segunda-feira, 27 de junho de 2011
domingo, 26 de junho de 2011
arlequins
p. antonio madeira
Paulo Henrique Ganso, Neymar, Robinho e André,
em recordação que não tenho e não se esquece,
trazem a mim – dando astúcia de mão aos pés –
Dorval e Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe.
Santos endemoninhados, peixes da peste,
tudo o que desfaz no outro e faz em nós a fé,
tudo o que tu, meu pai, em detalhe disseste,
tanto que, no estádio de dentro, em sonho até
chegou a fato consumado eu lá estivesse
como arqueiro do Santos que se compadece,
feliz, do que noutros é triste ou garnisé
à arteciranda, o irresistível da maré...
Eu lembro aquilo que não vi mas não se esquece,
Dorval e Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe.
* Poema do ano passado, por ocasião do título na Copa do Brasil. O técnico é outro, o elenco mudou um bocado, mas são os mesmos a alma e o intelecto do time (Neymar e Ganso). Além disso, a campanha do tricampeonato começou exatamente com a conquista daquele torneio.
** Parodiando Armando Nogueira: a tabelinha entre Arouca, Ganso e Neymar confirma a existência de Deus.
quinta-feira, 23 de junho de 2011
notícia de são paulo
PENSANDO BEM
Pensando bem malgrado
termos chegado sobre
o assunto em pauta a pontos
de vista não opostos
é claro mas decerto
distintos mesmo assim
eu fundamentalmente
concordo com você
porém como esses pontos
de vista embora nem
de todo opostos mesmo
assim trazem à tona
idéias diferentes
pensando bem talvez
eu não concorde sempre
em tudo com você
aliás dado que nossos
pontos de vista envolvem
idéias não de todo
é claro diferentes
pensando bem discordo
assim mesmo nem sempre
nem necessariamente
em tudo de você
discordo não porque
no assunto em pauta nossos
pontos de vista sejam
diametralmente opostos
mas já que suas idéias
são não só diferentes
como imbecis pensando
bem foda-se você
NELSON ASCHER
quarta-feira, 22 de junho de 2011
notícias de são paulo
ESTE LIVRO É PARA O LEITOR*
atônito, normal
desses que jamais terão
o nome impresso nos jornais
exceto em caixa baixa
anúncio final
anônimo, pedestre
modesto passageiro de seu tempo
que por uma questão de espaço
chega sempre atrasado
aos últimos lançamentos
comum, usuário
que neste mundo engarrafado
usa o poema
como meio de transporte
***
WORK IN PROGRESS
em cima da mesa
muitas coisas permanecem
inconclusas
uma xícara de café
e aquele homem em pé
na beira do viaduto
***
POVO ERRANTE
na esquina do farol
o menino me empurra
duas balas por um real.
Dou a nota
mas digo para guardar as balas.
Ele insiste
- pega a bala, doutor -
quer completar a transação.
O sinal continua fechado.
Pergunto seu nome.
Moisés.
Aquele mesmo
diante de quem um dia
se abriu o mar vermelho
ALBERTO MARTINS
* dedicatória do livro "em trânsito" (companhia das letras, 2010).
terça-feira, 21 de junho de 2011
segunda-feira, 20 de junho de 2011
minuto de cínica sabedoria (XI)
Não se esqueça, dois óbulos sobre os olhos do coitado: um pra pagar Caronte, e outro pra Caronte pagar um possível guardador de barcos.
***
Ninguém me convence do contrário: Orfeu olhou pra trás como quem sai, aos 90 do segundo tempo, do armário. Deixem-no em paz, ninfas e ninfetas! O cara simplesmente lembrou-se – pobre Eurídice! – da terrível serpente de Aristeu.
***
Não é revisionismo mitológico nem nada; é só que um mito às vezes mente. Narciso, por exemplo, não se afogou por estar apaixonado pela própria imagem. Todo homem ou semideus (ou semi-homem) em algum momento se apaixona pela própria imagem. Afogou-se porque não sabia nadar. Isso qualquer salva-vidas vai lhe dizer... Mais ainda: não sabendo nadar, não gritou por socorro. E isso qualquer psico ou noinha em reabilitação pode lhe afiançar.
***
É infinitamente mais fácil escalar o Everest do que o Hades.
sexta-feira, 17 de junho de 2011
duas ways de dizer the same thing
eu te amo
como amiga
inimiga
inimiga
como amante
eu te amo pois
a qualquer momento
a qualquer momento
por razão obscura
que nem mesmo tu
desvendas
desvendas
podes me deixar
ou beijar.
i love you
as a friend
an enemy
and as a lover
i love you
i love you
because
at any moment
(´cause the soul is nothing
but
a flight of birds
a flight of birds
over the meadows,
blinding flesh
in the sky on the grass)
in the sky on the grass)
for some obscure reason
unknown even
t(w)o yourself
you may leave me
or love me.
or love me.
* do livro "pássaro ruim" (ed. medusa, 2009)
quarta-feira, 15 de junho de 2011
james joyce #2
Second Part
Openning which tells of the journeyings of the Soul
Segunda Parte
Abertura que fala das jornadas da Alma
Openning which tells of the journeyings of the Soul
Segunda Parte
Abertura que fala das jornadas da Alma
All day I hear the noise of waters
Making moan,
Sad as the sea-bird is when going
Forth alone
He hears the winds cry to the waters´
Monotone.
O dia todo ouço o murmúrio de águas
Em lamento,
Triste assim como é a gaivota solitária
Contra o vento
Ouvindo o mar chorando o seu monótono
Movimento.
The grey winds, the cold winds are blowing
Where I go.
I hear the noise of many waters
Far below.
All day, all night, I hear them flowing
To and fro.
Os ventos frios e cinzentos vêm uivando sobre
Mim também.
Eu ouço o murmúrio de muitas águas
Baixo, além.
O dia todo, a noite toda, eu ouço seu eterno
Vai-e-vem.
tradução: ivan justen
james joyce
ECCE PUER
Do passado escuro
Um menino nasce;
Alegre e sofrido
Meu peito desfaz-se.
Tranquilo no berço
O vivo, à vontade;
Seus olhos que os abram
Amor e piedade!
Nova vida o vidro
Respirada embaça;
O que antes nem era
Como veio passa.
Um velho se foi:
Descansa um menino.
Ó pai renegado,
Perdoa teu filho!
trad.: rodrigo madeira
ECCE PUER
Of the dark past
A child is born;
With joy and grief
My heart is torn.
Calm in his cradle
The living lies.
May love and mercy
Unclose his eyes!
Young life is breathed
On the glass;
The world that was not
Comes to pass.
A child is sleeping:
An old man gone.
O, father forsaken,
Forgive your son!
* ecce puer (é um menino!) foi escrito em 1932, ano em que nasceu o neto e morreu o pai de james joyce.
segunda-feira, 13 de junho de 2011
minuto de cínica sabedoria (X)
A irresponsabilidade faz parte do prazer na arte; é a parte que os acadêmicos não sabem reconhecer.
JAMES JOYCE
sábado, 11 de junho de 2011
the beatles
EU SOU A MORSA (Lenny & Macário T. Ney)
Eu sou ele como você é ele como você sou eu
E nós estamos nessa juntos
Veja como correm como porcos de um revólver
Veja como correm como porcos de um revólver
Veja como voam
Estou chorando
Sentado num floco de sucrilhos
Esperando a kombi chegar
Camiseta da empresa, maldita estúpida terça-feira
Cara, você tem sido travesso
Você deixou sua cara se alongar
Eu sou o homem-ovo
Eles são os homens-ovo
Eu sou a mossa
Zirigui birim bum
Sr. guarda municipal sentadinho
Os Policiais, bem bonitinhas, em fila
Veja como voam como Lúcia lá no céu
Veja como correm
Estou chorando
Estou chorando, estou chorando
Gosma amarelenta
Pingando do olho dum cachorro morto
Peixe-esposa do apanhador no campo
de caranguejos
Pornográfica freira
Piá, você tem sido uma menina safada
Você deixou sua calcinha na altura dos joelhos
Eu sou o homem-ovo
Eles são os homens-ovo
Eu sou a morsa
Zirigui birim bum
Sentado no Jardim Botânico
Esperando o sol sair
Se o sol não sai, você pega um bronze
Lagarteando na chuva curitibana
Eu sou o homem-ovo
Eles são os homens-ovo
Eu sou a mossa
Zirigui birim bum zirigui birim bum
Textudos expertos, fumantes fim-de-fôlego
Vocês não acham que o rufião ri de vocês?
Riem o tempo inteiro como porcos no chiqueiro
Veja que zombeteiros
Estou chorando
Sêmola Sardinha
Escalando a torre da Telepar
O pinguim elementar cantando Hare Krishna
Cara, cê tinha que ter visto os caras
Chutando o Dalton Trevisan
Eu sou o homem-ovo
Eles são os homens-ovo
Eu sou a morsa
Zirigui birim bum zirigui birim bum
Zirigui birim bum zirigui birim bum ziri
Zirigui birim bum zirigui birim bum ziri
Bumda bumda bumda
Bumda bumda bumda
Bumda bumda bumda bumda
Bumda bumda
tradução: mr. wood
I am here as you are here as you are me/And we are all together/See how they run like pigs from a gun/See how they fly/I'm crying//Sitting on a cornflake/Waiting for the van to come/Corporation T-shirt, stupid bloody Tuesday/Man you've been a naughty boy/You let your face grow long//I am the eggman/They are the eggmen/I am the walrus/Goo goo g' joob//Mr. City policeman sitting/Pretty little policemen in a row/See how they fly like Lucy in the sky/See how they run/I'm crying/
I'm crying, I'm crying, I'm crying//Yellow matter custard/Dripping from a dead dog's eye/Crabalocker fishwife/Pornographic priestess/Boy, you've been a naughty girl/You let your knickers down//I am the eggman/They are the eggmen/I am the walrus/Goo goo g' joob//Sitting in an English garden/Waiting for the sun/If the sun don't come, you get a tan/From standing in the English rain//I am the eggman/They are the eggmen/I am the walrus/Goo goo g' joob/Expert, texpert choking smokers/Don't you think the joker laughs at you/See how they smile like pigs in a sty/See how they snide/I'm crying//Semolina Pilchard/Climbing up the Eiffel tower/Elementary penguin singing Hare Krishna/Man, you should have seen them kicking/Edgar Allen Poe//I am the eggman/They are the eggmen/I am the walrus/Goo goo g' joob/Goo goo g' joob/Goo goo g' joob/Goo goo g' joob//Juba juba juba/Juba juba juba/Juba juba juba juba/juba juba
I'm crying, I'm crying, I'm crying//Yellow matter custard/Dripping from a dead dog's eye/Crabalocker fishwife/Pornographic priestess/Boy, you've been a naughty girl/You let your knickers down//I am the eggman/They are the eggmen/I am the walrus/Goo goo g' joob//Sitting in an English garden/Waiting for the sun/If the sun don't come, you get a tan/From standing in the English rain//I am the eggman/They are the eggmen/I am the walrus/Goo goo g' joob/Expert, texpert choking smokers/Don't you think the joker laughs at you/See how they smile like pigs in a sty/See how they snide/I'm crying//Semolina Pilchard/Climbing up the Eiffel tower/Elementary penguin singing Hare Krishna/Man, you should have seen them kicking/Edgar Allen Poe//I am the eggman/They are the eggmen/I am the walrus/Goo goo g' joob/Goo goo g' joob/Goo goo g' joob/Goo goo g' joob//Juba juba juba/Juba juba juba/Juba juba juba juba/juba juba
sexta-feira, 3 de junho de 2011
robert frost
À MARGEM DA FLORESTA NUMA NOITE DE NEVE
Acho que sei a quem pertence a mata.
No vilarejo, entanto, é a sua casa;
Não me verá parado, circunspecto,
Ante a floresta mais e mais nevada.
Meu cavalinho acha estranho decerto
Parar sem qualquer cocheira por perto
Entre a floresta e o lago congelado,
Dentre as noites, no escuro mais imerso.
Os sinos de seu arreio vibrados
Perguntam-me se existe algo de errado.
O único outro som que se faz ouvir
É a neve que cai, o vento assoprado.
Bela é a floresta, sem fundo ou luzir,
Mas eu tenho promessas a cumprir,
E milhas que andar antes de dormir,
E milhas que andar antes de dormir.
tradução: rodrigo madeira
STOPPING BY WOODS ON A SNOWY EVENING
Whose woods these are I think I know.
His house is in the village, though;
He will not see me stopping here
To watch his woods fill up with snow.
My little horse must think it queer
To stop without a farmhouse near
Between the woods and the frozen lake
The darkest evening of the year.
He gives his harness bells a shake
To ask if there is some mistake.
The only other sound´s the sweep
Of easy wind and downy flake.
The woods are lovely, dark, and deep,
But I have promises to keep,
And miles to go before I sleep,
And miles to go before I sleep.
minuto de cínica sabedoria (VIII)
A gente sabe, basta se encostar em Fausto Wolff: a arte é um "fandango pra matar a morte". Não resulta, a gente sabe. E nem por isso deixa de ser uma forma de matar a morte. Nem por isso a arte deixa de ser este malsucedido atentado.
minuto de cínica sabedoria (VII)
e continuamos. é tempo de porte atlético.
tempo de seres tautológicos
e velhas hiperativas, de futuro traçado.
mas ainda é tempo de morrer e falar.
* trecho do poema meu tempo, livre tradução temporal de nosso tempo – drummond, 1940
("pássaro ruim", 2007)
quinta-feira, 2 de junho de 2011
bilhete
escrevi um verso
um poema
um livro
e daí?
se a esquadria do que escrevo
não me segura
o esqueleto de água
se vou morrer
se vais morrer
se vai morrer a língua
em que escrevo
se vai morrer o país
que fala minha língua
e todas as linguas de todos
os países que falam
por que esta teimosia
em escrever?
por que não deixar
o passado fedendo
o futuro mentindo
impunemente
o presente apenas
o que já vai deixando de ser
escrevo como quem
vive e não vai viver
não como quem
à visitação pública
em terras de amanhã
se enraíza e flora
eu escrevo não para ficar,
meu amor,
escrevo para ir embora
* do livro "sol sem pálpebras" (imprensa oficial, 2007)
quarta-feira, 1 de junho de 2011
minuto de cínica sabedoria (VI)
Um dia, ainda moleque, escrevi feliz da vida: o suicida é um covarde – com a última coragem que lhe resta, a mais monumental de que os homens são capazes, vai matar-se.
Interessante isso. Interessante e sábia cretinice de um pequeno moralista. Hoje cuido, perplexo, que a "definição" seja outra, bem mais óbvia e insondável: muitas vezes até para aquele que se mata, o suicídio é para sempre um mistério.
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