado, velhas monarquias ou emirados, com forte controle dos costumes por meio da religião; de outro, regimes militares na figura de um coronel nacionalista. Ambos com o mesmo denominador: a completa ausência de democracia; além, é claro, do tradicional múltiplo comum: prisões arbitrárias, torturas e execuções extrajudiciais. Ambos em um perigoso jogo de aproximações e afastamentos, inibições e incitações de grupos islâmicos radicais. Por isso estas revoluções podem ser tão assustadoras. Com o colapso em cascata das velhas ditaduras seculares, uma verdadeira caixa de pandora venha talvez a ser aberta. Não é segredo para ninguém que, nas revoluções, via de regra as forças mais radicais e organizadas politicamente (além de, ideologicamente, carismáticas) tendem a prevalecer. No caso específico dos atuais países conflagrados, implica dizer que há uma grande probabilidade de que os fanáticos muçulmanos prevaleçam, a exemplo do que vimos no Irã dos teomaníacos aiatolás.
Tomo a liberdade de dizer que o Oriente Médio corre o risco de passar por ainda mais profundo processo de “wahhabização”. O wahhabismo é uma corrente radical saudita (e portanto sunita) que em tudo resume o fanatismo religioso. Defende tanto a expansão pelos territórios infiéis quanto a severa e inflexível aplicação das leis islâmicas. Ainda no século XVIII, quando surgiu, até mesmo o famigerado Marquês de Sade tratou de acusar-lhe o autoritarismo monstruoso. O wahhabismo é a doença crônica do islamismo. Seu principal sintoma é a absurda literalidade corânica, o desejo de impor leis e costumes extemporâneos e abomináveis. Apedrejamentos, mutilações, mortes sumárias de infiéis, opressão sistemática das mulheres. Não há multiculturalismo capaz de justificá-lo. Desde John Locke pelo menos, passando pelos iluministas, temos a possibilidade de escolha de uma plataforma moral e intelectual em favor da vida e da liberdade de ação e pensamento. Qualquer multiculturalismo que tente negociar ou torcer estes valores, cai de imediato no cinismo. Direitos humanos são universais. A ânsia de entender diferentes culturas não pode chegar ao ponto de justificar regimes que fazem de tudo para sufocar diferenças políticas e religiosas.
Traçando um paralelo entre o cristianismo e o islamismo, percebo que duas importantes questões podem ser levantadas. Antes de mais nada, não posso deixar de afirmar, sem meias palavras, quais os meus critérios: tanto Estados seculares quanto democracias liberais são melhores do que, respectivamente, teocracias e regimes autoritários. Democracias liberais e laicas são sempre mais eficientes e livres do que qualquer regime arbitrário, pouco importa se a verdade e a morte são encomendadas a Deus, militares ultranacionalistas ou burocratas do Partido. Dito isso, vamos à comparação: Jesus Cristo, embora fosse filho de Deus e o próprio Deus (vai entender...), era ao mesmo tempo um joão-ninguém. Nunca teve intenção de criar ou gerir um Estado. Já o islã, além de refundar a religiosidade dos povos árabes urbanos e berberes, surgiu com evidentes pretensões políticas: unir as diversas tribos rivais por meio de uma identidade comum, império e religião amalgamados. Mohammad não foi um joão-ninguém; empunhando ele mesmo um alfanje, foi o fundador de um dos maiores, mais poderosos e longevos impérios sobre a terra. Por isso, me parece, talvez seja ainda mais difícil para os muçulmanos a separação entre Estado e religião. Para boa parte deles, o ideal é que se resgate a glória e, de alguma maneira, um modo de vida que remonte àquele período entre o século VII e o século XIV. Não conheço cristãos que defendam o retorno aos gloriosos tempos de Constantino, primeiro imperador romano a converter-se ao cristianismo. Na cristandade ocidental, felizmente, a Igreja foi desautorizada a exercer poder político que ultrapasse o poder cultural e diplomático (o tal soft power). Entretanto, não tenho dúvida de que, se lhe dessem uma segunda chance, o Vaticano não perderia a oportunidade de mais uma vez dar as cartas – e de fazê-lo novamente com intolerância e terror. Pois esta é a natureza das religiões que detêm poder político excessivo: intolerância e terror. O mundo, ou uma parcela dele, nas mãos de líderes religiosos é o pior dos mundos possíveis. Religiões só conseguem ser minimamente saudáveis quando se tornam uma opção individual, integralmente circunscritas à vida privada.
Chegamos ao ponto. Em grande parte dos países islâmicos, mulás, aiatolás e outras autoridades religiosas ainda têm amplos poderes políticos e jurídicos para administrar almas e Estados. Obviamente, a secularização do Ocidente foi um processo lento e difícil, que demandou séculos. Daí também nasce a preocupação: quando os países muçulmanos (exceto a Turquia) estarão de fato prontos a adotar o regime democrático? E, enquanto isso não acontece, qual será o destino destas revoluções belíssimas e irrefreáveis que comovem e entusiasmam tanto aqueles que se mobilizam em seu epicentro, quanto aqueles que assistem a tudo de longe, pela televisão e pelos jornais?
O barulho de um tirano quando cai soa como música. É lindo. Mas alguém inevitavelmente ocupará seu lugar. Sempre é possível que a emenda seja pior que o soneto. Quem poderá afirmar que Lênin e Stálin foram melhores do que o czar Nicolau II? Ou que o xá Reza Pahlevi foi pior do que o aiatolá Khomeini?
Estamos voltados para a direção de Meca. A caravana da História mais uma vez passa enquanto os cães, fiéis ou infiéis, ladram. Resta-nos torcer. Que os árabes sublevados vençam duplamente, tanto o status quo autoritário quanto as seduções do radicalismo religioso. Que o desespero seja sempre menor do que a maturidade política e o sonho da democracia. Fanáticos religiosos não têm nada a oferecer além de cinzas, suratas e sangue.